Dirigido por E. Elias Merhige
Dirigido por E. Elias Merhige

Em algumas cenas, a impressão que eu tenho, é a de que o diretor deve ter apenas sacudido um lençol na contra luz na frente da câmera, só para ver se poderia se safar com a filmagem de algo tão banal e ainda ter uma audiência que encontra um significado profundo nisso. Não dá para condenar os que consideram Begotten um pretensioso filme estudantil, quando fica difícil até enxergar o que está sendo mostrado. Se fosse um simples preto e branco malconservado, sem problemas, mas é quase como assistir ao negativo do filme e mesmo quando conseguimos distinguir as formas com clareza, ainda existe a dúvida sobre o significado de todas aquelas imagens perturbadoras. Não é um filme divertido.

Na “história” do filme, Deus, sentado em uma cadeira e com uma faca na mão, faz cortes na própria barriga de modo frenético. Quando ele se dá por satisfeito e morre, uma figura feminina representando a Terra sai de dentro dele para ter vida própria. Ele estava realizando uma cesariana, mas isso só presumimos quando vemos que o final do filme credita os atores como Deus, Mãe-Terra e Filho da Terra, antes disso não se tem certeza de nada. Os outros personagens são muito mais nebulosos e o desenrolar desta história, é assunto para ser debatido por qualquer um que não esteve presente nas filmagens.

begotten2É um filme bem subjetivo, talvez o maior de todos na categoria “feito para apertar nossos olhos e confundir nossas mentes”, mas eu vou arriscar alguns palpites aqui. Como nós já temos uma versão cristã e uma científica, o diretor propõe a versão terror para a criação do mundo. Todo o esforço necessário para compreender o que se passa no filme, deve ter uma explicação menos cínica do que baixo orçamento. O filme é novo demais para tanta imagem granulada, mas nenhuma pobreza ou velhice justificaria o visual obscuro. A nudez pode ser um bom motivo e eu não estou falando de um simples par de seios, o negócio chega a ficar bem pornográfico. Outra teoria minha é que o diretor queria simular uma viagem no tempo. Ele foi com uma câmera para o início da vida e voltou com uma filmagem castigada pelo tempo, de algo tão primitivo que ninguém consegue entender completamente.

A imagem é confusa, mas o som é importantíssimo, tanto a trilha quanto os efeitos, mas não há diálogo nem outro tipo de comunicação. Como em uma peça infantil, onde as crianças interpretam o sol ou uma árvore, muitos aspectos da natureza são representados por atores. O comportamento dos personagens me dizem que eles são tudo menos humanos como estamos acostumados, apesar de usarem roupas. Convulsionam o tempo inteiro e sofrem abusos, seus movimentos me lembram microorganismos, quando observados através de um microscópio. Involuntários, intermináveis e bruscos.

begottenAté ver Begotten, que é um filme de uma violência sem remorsos ou intenções sociais, eu nunca tinha parado para pensar no ciclo de sofrimento da natureza. Assassinatos entre humanos ou mortes de animais, decorrentes da tentativa de sobrevivência dentro da cadeia alimentar, são sempre discutidas e sentidas, mas ninguém se incomoda com a providência da morte e da renovação na natureza. Elementos se chocam, morrem, apodrecem, se transformam, mas tudo é perdoado como parte da criação e nunca é visto como um ato de violência. Entre os seres vivos responsáveis pelas moléculas, não há perguntas existenciais ou análise, só trabalho constante. Ninguém chora pelas células mortas, não há propósito nisso, só há propósito em expulsá-las do corpo assim que elas não servem para mais nada.

Mantenha em mente que o filme provavelmente não tem nada a ver com o parágrafo acima, que nada mais é do que uma teoria que me veio a mente em um momento de distração, muito comum de acontecer por todo o filme. Begotten é lição de casa, um exercício de paciência e não porque a história não anda, mas porque ela não é clara, no sentido real e no figurado. É com certeza um filme que todo cinéfilo deve ver, por ser anti-cinema em todos os aspectos e por despertar as mais variadas interpretações, mas se você não conseguir assistir até o final, saiba que ninguém poderá te condenar.

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