Você sabe que anda meio sem tempo, quando a sua lista de melhores filmes do ano sai com alguns dias de atraso, e quando o que deveria ser um top 10, acaba com um filme a menos. Mas tudo bem, para começar este ano com razões para se orgulhar do gênero, nada melhor do que uma lista dos melhores (na minha opinião) filmes de terror de 2015 (que eu consegui assistir). Quem disse que o Muito Molho não podia ter sua própria retrospectiva? Alguns dos filmes abaixo tem resenhas completas disponíveis no blog, a maioria não… por falta de tempo. Iniciemos uma tradição, que se Deus quiser, será seguida no final de 2016 e não no início de 2017.

9 – A VISITA (THE VISIT)

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Dois adolescentes que nunca tinham conhecido os avós, recebem um convite deles para uma visita. O motivo da falta de um relacionamento com os netos, foi uma briga feia entre os avós e a mãe dos adolescentes, que ainda não perdoou os pais e não vai junto na viagem. Sozinhos na casa de pessoas que não conhecem mas com quem querem muito ser respeitosos e amáveis, os jovens Becca e Tyler testemunham o comportamento estranho, embaraçoso e às vezes, perigoso dos idosos, enquanto tentam descobrir o que os afastou da filha anos antes de ambos nascerem. Pra mim, este filme marcou um retorno a boa forma, que havia sido ensaiado sem sucesso por anos pelo diretor M. Night Shyamalan. Filmado no estilo documentário falso, A Visita faz o público questionar a própria tolerância o tempo inteiro. Os velhos estariam agindo de forma incomum por estarem doentes? Nervosos, talvez, com a visita ou com o que ela faz com a memória que eles têm da filha? Seriam pessoas malucas, ou simplesmente excêntricas? Qualquer que seja a resposta para estas perguntas, a desvantagem dos adolescentes é não poder contar com a própria mãe ao lado deles, e ainda ter que agir com simpatia e educação, aguentando a bizarrice dos avós até que o prazo combinado da tortura/visita termine.

8 – CONTOS EXTRAORDINÁRIOS (EXTRAORDINARY TALES)

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Se você tinha a vontade de conhecer um pouco do trabalho do maravilhoso escritor de terror Edgar Allan Poe, mas nunca teve muito tempo, você pode conferir este filme contendo curtas de animação, com diferentes estilos de traço e diferentes narradores, baseados fielmente em alguns dos contos mais famosos do autor. Introduzindo as histórias está o próprio Poe, animado como um corvo, o que não poderia ser mais apropriado. Ele conversa com a morte, revelando medos e desejos que resultaram na produção do conto que será exibido em seguida. São cinco histórias no total, que apesar do desenho não devem de modo algum serem vistas por crianças:

A Queda da Casa De Usher – Narrado por Christopher Lee, fala de um homem que vai visitar um amigo de infância em uma velha mansão. O visitante constata que o amigo está muito doente, até mesmo para sair da casa cheia de rachaduras, mas que a doença é psicológica e pode estar sendo provocada pela irmã do amigo, que também é doente.

O Coração Revelador –  Narrado de além-túmulo por Bela Lugosi, o curta mostra um jovem servo que mata o patrão e minuciosamente esconde o corpo, mas não consegue parar de ouvir o coração do morto bater.

O Estranho Caso do Sr. Valdemar – Narrado por Julian Sands, conta a história de um idoso que concorda em ser hipnotizado horas antes de morrer, em prol da ciência, mas a experiência dá muito certo e o idoso não consegue descansar em paz.

O Poço e o Pêndulo – Narrado por Guilhermo del Toro, fala dos tormentos e torturas sofridos por um prisioneiro da Inquisição Espanhola.

A Máscara da Morte Vermelha – Sem narrador ou muitas falas, o curta mostra nobres curtindo a vida adoidado dentro dos muros de um castelo, acreditando em vão que o local irá protegê-los da peste que está acabando com o mundo.

7 – GOOD NIGHT MOMMY (ICH SEH, ICH SEH)

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Este filme austríaco com apenas uma locação, conta a história dos irmãos gêmeos Lukas e Elias, que estão sozinhos em casa aguardando a chegada da mãe, liberada do hospital após uma cirurgia plástica. O que deveria ser um reencontro feliz, se transforma em um pesadelo para os meninos, quando a mãe se mostra irreconhecível, pelos curativos que cobrem grande parte do rosto dela e pelo comportamento nada materno, completamente distante da personalidade conhecida pelas crianças.

Eu não vou mentir, o diretor planejou a revelação de um grande twist, mas dá pra ver o que está realmente acontecendo bem antes do tempo. Só que o maior terror no filme não é o segredo, mas sim o impacto e a consequência violentíssima deste segredo.

