O que a sua sombra anda aprontando na sua ausência?

“Trarei sobre eles uma desgraça da qual não poderão escapar”, é o que significa o sinal segurado pelo pregador na rua, enquanto ele observa que a pequena Adelaide caminha sozinha pelo parque de diversões à beira da praia, se afastando cada vez mais dos pais, até tomar a péssima decisão de entrar em uma casa de espelhos, minutos antes de uma queda de energia. Muitos anos mais tarde, acompanhada do marido e dos filhos na casa de veraneio, ela recusa com firmeza a oportunidade de visitar a mesma praia, não só oferecendo outra alternativa de entretenimento, como revelando detalhes do trauma de infância para Gabe, o marido. A lembrança de ter visto uma garotinha igualzinha a ela em uma casa de espelhos, no escuro, não seria o suficiente para colocar Gabe em alerta, mas eu esperava pelo menos uma cena em que os dois discutissem o assunto com cuidado, antes de ver todos seguindo de carro para a praia de Santa Cruz, com Adelaide visivelmente desconfortável e calada no banco de passageiros. Quando o filme vira um inferno e Gabe tenta tomar outra decisão por todos, ela diz que ele perdeu o direito de falar por toda a família, com a raiva de quem não aceita mais viver de acordo com as regras de ninguém.

Nós é um filme propositalmente incompleto. O diretor Jordan Peele, que era um comediante que eu admirava muito até ele se tornar meu mais novo melhor amigo, já havia utilizado a fantasia em Corra (Get Out – 2017), quando os vilões fazem um “procedimento” para colocar consciências idosas em corpos atléticos, removendo o racismo da escravidão e permitindo que velhinhos ricos vivessem para sempre. Neste novo filme, uma família de férias recebe a visita violenta e vingativa de outra família, totalmente idêntica a eles, armada e chegando para matar e tomar seus lugares no mundo. Mais do que em Corra, Nós é repleto de terror sobrenatural e mais do que o filme anterior do diretor, Nós é cheio de explicações sobre o fenômeno, em parte por flashbacks e em parte pela narração de Red, a evil-twin de Adelaide. Só que mesmo que Red tenha menos limitações que os outros membros da família do mal, ela é uma personagem que tem pouco conhecimento real e muita teoria, porque além da revelação final, nenhuma outra informação foi feita para ser completamente esclarecedora aqui. Se você sair do cinema querendo saber mais sobre como as coisas funcionam, sobre coelhos ou sobre o significados das tesouras no filme, vai ter que se virar sozinho.

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Impera uma atmosfera de maldição no filme, que se manifesta inicialmente nos primeiros segundos de uma belíssima e sempre apreciada recriação dos anos 80, reforçada em seguida quando o filme segue para os dias atuais, enquanto uma revolução silenciosa está em andamento. Existem diversas referências a outros filmes de terror, com a mais óbvia sendo Invasores de Corpos (qualquer versão), passando pelo perigo anunciado já nos anos 80 por Os Garotos Perdidos (The Lost Boys – 1987), sobre crianças perambulando sem supervisão por parques de diversão na Califórnia; até as gêmeas de O Iluminado, representadas pelas filhas do casal amigo da família Wilson, a principal do filme e a propósito, que uso brilhante de personagens cuja semelhança aceitamos como natural, considerando o argumento de Nós. A sensação de estar pisando em território inimigo, por todo o filme, vem primeiro com a direção de Peele, que mostrou as férias de uma família como ela realmente é, com a tensão gerada pela quebra da rotina, de se estar fora de casa e o desconforto de uma viagem longa. Em segundo lugar, assim como Adelaide, estamos tensos porque antecipamos uma tragédia. Não sabemos quando ou como exatamente, a única certeza é que vai acontecer e é difícil ignorar este fato, enquanto a molecada briga por alguma besteira.

Mesmo aparecendo naquele ponto específico da vida da família, em uma sequência apavorante que começa como uma estranha inconveniência e logo descamba para o ataque físico, as cópias sabem tudo o que se passou na vida dos Wilson até então. Não estou falando somente dos acontecimentos memoráveis, como casamento, nascimentos, formaturas, trata-se de uma sintonia tão forte que cada movimento corporal, cada interação com outras pessoas e cada momento de ação ou inércia é de conhecimento dos invasores, como se eles tivessem vivido como sombras, mais próximos até do que sombras, já que essas não lucram ou sofrem com as decisões de seus donos. Forçados a comer quando os originais tem fome ou a imitar tudo o que os originais fazem, as cópias estão de saco cheio e passam a caçar os Wilson por toda a cidade, com o conhecimento prático de como a família age e de uma maneira centrada, fortalecendo a ideia de que existe uma bolha de terror cercando o filme e impedindo que os personagens tenham uma vida normal desde o primeiro frame, bem como acomodando as sequências dentro do orçamento de um criador que ainda é independente dos grandes estúdios.

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Quando os fakes surgem, com o espírito dos personagens da DC do Mundo Bizarro e uma fome de briga assustadora, não nos resta apenas torcer pelos mocinhos Adelaide, Gabe, Zora e Jason, é preciso admirar um filme que te faça mencionar todos eles por nome. Primeiramente, onde está a polícia, que havia sido acionada nos primeiros vestígios de problemas e segundamente… que trabalho competente de cada ator, inclusive das crianças, de interpretar tão bem cada um dos dois personagens completamente diferentes que receberam, com destaque mais do que especial para Lupita Nyong’o. Ela está tão convincente tanto como Red quanto como Adelaide que, como brincou um crítico de quem eu gosto muito no youtube, ela certamente será ignorada pelo Oscar no ano que vem, como a divina Toni Collette de Hereditário foi este ano. Os “Wilson do avesso” poderiam facilmente ter caído no clichê dos vilões excêntricos ou pior, nas mãos de um comediante, caído no ridículo, mas isso não acontece em nenhum minuto, nem quando um deles não pára de rir nos momentos menos apropriados. As atuações competentes, dentro de uma bolha cuidadosamente criada e mantida por Peele, fazem de Nós uma experiência de terror inesquecível, da qual a gente não se afasta sem tentar suprir a necessidade de explorar todos os temas que o filme possui na surdina.

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