Estou separando esta continuação do Especial em partes porque primeiro, o terror está para a televisão ultimamente como os super-heróis estão para o cinema. Alguém percebeu que o negócio dava audiência e aconteceu uma verdade explosão de programas de tv do gênero, como nunca houve em outra década, então, não vai caber tudo em um só post. Segundo, porque 2020 não chegou ainda e eu preciso manter este texto em aberto por mais algum tempo. Temporadas ainda serão lançadas em muitas séries, enquanto que outras chegarão ao fim, me dando mais material para trabalhar nos próximos meses. Ainda não há uma data para as outras partes, mas caso você não conheça as edições anteriores ou queira revisitá-las, os links seguem abaixo:

ESPECIAL SÉRIES – 1950 e 1960

ESPECIAL SÉRIES – 1970

ESPECIAL SÉRIES – 1980

ESPECIAL SÉRIES – 1990

ESPECIAL SÉRIES – 2000

O texto abaixo contém alguns spoilers

 

THE WALKING DEAD – 2010 – 

THE WALKING DEAD

No início, foi a realização de um sonho, porque todos nós queríamos algo do tipo mas nunca pensamos que seria possível. Uma história praticamente sem fim sobre um grupo de pessoas, completos estranhos, encontrando forças uns nos outros para sobreviver ao apocalipse. O perigo viria de todos os lados na forma de parentes, amigos e desconhecidos que se recusam a morrer tradicionalmente e sem nenhuma explicação se tornam zumbis, que enquanto tem um pouco de carne grudada aos ossos atacam os que ainda estão vivos. Pessoas de diferentes origens se juntariam por conivência e necessidade e com o passar dos episódios, um vínculo de amor e companheirismo se formaria entre eles (e entre eles e nós do outro lado da telinha), fazendo de The Walking Dead a série de televisão mais vista e mais comentada por um bom tempo. Nunca nos envolvemos tanto…”Se Daryl morrer, a gente protesta!”, “Onde está Sofia?”, “ O Governador não é páreo para O GRUPO”…

Nós vimos o braço direito de Rick ser transformado em um homem sem caráter, por causa dos efeitos causados nele pelo fim do mundo. Através deste mesmo homem, descobrimos que o vírus da imortalidade não era uma exclusividade dos mordidos e arranhados. Os grandes vilões apareceram, cada um com o seu tempo limitado, cada um com a sua loucura, ensinando que enquanto um Shane estava sendo eliminado, outros dele estavam surgindo por todo o canto. Tudo era muito interessante de se ver e nós continuamos assistindo e torcendo, sem perceber que por uma mistura de ganância corporativa e histeria de fã clube, uma conclusão para a série nunca passava pela cabeça de ninguém. Se a série mantinha no ar ou matava, se ia em uma ou outra direção, era sob o comando dos fãs, dos que mais queriam que não houvesse fim para a história. De uma certa forma, o nosso amor prejudicou o andamento das coisas e fez a série se perder de forma irrecuperável. A produção estica tanto os episódios, e eu odeio admitir que isso acontecia desde a primeira temporada, que longas sequências viraram episódios inteiros e por consequência, temporadas completas de enrolação com poucos eventos para empolgar o público.

THE WALKING DEAD 2

A série demorava muito para evoluir e no final das contas, as evoluções eram deixadas de lado para exibir uma fórmula repetitiva e desinteressante de contar a história. Não deveria ter durado tantos anos. Deveria ter acabado antes que a vida no campo full time se tornasse uma necessidade. A série que vemos agora é uma pós-série, ou seja, aquela porção de informação que só aconteceria nas nossas mentes, quando uma história já terminou e os personagens se acomodaram esperançosos em algum lugar. The Walking Dead se resumiu a mostrar o que acontece depois que todas as aventuras acabam. Por acaso o grupo chegou a ir para o oeste dos Estados Unidos? Tentar a vida em um lugar completamente diferente, ir na praia, invadir uma mansão? Já que houveram tantas diferenças em relação aos quadrinhos, por que não teve uma temporada em que eles encontram um navio do governo, que parece ser a salvação da humanidade, até que pela razão que for, eles precisem fugir em um barquinho de volta para terra firme no final da temporada? Por que os zumbis nunca sofreram alguma mutação? Sei lá, do tipo que acabava com a metade mais podrinha deles, enquanto a metade mais fresca se tornava mais rápida, mais forte e mais perigosa, trazendo o medo de volta para o vilão de origem? Tantas oportunidades perdidas! Eu amei muito, mas se até o Rick já jogou a toalha…

 

HANNIBAL – 2013 – 2015

Hannibal-Full-Cast

 

