Eu nem consigo calcular, de quanto tempo seria preciso para dar conta de todas as séries de terror lançadas nos anos 2000. Imagine assistir e escrever sobre todas elas, com tantas temporadas e episódios. Teve de tudo. Vampiros e serial killers como mocinhos, desenhos, antologias, minisséries e até reality shows com o medo como o personagem principal. Eu vou admitir derrota desde o início, apresentando apenas a amostra famosa (apesar de nem sempre prestigiada) da década.

SCARE TACTICS (2003 – 2012)

scare_tacticsSe reality show é o mal do século, o terror que adora o “mal” não pode ficar de fora desta categoria de série. Esqueça o Fear Factor! Aquilo é um Big Brother com dublês, onde as pessoas conhecem os riscos, assinam contratos e competem por dinheiro. Scare Tactics é um programa de câmera escondida, onde o alvo da piada realmente merece o título de vítima.

Aqui está uma mudança interessante. Todos os programas até agora, tinham o propósito de assustar a audiência, mas este aqui nos convida a participar como cúmplices, vendo um desconhecido sendo aterrorizado por algo quase sempre sobrenatural, mas familiar para quem já viu muitos filmes de terror. A diversão está em assistir outra pessoa ficar com medo.

Nesse tipo de programa, que arrancou gritos estridentes dos inocentes participantes, não se brincava nem com idosos, nem com crianças, mas isso não impediu alguns processos na justiça. Os episódios tem meia hora, com segmentos de no máximo cinco minutos, cada um com uma “brincadeira” e uma vítima diferente. Parece curtinho e os gritos só acontecem no último minuto, mas eu não vou esconder que são momentos difíceis de aguentar. Se é ruim pra gente, para o enganado deve ser insuportável, por mais que aquela risada nervosa tente disfarçar, nos últimos segundos quando a piada é revelada.

CORAGEM, O CÃO COVARDE – COURAGE THE COWARDLY DOG (1999 – 2002)

courage-the-cowardly-dogPara mim o coitado nunca foi covarde, os eventos que aconteciam com o cachorro é que eram extraordinários. Ele não saia atrás de encrenca não, ela o encontrava! Muitas histórias no cinema ou na tv, falam sobre a angústia de saber que o perigo está próximo, sendo que ninguém acredita em você, só que com Coragem é um pouco diferente. Ele sente a ameaça, fala sobre ela, pesquisa uma salvação no computador, mas morando em uma fazendinha no Kansas com um casal de idosos, não há para quem pedir ajuda, porque os donos estão sempre em perigo e não tem mais ninguém por perto. Ele não tem escolha a não ser o heroísmo.

O desenho é muito engraçado, mas ignora a fragilidade do público alvo com algumas das imagens mais assustadoras da televisão. A animação é o 2D padrão, mas de vez em quando, eu diria, nos momentos mais sádicos da série, alguns vilões aparecem em 3D e até em stop motion. O efeito é assustador, não só porque é um universo sendo invadido por algo que não faz parte dele, sem aviso, mas também porque essas criações horripilantes mal cabem na tv, muito menos em um desenho.

O resultado de Coragem, o Cão Covarde, são jovens mentes traumatizadas e possíveis horas de terapia. Ele parecia infantil e foi vendido como tal, mas era mais apropriado ao Adult Swim, o horário do Cartoon Network reservado para um público mais velho. Nem todos os episódios terminavam bem, mas esse não era o problema. Alguns episódios terminavam tão mal, que o desenho só pode ter sido criado para pessoas como eu.

MESTRES DO TERROR – MASTERS OF HORROR (2005 – 2007)

masters-of-horrorO bom e velho formato de séries com histórias completamente independentes, chegou ao novo milênio sob mãos competentes, diversas delas. Se existe um tema em Mestres do Terror é a direção dos episódios, não dos melhores diretores do mundo, somente dos melhores especializados em terror.

Todos os episódios da série são como um mini filme, com créditos do episódio que duram uma eternidade, logo após os créditos de abertura. A história de cada um também demora para começar de verdade, como se os diretores estivessem trabalhando para o cinema, onde controle remoto não existe.

Eu acho que nenhum desses mestres teria concordado em trabalhar na tv, sem determinar algumas regras para a produção, a principal sendo não fazer algo parecido com Além da Imaginação. Em muitos episódios é possível reconhecer o estilo do responsável, porque todos os diretores tiveram a liberdade para fazer o que já faziam no cinema. John Carpenter é tão abusado, que coloca o próprio nome no título do seu episódio. John Landis homenageia sua própria obra e Takashi Miike dirige aquele que, é claro, acaba banido pela emissora logo após a primeira exibição.

