Dirigido por Jennifer Kent
Dirigido por Jennifer Kent

Mãe e filho são aterrorizados pelo personagem de um livro infantil.

Quando Amelia olha pela janela, com um sorriso malicioso que entrega a inveja pela vizinha, que é uma idosa com mal de parkinson assistindo a tv sozinha, a gente percebe que as coisas já estavam bem ruins antes de ficarem insanas. Sabe qual é a pior coisa sobre o Babadook? Quanto mais você tenta ignorá-lo, mais forte ele fica. É a quebra da regra, não dos filmes de terror, mas do próprio medo. É o total oposto do que sempre nos foi ensinado.

Todos nós temos um plano, vivendo e trabalhando em direção a ele, na esperança de que o universo conspire a nosso favor. O de Amelia não era complicado mas falhou mesmo assim. O bebê estava chegando e como o marido trabalhava fora, ela poderia trabalhar escrevendo artigos para jornais e revistas ocasionalmente, sem sair de casa e sem negligenciar a maternidade. A caminho do hospital no dia do nascimento de Sam, o carro bate matando o marido e colocando um fim no plano original para sempre. Só haviam duas opções para Amélia, superar a dor e seguir em frente como uma mãe solteira ou fingir que seguiu em frente, para o bem do filho.

Um olhar severo classificaria Sam, agora com 7 anos de idade, como um pentelho grudento e mimado que não dá trégua para a mãe, nem para que ela consiga dormir direito. Ninguém suporta o menino, nem a tia, nem a escola, nem a chefe de Amelia e nem a gente, mas um dos aspectos mais interessantes do filme, é que a nossa opinião sobre Sam muda e rápido, quando percebemos os motivos que fazem do menino tão sedento por atenção. Ele não é fácil, mas também não leva uma vida fácil. A morte violenta e repentina daquele que ele nunca conheceu, gera em Sam um medo gigantesco de perder a única que sobrou, aquela que escolheu o fingimento diante do fim do plano. Nem o aniversário do menino é comemorado adequadamente, por ser oficialmente o dia da tragédia e não o da alegria.

BabadookUm dos poucos momentos de paz entre mãe e filho, vem de mais uma exigência por parte da criança. Todas as noites na hora de dormir, Amélia precisa ler um livro, às vezes mais de uma vez, para que o menino se acalme e a deixe em paz por algumas horas. Certa noite, Sam retira da sua pratileira um livro que nem ele ou Amelia viram antes e esta atividade que deveria ser rotineira, desencadeia um verdadeiro inferno na pequena família. O Babadook, que de infantil não tem nada, descreve com ilustrações nada inocentes uma entidade infernal que destroi a vida de quem lê o livro.

É um ser assustador e é uma coisa estranha, porque ele aparece no filme, eu o vi, mas não consigo descrevê-lo. É como se ele não tivesse uma forma definida, apesar de ter. Lá estava ele na sombra da parede, mas não todas as vezes, tinha noites em que o casaco e o chapéu perdurados atrás da porta, causavam uma impressão estranha, só isso. Eu não o vi no carro quando Sam viu, só de relance na outra vez quando Amelia viu, mas ela o viu tão bem que quase causou outro acidente fatal. O bicho chegou até a falar, repetindo em alto e bom som as palavras do livro. Amélia escondeu o livro mas não adiantou, então ela destruiu o livro e quando isso também se mostrou inútil, o Babadook apareceu nitidamente e tomou conta das vidas dos dois, que nem podiam pedir ajuda… para todas aquelas pessoas que não suportam uma deprimida e o pirralho dela… mas eu ainda não consigo descrever o monstro.

Babadook 2O Babadook não é um filme de terror convencional, mas assusta como um clássico dos bons. Feito na Austrália, com um elenco absolutamente perfeito (com destaque para o menino), o filme está longe de repetir o enredo da casa mal-assombrada hollywoodiana, em que uma família é apavorada em casa por algo não humano. No coração de Amelia, nem família eles são direito, o que facilita demais o trabalho do bicho. Não é todo dia que vemos um terror com vítimas tão próximas e ao mesmo tempo tão desunidas. Entretanto, as cenas feitas para dar medo são familiares. Não só competentes como duradouras, me lembrando os melhores dias de John Carpenter e o dias mais ousados de William Friedkin.

A diretora que lançou O Babadook como um curta em 2005 e o transformou neste longa, sem usar cenas desnecessárias como enchimento, nos deu diversas evidências físicas da presença do vilão. Talvez ele exista e esteja dentro da casa. O menino acredita, a mãe acredita e nós estamos livres para acreditar, contanto que a gente entenda que ele não aparece do nada e nem em qualquer casa. Este é um filme sobre o estrago que o bicho papão pode causar. Se ele é imaginário ou tão real quanto uma dor de dente não importa, o dano é permanente de qualquer forma, caso a vítima permita que ele tome conta da sua vida, ou simplesmente finja que ele não existe.

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