Esqueça Clarice Starling, porque os eventos na série se passam bem antes da agente em treinamento do F.B.I. , pedir a ajuda do doutor canibal para prender Buffalo Bill. A base para Hannibal é uma criação livre e independente de como seria o início da relação entre Lecter e Will Graham, protagonistas de O Dragão Vermelho, livro lançado antes de O Silêncio dos Inocentes. Will, um brilhante consultor criminal com um pé na insanidade, usa uma técnica controversa e muito pessoal de empatia com o assassino, para iluminar cenas de crimes violentos e revelar detalhes que jamais seriam notados pelos detetives mais experientes. Hannibal Lecter, outro consultor do F.B.I., aparentemente mais estável emocionalmente e agradável que o outro, serve como um auxiliar e psicólogo de Will, enquanto destrói e manipula a vida de policiais, vítimas e criminosos por puro prazer. Quando Will começa a notar a verdadeira natureza do parceiro de trabalho, sua vida se torna um inferno. Afinal, quem vai acreditar em um doido, ainda mais sem evidências concretas?

Visualmente, a série é impecável! Pesadelos, medos e até desejos são ilustrados com imagens de terror belíssimas, que vira e mexe invadem um episódio para chocar e desnortear o público, que precisa decifrar o significado dessas representações artísticas em relação ao que acontece paralelamente na história. Igualmente bem cuidado, é o visual de Lecter, que aparece mais jovem e descolado do que nos filmes na pele do talentoso Mads Mikkelsen, de quem eu sou fã desde que vi sua performance em Depois do Casamento, antes dele fazer o vilão em Casino Royale (sim, eu sou uma hipster que vira fã de desconhecidos antes de eles se tornarem populares). Quando anunciaram a série, eu não botava muita fé até descobrir que Mads herdaria o papel título. Nas mãos do ator dinamarquês, Lecter é um homem de aparência refinada, que mantém o status de ícone do terror mesmo aparecendo mais vezes em cena do que o tempo recomendável pelos especialistas. Através da série, nós conseguimos conhecer um pouco mais do conflito ambulante que é o canibal, com seu amor pelas artes e seu desprezo pela vida. Nem com seu simplório avental sobre outra vestimenta elegante, preparando pratos de encher a boca d’água com ou sem carne humana entre os ingredientes, ele perde a atmosfera predatória e é sempre, SEMPRE o homem mais perigoso em qualquer recinto, acompanhado de quem for e independente das circunstâncias.

HANNIBAL 2

A primeira é um pouco fraca, mas a segunda temporada começa sabiamente pelo final da mesma, mostrando que o reinado de horror de Lecter está por um fio. Não há outra alternativa a não ser acompanhar o desenrolar da história com ansiedade. A terceira e última parte da série tem finalmente a participação do vilão do primeiro livro, com Will e Lecter trabalhando juntos, só que sem segredos entre eles. É quase que uma batalha entre um anjo e um anjo caído com ambos fascinados pelas mentes um do outro, e nós pela deles. Ascensão, queda e por fim, colaboração com a polícia, sempre no tempo e nos termos de Lecter, caso contrário, ele não se diverte. Ninguém quer estar por perto de um Hannibal Lecter entediado.

 

BLACK MIRROR – 2011 – …

BLACK MIRROR

A ideia era usar reais ou futuramente possíveis avanços tecnológicos como ponto de partida para diversas histórias, completamente diferentes a cada episódio, como uma maneira de prever ou denunciar sua importância, mau uso ou dependência em uma sociedade. Essa antologia de ficção científica e terror, nos moldes de Além da Imaginação e Contos da Cripta, é menos resistente às facilidades do mundo moderno do que se espera, focando seus esforços em uma discussão sobre a nossa adaptação e interação com instrumentos e engenhocas high tech. Em Black Mirror, o meio não é o problema, nós somos.

Quase sempre contando com os roteiros do criador Charlie Brooker, mas com os mais variados estilos de direção interpretando seus textos, quando não uma equipe criativa totalmente nova no comando de um único episódio, Black Mirror expande seus temas relacionados à tecnologia, dos mais fantasiosos como na prisão/tortura psicológica de uma criminosa em White Bear ou no hilário USS Callister, em que um chefe sádico sequestra a identidade de seus colegas de trabalho para o próprio entretenimento, até os temas mais próximos da nossa realidade atual, como o hacker que inferniza os personagens de Shut Up And Dance ou o terrorista que obriga o primeiro ministro britânico a ter relações com um porco em frente às câmeras de televisão em The National Anthem. Entre estes extremos, estão alguns episódios inspirados nas plataformas de interação que possuímos agora, só que de uma maneira exagerada como a versão do Instagram de Nosedive, que decide com pontos injustos quem é digno de uma vida maravilhosa e quem não é nem digno de atenção, ou o Twitter dos infernos que mata gente impopular em Hated In The Nation. Devemos utilizar uma tecnologia que rompe com a ética, é a pergunta de Be Right Back, onde uma viúva traz o marido de volta usando o histórico online dele. Sob outro ponto de vista, San Junipero e Hang the DJ questionam se devemos nos reprimir e aceitar as normas sociais, ou usar a tecnologia disponível para viver um amor de verdade.

