Pacman nunca foi tão real! Eu tô falando sério!

Com cara de produção hollywoodiana, realizado numa parceria entre a India (que peca muito no terror) e a Turquia (que tem bastante êxito no mesmo quesito), o filme começa com uma cidade indiana em 2017 sob a mira de um maníaco. Depois de muita tortura, que o causador sadicamente captura em vídeo, mulheres que se encontravam sozinhas nas piores horas, estão sendo assassinadas, suas cabeças decapitadas e seus corpos queimados, sobrando para as famílias das mortas, apenas o suficiente para fazer a identificação de uma maneira doentia. Em um país com um histórico complicado de respeito aos direitos femininos, um serial killer que tem o sexo considerado frágil como alvo, pode até fazer um barulho, mas a tendência é que ele seja abafado por outros. A cidade é grande o suficiente para que as vítimas sejam numerosas, mas sem que a maioria das mulheres mude seus hábitos de precaução contra gente ruim. Estamos prestes a ver um raro (no sentido de bem sucedido) drama de terror, que questiona o papel masculino dentro de uma sociedade civilizada, muito bem representado por exemplos de heróis anônimos e de vilões acidentais, jovens e velhos, estranhos e familiares, sem deixar de lado a conivência de algumas mulheres, quase enganando quem acompanha o teor político da maior parte do filme, para depois entrar com um terror sanguinolento e de tirar o fôlego, que acontece após a introdução de um twist que reúne duas grandes paixões minhas.

A negligência com medidas de segurança não é o caso de Swapna, que apesar de também ser uma mulher solitária, trabalha de maneira independente com desenvolvimento de games, o que além de garantir uma vida confortável em uma casa segura, emprega um guarda e uma governanta que ela mantém sempre por perto. Swapna também possui um problema grave que requer cuidados especiais. Há um ano, ela sofreu um ataque que a deixou com uma fobia incontrolável do escuro, o que significa que até os prestadores de serviço em sua vida podem falhar, mas o gerador não. A jovem, que já ganha a minha simpatia por ter entre vários objetos ligados a videogames na casa, um poster do Red Dead Redemption 2, está afastada dos pais que a culpam pelo ataque, com toda a naturalidade e ignorância, mas busca ajuda profissional de um psiquiatra porque sabe que a situação é insustentável. Em algum momento, qualquer corredor mal iluminado pode causar um ataque de pânico, que sem assistência imediata, pode ser elevado a um ataque cardíaco, então ela se entrega com um pé na fé e outro no pavor, aos métodos do analista, enquanto também tenta entender como uma tatuagem que ela fez há tanto tempo, no dia do ataque para ser exata, começou a arder e doer sem motivo, como se fosse recente.

GAME OVER 2

Uma sequência muito bem feita de terror, sem cortes e em realidade virtual, apresentada como uma ferramenta no tratamento da jovem, serve para injetar um pouco de medo no público, que vai sentir falta deste elemento enquanto a história se desenrola e também serve para nos fazer entender um pouco do que se passa na cabeça de Swapna, durante uma crise de ansiedade. Por razões diferentes, cenas destacam certos cômodos, atitudes e objetos da casa, como que chamando a nossa atenção para coisas que serão revisitadas mais tarde. Muita ênfase à sintonia que Swapna tem com a empregada, reforçada pelo comportamento maternal de Kalamma, uma personagem maravilhosa no filme. O balanço no quintal, que recebe um zoom muito suspeito e fora de hora. A blusa típica de gamer no topo do armário, em uma cena que só é mostrada de cima para que a camisa apareça bem e justifique a legenda feita pela super ligeira equipe de tradutores do Netflix. A obsessão da jovem com os jogos antigos, que substituem a socialização fora de casa; tudo é parte de um plano. O tema principal é a jornada de Swapna e de seus sintomas imaginários, porque o filme dá bastante atenção ao trauma passado e nos faz esquecer do trauma futuro, por um tempo… porque você sabe muito bem que a jovem está aos poucos sendo preparada para se tornar uma vítima do serial killer.

Quando já consideramos Swapna e sua turma nossos melhores amigos, é o momento em que o filme dá o bote e nos faz temer pela vida de uma personagem, vários personagens na verdade, com um apego reservado aos melhores slashers. Àquela altura dos acontecimentos, que demoram meses para se desenvolver, a história havia introduzido um fantasma do passado na vida da jovem, que com um arco que se completa antes do assassino encontrar o endereço de Swapna, serve mesmo para indicar que o filme tem um pé firme no sobrenatural, só que não da maneira como estamos acostumados. Com tanto preparo e uma protagonista que conseguiu se envolver em ainda mais uma situação, que a deixou mais debilitada do que ela já estava, o assassino aparece, deixando o filme entre duas escolhas: brincar de pega-pega no escuro, com cenas que tomam a liberdade de não mostrar nada e virar mais um na multidão, ou se tornar verdadeiramente épico, com um artifício que não chega a ser totalmente original, mas que surpreende e abre possibilidades muito criativas. Sem gato e rato no mato aqui, o lance está mais para Mario vs cogumelos.

GAME OVER 3

Se você prestar atenção às imagens no início do filme, feitas pelo assassino com o filtro da visão noturna, vai notar uma anomalia, que quebra uma regra importante, quando há apenas o assassino videomaker e a vítima que ele filma. É uma coisa pequena, rápida, um pedacinho do impossível que invade o enquadramento e me incomodou um pouco, mas eu julguei como um erro e o filme foi passando e o que eu pensei foi… é Bollywood, afinal de contas! Jogo Na Escuridão é falado em tantas línguas e como se não bastasse, dublado em certas partes, então o que é um probleminha insignificante? Só que não era um erro. Existe uma explicação para aquela cena e outras que parecem irreais demais no último terço do filme, e a solução é de cair o queixo! Mesmo com as liberdades artísticas que toma, o filme não tem nada dos musicais que de uma maneira cômica tornaram o cinema do país tão famoso. Minha única reclamação verdadeira é com uma sequência meio bizarra de efeitos especiais, envolvendo um prédio e um carro, mas tirando isso, referências pop sem forçar a barra, bons enquadramentos, fotografia, atuações, desfecho e mesmo aquele susto que ninguém pede em filmes de terror, aparece aqui em uma das formas mais eficazes que eu já vi.

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