Tem episódios de Mestres do Terror para todos os gostos dos fãs do gênero, para mim todos valem a pena. Tem aqueles em que os diretores fazem um esforço tremendo para provar que merecem ser chamados de mestres. Aqueles em que os diretores sabem que estão no lugar certo e usam a hora que lhes foi cedida, para superar o trabalho dos colegas e existem os episódios em que os diretores estão simplesmente se divertindo muito. Quem sai ganhando com todos eles somos nós.

SOBRENATURAL – SUPERNATURAL (2005 – …)

SupernaturalVocê provavelmente nunca verá esta série entre os indicados ao Globo de Ouro ou ao Emmy e realmente, falando de roteiro, não são os mais bem escritos. Só que Sobrenatural não quer e não precisa de prêmio nenhum, são dez temporadas (e ainda não acabou) de muito sucesso e pouquíssima pretensão, porque o entretenimento está em primeiro plano.

Dean e Sam Winchester são dois irmãos que perderam a mãe muito cedo, para uma sequência bem maluca de efeitos especiais… ou demônios, se você preferir. O pai os ensinou a caçar e lutar contra as forças do mal, até que precisou desaparecer, deixando a dupla se virar sozinha. Nem sempre eles conseguem, mas sempre seguem em frente. Ao longo dos anos, os irmãos se separam, se reencontram, conhecem anjos, brigam com os anjos, formam alianças, matam muito, matam tanto que alguns mortos voltam, virão vilões e voltam a ser mocinhos em uma série que não tem a consistência como um ponto forte.

Sobrenatural é repleta de referências ao mundo pop e de sinais que indicam que ninguém está nem aí para julgamentos. Eles realmente se propuseram a fabricar um mito, mesmo sem ter o prestígio para isso. O carro/símbolo da independência e da rebeldia, a dieta a base de hamburger e as identidades que Sam e Dean usam como disfarce: Sr. Paige e Sr. Plant, Sr. Mulder e Sr. Scully, agente Spears e agente Aguillera… tudo é diversão e como poderia ser diferente? Os protagonistas não podem ter uma vida normal, nem ao menos uma namorada, sem que ela morra ou se revele um demônio no sentido literal. Que eles estejam pelo menos livres para curtir a companhia um do outro com humor e este é o melhor aspecto da série, a interação entre Sam e Dean. Eles estão em um patamar criado pela própria série, o dos personagens bad ass que agem dentro do risco calculado. Se você não se apaixonar por eles, vai com certeza amar a trilha sonora. Carry On My Wayward Son!

DEXTER (2006 – 2013)

DexterNada é convencional em Dexter. A cidade onde se passa é Miami, sempre associada à praia, férias ou aposentadoria. O personagem principal é um serial killer, que trabalha para o departamento de polícia, junto com a irmã e seguindo os passos do falecido pai, também policial. O conselheiro e bússola moral de Dexter são um fantasma e suas vítimas não são inocentes. Dexter é um “psicopata do bem”, que só mata outros serial killers.

A série é rica em humor negro, começando pela abertura, que é uma mistura da vida secreta com a vida cotidiana do personagem, como uma introdução ao tema da série. De dia, Dexter é o inofensivo rato de laboratório, encarregado das análises de sangue das cenas dos crimes, o fluido corpório que mais o agrada. Quando ninguém está olhando, sua verdadeira personalidade aparece, revelando um homicida frio e muito bem preparado, que em muitos casos, divulga resultados errados nos seus testes, para liberar um criminoso e ter o prazer de ir atrás dele sozinho, fazendo justiça ao seu modo.

Dexter encontra muita gente ruim pelo caminho e mata sem dó em todos os episódios, mas cada temporada é dedicada a um oponente que se destaca e testa as habilidades do justiceiro. O maior apelo da série são essas batalhas épicas, que acompanhamos através dos olhos e da mente doentia de um homem que não consegue parar de matar. Nos apaixonamos por sua inteligência e fingimento, mas é uma pena que o senso de humor não tenha durado por toda a série. Eu sugiro que você ignore qualquer episódio após o espetacular final da quarta temporada. Depois dela é só ladeira abaixo.

DEAD SET (2008)

DeadSetNesta minissérie britânica dividida em cinco capítulos curtinhos, o apocalipse chegou e os mortos se levantaram. Eles são tão ágeis que o caos se espalha rapidamente pelo mundo, matando milhões de pessoas. A violência é inevitável para todos, porque se você não acerta a cabeça de um zumbi, ele te devora vivo, não tem como escapar, a não ser que você esteja em um lugar sagrado. Um lugar de heróis, de anjos, de confessionários e de provas degradantes por prêmios. Durante um surto zumbi na Inglaterra, existiria esconderijo mais seguro do que a casa do Big Brother Londres? Edredom é o que não falta para camuflar ninguém!

