OMEGA VS LEGEND

Se até confeiteiros tem suas batalhas…

Ao todo são três filmes baseados no livro de Richard Matheson, onde o único sobrevivente de uma catástrofe mundial, precisa enfrentar os mutantes que eram humanos e viraram inimigos. O primeiro é um clássico em preto e branco de 64 chamado Mortos Que Matam com Vincent Price, o ator que é uma autoridade nos aspectos mais conservadores do terror. Seu filme tem vampiros que são combatidos com estacas e alho. Para evitar baderna no texto, um título ainda maior ou muita desvantagem em cima do filme mais velho, apesar de não ser exatamente uma competição e sim uma curta análise de diferentes abordagens sobre o mesmo material, vamos ficar apenas com as duas versões mais recentes da adaptação para o cinema. O filme de 2007 é superior, mas não chegou a propriamente substituir o outro, se colocando como o único modo de interpretar esta história.

O filme de 71, tinha Charlton Heston no papel de Neville e Will Smith herdou o mesmo personagem em Eu Sou a Lenda de 2007. De cara, mesmo sendo uma das maiores estrelas da história do cinema, Ben Hur em carne e osso, Heston não possui o carisma de Will Smith, que passa muito mais tempo em cena sem ser “descoberto”, porque consegue carregar um filme quase inteiro sozinho. Sim, ele conta com a companhia de um cachorro, mas até os vilões de Heston possuem falas. Já que estou neste assunto, vamos falar logo da diferença mais evidente entre os filmes, que é a dos vampiros de 71 terem sido concebidos como vilões de peça de teatro. Com uma maquiagem muito bizarra, vestidos com túnicas e seguindo uma religião, eles são um culto que realiza reuniões e abomina os velhos costumes de quem ainda suporta a luz do sol. Desde sempre foi uma representação bem brega dos vilões, mas por isso mesmo não sofrerá o julgamento que a versão mais recente vai enfrentar no futuro, por ter escolhido computação gráfica e por essa já parecer bem ultrapassada depois de apenas dez anos.

No novo é a cura para o câncer, no antigo, a Guerra Fria é a responsável pelo apocalipse. Para a época, A Última Esperança… tem cenas bem ambiciosas, como as que mostram uma sequência de ruas vazias em uma metrópole como Los Angeles. Eu Sou a Lenda se passa em Nova York, que é uma cidade ainda mais difícil e não precisa de um expert em produção para explicar o quanto manter a população oculta das filmagens é um trabalho infernal. Sem tirar nenhum ponto do filme novo, que tem a tecnologia para remover o indesejado, o filme antigo, que não conseguiu esconder um carro passando em uma estrada bem longe do ponto de foco da cena, pode se gabar de ter realizado um feito épico.

O antigo é menos científico e mais filosófico. O único filme que passa no cinema que funciona na cidade é Woodstock, um símbolo por si só e eu preciso dizer que prefiro que Heston memorize as falas da sua única opção de entretenimento, do que Smith escolhendo Shrek em um mundo pós videocassete, cheio de opções. A necessidade de matança no antigo é por ideologia, já que os vilões são tão sossegados que Heston nem precisa de um esconderijo. No filme tem mensagem até na escolha do interesse amoroso para Heston mas não me entenda mal; uma certa cena com leões, veados e Will Smith questionando seu direito a uma posição na cadeia alimentar, já deixam claro que o filme novo encoraja a reflexão, só que Eu Sou a Lenda é antes de tudo um filme de ação, com muito perigo e tensão a cada pôr do sol.

O que não aparece em Lenda, mas Esperança mostra são os primeiros sinais da doença se manifestando. Eu não lembro de ter visto nem mesmo esqueletos em Lenda, mas Esperança está cercada por morte e pelas teias de aranha mais falsas do mundo. O personagem de Will Smith mantém muita ordem na própria rotina. Não são apenas os exercícios ou o compromisso que ele mantém com uma transmissão de rádio, de autoria sua, que o estimula a estar no mesmo horário e local todos os dias. A versão mais recente é cheia de esperanças em relação ao futuro da humanidade. Heston nem se preocupa em lavar as próprias cuecas, já que é só ir trocando por novas até que não as encontre mais e decida parar de usá-las. Smith segue a conduta de um homem que quer preservar recursos, enquanto Heston está em um parque de diversões. O interessante é que quando a possibilidade de um recomeço da vida se apresenta, os papéis se invertem. Heston encontra uma cura para o desleixo e vai abandonando suas crenças, enquanto Smith demonstra resistência com as novidades que vão surgindo. O troglodita amansa e o racional fica arisco.

Eu jamais rejeitaria um remake só por ser remake e o filme de 71 implorava para ser atualizado. Se na nova versão, é uma surpresa que a história dê uma virada no final, passando de uma situação cheia de possibilidades para extremamente perigosa, com Adão encontrando Eva no filme, na versão antiga, dá pra ver os personagens caminhando para o problema com muita antecedência. Isso tem menos a ver com a familiaridade com a história e mais com a afrouxada no andamento do filme, após a introdução de outros personagens. Mas A Última Esperança da Terra ainda vale muito a pena ser conferido, ainda que Eu Sou a Lenda tenha refeito a história de uma forma mais cativante e aceitável. São estéticas diferentes, para momentos diferentes.

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