BLACK MIRROR 2

Existe Black Mirror para todos os gostos e sempre que uma temporada termina, eu me vejo engajada em descobrir quais estão entre os favoritos da galera e entre aqueles que não agradaram muito, porque os meus gostos nem sempre concordam com a maioria. Por exemplo, Metalhead é um dos menos populares mas muito legal na minha opinião. Por outro lado, um bem avaliado que eu achei chato foi Fifteen Million Merits. Agora que o Netflix abraçou a causa, eu acredito que o padrão deixará de ser poucos episódios lançados em blocos como grandes raridades, com anos de separação entre eles. Quem sabe teremos mais espaço para alguns que são quase mini filmes, com antologias dentro de antologias como White Christmas e Black Museum. Poucos episódios fracos e muitos episódios maravilhosos fazem da série uma fonte de entretenimento imperdível. O mais assustador pra mim foi Playtest e pra você?

 

AMERICAN HORROR STORY – 2011 – …

AMERICAN HORROR STORY

Enquanto algumas antologias são um erro ou um acerto de acordo com o episódio, American Horror Story precisa de uns três ou quatro capítulos, para que uma opinião justa possa ser formada, sobre o desenvolvimento do tema escolhido para aquela temporada. Como um grupo de teatro que troca de histórias a cada ano, A.H.S era ousado quando mantinha os mesmo atores interpretando papéis diferentes a cada nova empreitada e esperando que a gente aceitasse isso numa boa, como se não fosse badernar o consciente e o inconsciente do público. Assim como era ousado quando se inspirava em acontecimentos reais da história americana, fazendo justiça ao nome da série, sem censurar para a telinha alguns crimes cheios de detalhes macabros, como o palhaço assassino a la John Wayne Gacy da quarta temporada, ou um hotel na quinta temporada que espelha outro, cheio de histórias de terror de verdade situado na mesma cidade. Isso quando a série não chutava o balde de vez e transformava gente real em personagens, como a Dalia Negra na primeira temporada ou Delphine LaLaurie na terceira. É como um recado para o público e possíveis críticos que diz: “ok, é uma obra de ficção, de cunho sobrenatural, que por seu conteúdo extravagante pode desagradar muitos de vocês, mas não se esqueçam de que parte do que estamos mostrando aqui, não é uma invenção feita para assustar e aconteceu mesmo, em solo americano”.

A abertura de cada temporada, é um deleite para os olhos e já se torna uma placa de aviso gigante pra quem não é muito chegado no gênero. A série é realmente bem vulgar em relação a mortes e tortura e exagera não só na quantidade de sangue como nas reviravoltas que cada temporada dá, com personagens e história mudando completamente de rumo e nem sempre como um método planejado para surpreender quem assiste. As vezes é bem aleatório e meio sem sentido mesmo. O estilo bagunçado, quase sem chão, onde nenhum personagem é digno de confiança e uma revelação na metade da temporada, desmorona grande parte do suporte que atrai e segura o público, me fez rejeitar a série logo que Murder House, título da primeira temporada, terminou. Por sorte, alguns anos depois, eu resolvi voltar a assisti e me surpreendi com Asylum, a minha favorita até agora, igualmente cheia de enredos paralelos e carente de explicações para muita coisa, mas desta vez, a confusão era sentida pelos personagens também e eles lidavam com ela junto com a gente. Coven, a mais adolescente das histórias, é outro ponto fraco pra mim. Mas é logo nesta terceira temporada que ficam mais evidentes as intenções do programa de discutir assuntos que muita gente não quer abordar, como adultério, depressão e morte, além de um tom mais militante com temas como preconceito, racismo, opressão e o papel da religião na vida cotidiana.

AMERICAN HORROR STORY 2

Freak Show, a quarta temporada, submete seus atores a próteses e efeitos especiais para relembrar o que já foi considerado terror pelo grande público, na época das atrações de circo extra-oficiais, onde muita gente com deformações no corpo não tinha outra alternativa a não ser se sujeitar à humilhação pública para ganhar dinheiro. Na quinta temporada, um Hotel recebe hóspedes com todo o tipo de vício que você possa imaginar. Dentro do local, assassinos agem livremente, os degenerados são reis e culpas não são transferidas a terceiros. Roanoke foi outra forte temporada com uma proposta bem legal. Como um reality show, as vítimas de uma propriedade mal assombrada descrevem suas experiências para as câmeras, enquanto tudo é encenado por atores no local supostamente amaldiçoado. No meio da temporada tudo muda, quando os atores e sobreviventes são convidados a passar mais uma noite na casa, agora cheia de câmeras para registrar tudo. Com Cult terminada recentemente e o anúncio de Apocalypse para o ano que vem, A.H.S. não mostra sinais de que a terra do Tio Sam está ficando sem histórias terríveis para servirem de inspiração.

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