É claro que esta história poderia ter sido contada no cinema e foi, muitas vezes, mas nada como tirar o sarro da televisão usando a própria e um dos seus programas menos úteis, onde os participantes já tem experiência em agir como se o mundo exterior não existisse. Então não há nenhuma novidade em Dead Set e não há a necessidade de tantos episódios, mas enrolação é uma prática tão comum em Big Brother, com resultados de votações se arrastando pelo máximo de tempo possível para segurar a audiência, que esta paródia chega a ser acidentalmente irônica.

A minissérie detona a produção do programa, os brothers e até a audiência. Ninguém é poupado da sátira, mas apesar do humor negro, nenhum momento com zumbis é divertido ou livre de medo. A maquiagem é muito bem feita, assim como a caracterização dos personagens, tão reais e malucos por fama, que nos revelam qual é o apelo deste tipo de entretenimento. Eles são o pior grupo de sobreviventes, com ou sem as câmeras, mas é só ter um desafio pela frente, que não conseguimos parar de torcer por eles.

TRUE BLOOD (2008 – 2014)

?????????????????????????????????????True Blood já tinha começado antes de começar, porque todo mundo que viu Beleza Americana ou acompanhou A Sete Palmos, sabia que Alan Ball era um roteirista competente. A antecipação já fazia da série um sucesso, em parte pela reputação do criador, que certamente escreveria episódios cheios de sensibilidade e em parte pelo próprio apelo que a história tinha.

O argumento era o seguinte: após a invenção do True Blood, um substituto sintético para o sangue humano, não havia motivos para que os vampiros do mundo se escondessem como se ainda fossem lendas. Sem o perigo de transformar inocentes em comida, os humanos e os vampiros poderiam conviver pacificamente, quem sabe até compartilhando conhecimentos entre as espécies. Não demorou muito para que crítica e público comparassem os vampiros saindo do caixão, com homossexuais saindo do armário, em busca de aceitação e igualdade. Ball nunca escondeu que esta era a sua intenção, mesmo porque ele sempre foi um ativista da causa gay e o tema é presente nas suas obras anteriores.

Outra evidência clara de que True Blood serviria para expor preconceitos contra as minorias, foi a decisão de não ambientá-la em lugares como Nova York ou Los Angeles. A série se passa na cidade fictícia de Bon Temp, no estado da Louisiana, que assim como outros estados sulistas dos Estados Unidos, possui a fama de retrógrado. O primeiro episódio mostra a chegada do vampiro Bill Compton, um soldado morto-vivo da guerra civil, que retorna à cidade para reaver a propriedade da sua família, abandonada há décadas. A maioria enxerga o primeiro vampiro da cidade com medo, outros o vêem como um intruso e outros como uma oportunidade de ganhar dinheiro, já que o narcótico mais lucrativo para os humanos no momento é sangue de vampiro. Bill conhece Sookie, uma garçonete telepata e os dois se apaixonam, gerando inveja, desconfiança, repulsa e até ódio, nas “pessoas decentes da cidade”. É um ótimo exemplo do quanto qualquer união, mesmo feita com as melhores intenções, serve de gatilho para despertar os piores sentimentos e causar as mais descabidas reações. Todo tipo de preconceito se encaixava nesta analogia e isso foi um ponto de partida promissor para a série.

Alan Ball queria quebrar as regras, só que nunca mais conseguiu parar e isto foi a morte da série, por razões que ele não previu. Depois que a relação do casal principal esfriou e não havia mais o que fazer com eles, chegaram os mutantes, as fadas, os lobisomens e os fantasmas que aparecem e desaparecem sem acrescentar nada à história. Vilões viram mocinhos e vice-versa, sarnas são criadas só para que alguém tenha o que coçar e os personagens fazem sexo uns com os outros tantas vezes, que por incrível que pareça, o público cansou até disso. Quando Ball fez com que nada fosse impossível de acontecer, não havia mais chão e o programa perdeu a estrutura. Era cada vez mais doloroso assistir além da maravilhosa sequência de abertura e lá pela metade da quinta temporada eu joguei a toalha. A série tinha acabado antes de terminar.

2010’s

Como ainda estamos no meio da década, não dá para fazer uma avaliação completa, mesmo porque muitas séries começaram agora. Temos Walking Dead, American Horror Story, Hannibal, Penny Dreadful, Black Mirror e muitas outras, mas vamos esperar mais um tempinho para ver como elas irão se desenvolver. Voltaremos aos filmes por um tempo, antes de retomar este especial sobre a tv.

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