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Dirigido por David Cronenberg

Um cientista comete um erro terrível ao realizar experiências com teletransporte.

Se eu tivesse que descrever David Cronenberg com apenas uma palavra, eu diria Orgânico. Acho que se pudesse, ele viraria seus atores do avesso e os colocaria nos cenários mais sujos, com a esperança de que o público acabe se acostumando com o que não agrada aos olhos. Ele é o verdadeiro diretor da beleza interior, do combate ao preconceito. A maioria dos seus filmes, principalmente nos anos 80 e 90 foram contra a maré da digitalização, que dominava os efeitos visuais quando o assunto era terror ou ficção científica. Cronenberg era uma grande fã de trabalhos de maquiagem que retratavam doenças e mutações imaginárias, antes de chegar na fase “filmes com Viggo Mortensen” da sua carreira. A Mosca é talvez o mais acessível dos filmes que o diretor fez, combinando uma narrativa tradicional, sem muita ambiguidade, com aquela progressão grotesca de eventos que ele tanto adorava.

A ideia de um homem que se transforma em um inseto gigante não é nova. São muitos os filmes de terror dos anos 50 e 60 sobre criaturas horrorosas, mas inofensívas até que um ato falho as multiplique de tamanho. A Mosca é um remake de um destes filmes, só que feito em uma época e com um diretor ousados, sem o medo de mostrar a transformação do personagem da pior forma possível, e sem a preocupação de ofender um público mais sensível. O que permanece nesta versão da história, é a necessidade de acelerar irresponsavelmente descobertas científicas. Neste caso, o Dr. Seth Brundle é um homem que não quer mais passar pelo tráfego, pela espera e principalmente pelo desconforto de qualquer meio de transporte para se locomover. Quando o filme começa, a ideia maluca dele já funciona, em parte, basta descobrir como usá-la em seres vivos, enquanto usa sua genialidade para encantar e conquistar a jornalista Veronica, que quer fazer uma matéria com ele.

01_the_fly_blurayO trabalho do Dr. Brundle é muito complexo, como é de se esperar. Ele quer acabar com os imprevistos, com o perigo e até mesmo com o deslocamento quando o assunto é viagens, mas Cronenberg não está muito interessado em fórmulas e números, porque ele sabe que o conceito é de entendimento simples. Brundle quer usar as duas máquinas que ele construiu, chamadas de telepods, para que distantes uma da outra possam realizar o transporte de qualquer coisa, do telepod 1 para o telepod 2. Para o diretor, um objeto sair do pod 2 mais frio ou mais quente do que estava no pod 1 por exemplo, implicaria em questionamentos na cabeça do público que não trazem nada além de distração. O objetivo é o avanço da experiência para uma cobaia viva, o resto é complicação científica.

Antes que o grande feito aconteça no filme, Brundle e Veronica iniciam um romance, e mesmo com o problema iminente do filme promovido no título, acreditamos por um bom tempo, que o único obstáculo no caminho da felicidade do casal é o ex-namorado ciumento de Veronica. Brundle teletransporta objetos, avança para um pedaço de carne, depois para um primata. Ele erra, reconsidera anotações, faz algumas mudanças e com Veronica ao seu lado, ele adquire o conhecimento e a confiança para testar as máquinas em si mesmo. Você já deve ter escutado aquela expressão “não tente isso em casa”, pois é neste momento que descobrimos que experiências científicas realizadas em um laboratório caseiro, estão sujeitas a todo tipo de invasão domiciliar. O Dr. com sucesso se transporta para o pod 2, junto com a mosca que estava com ele no pod 1, sem que ele soubesse.

the fly2Brundle está mais forte, mais ágil e começa a se perguntar se a invenção serve para muito mais do que as expectativas iniciais. Não se trata mais apenas de locomoção instantâneas, é um instrumento para o aperfeiçoamento humano, que deixa o cientista invencível e incansável, mas além de viciá-lo em açúcar, também faz dele impaciente, agressivo e paranóico. Verônica sabe que algo está errado e é bem franca a respeito, mas quem é o gênio da relação, certo? Vilões e mocinhos no relacionamento trocam de função. Aos poucos os sintomas físicos vão aparecendo, o que é bem estranho, já que o resultado da junção homem/inseto deveria ser imediato, como é qualquer outro resultado. O que vemos bem antes disso é o aparecimento de um verdadeiro animal, só depois é que o processo de transformação lhe dá uma aparência à altura.

A Mosca é realmente um filme de monstros, que até na trilha sonora relembra os clássicos antigos. Quando digo clássicos, quero dizer filmes velhos, porque homens misturados com bichos pode até ser uma receita de sucesso para filmes de super-heróis na atualidade, mas não era uma ideia respeitável o suficiente para se manter entre as memoráveis obras da era de ouro de Hollywood. Cronenberg revisita o primo pobre dos filmes de terror antigos, deixando claro que o propósito em qualquer época é expor o cientista maluco pelo sujeito inconsequente que ele sempre foi. Ele é muito mais do que um diretor que gosta de “coisas feias”, é um homem com uma visão da beleza livre das ilusões do seu próprio meio. É um cara que veio para pelo menos virar as nossas mentes do avesso e mostrar como as coisas são de verdade, por dentro.

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