6 – A COLINA ESCARLATE (CRIMSON PEAK)

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Toda mulher é inteligência pura, até que um pilatra charmoso apareça. Neste filme cheio de cores e fantasmas tradicionais dirigido por Guilhermo del Toro, uma jovem que sonha em ser escritora, abandona tudo o que conhece para se casar com um forasteiro e ir morar com ele e a irmã dele em uma mansão em outro país. Sem conhecer ninguém além do marido e da cunhada, e pior, conhecendo muito pouco dos dois, a jovem precisa combater o complô que ela nem tem certeza que existe contra ela, com a única arma que possui, a habilidade de se comunicar com os mortos. O diretor coloca o público amarrado e amordaçado, no banco traseiro de um carro sendo guiado por um cego. É o terror daqueles que nada podem fazer diante do perigo.

5 – DEATHGASM

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Se A Morte do Demônio e Fome Animal tivessem um filho, ele seria Deathgasm, porque o filme parece ter herdado com precisão genética a receita que mistura gore, sustos, cenas ridículas e muita diversão dos dois clássicos. O que poderia ser o plot dos sonhos de qualquer religioso fundamentalista, acaba sendo uma dádiva redentora para todos os amantes de heavy metal, quando uma banda do rock (recém-formada por adolescentes que tocam muito mal em uma garagem) encontra um manuscrito contendo uma música antiga, que eles reproduzem liberando um verdadeiro inferno em uma cidadezinha. Mas sem problemas, porque a “música do diabo” condena, mas também salva.

4 – O PRESENTE (THE GIFT)

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O ator Joel Edgerton, que você já deve ter visto em vários filmes, mas não reconheceria pelo nome, estreia na direção deste suspense e terror psicológico, sobre vingança e sobre o pavor de ter a vida manipulada por um sociopata. Edgerton não demonstra um conhecimento superficial sobre a natureza de um vilão com este transtorno, deixando claro para o público que não confiar em estranhos não é o suficiente para se proteger, já que sociopatas vivem na sociedade em uma proporção de 1 para cada 25 pessoas comuns. Eles podem ser amigos de longa data, parentes, chefes, atuando com uma aparente normalidade, enquanto secretamente planejam a ruína de outras pessoas, seja para tomar o lugar delas, por vingança ou por prazer.

No filme, Simon e Robyn são um casal sofisticado recém-chegado na cidade, que encontra por acaso um amigo de infância de Simon. São 20 anos e diversas diferenças sociais entre os velhos conhecidos, o que deixa Simon desconfortável com as visitas constantes e desnecessárias de Gordon, que sempre aparece fora de hora com um presentinho nas mãos. Com o passar de poucas semanas, fica claro que para se livrar do pentelho, Simon terá que agir com franqueza e ter uma conversa séria com Gordon, não exatamente sobre limites a serem respeitados, mas sobre o quanto a presença de Gordon é indesejada. É claro que o amigo simpático e prestativo entende o recado e se afasta, e é claro que no dia seguinte o cachorro do casal desaparece.

É um daqueles filmes de prender a gente na cadeira, porque é uma situação familiar e ao mesmo tempo muito perigosa. É muito difícil alguém chamar a polícia por causa de um amigo persistente e se este amigo tem motivos sombrios para ser tão grudento, ele pode atuar livremente enquanto for cuidadoso perante a lei. Edgerton fez um ótimo trabalho escalando a si mesmo para o papel de Gordon, e colocando o veterano das comédias Jason Bateman para interpretar Simon, um executivo ambicioso e bem-sucedido com diversos esqueletos no armário. Simon é o melhor papel do filme com a escolha perfeita do ator, por ser uma escolha irregular e por despertar simpatia cedo demais.

3 – BONE TOMAHAWK

Bone Tomahawk

Não importa que gênero de filmes você acha que está assistindo, quando alguém profana um cemitério indígena, de propósito ou por acidente, não é um ato facilmente perdoado. No caso de Bone Tomahawk, trata-se de um faroeste, talvez um dos poucos a entender que antes de mais nada, um faroeste deveria ser um filme de terror. Viver no oeste dos Estados Unidos naquela época tinha vários significados. Era um território com poucos donos, onde qualquer um poderia começar uma nova vida e por este motivo o perigo morava em cada esquina. Você está sozinho e se acidentou no caminho entre um povoado e outro? Existe uma grande chance de você morrer. Descobriu uma fortuna em forma de ouro ou petróleo e não conhece muito bem quem são seus vizinhos ou de onde eles vieram? Existe uma grande chance de você morrer. Bebeu a água local?… Não existe ambulância, a lei é precária e os poucos habitantes que se arriscam no lugar, vivem entre o desejo de sociedade e recaídas de selvageria.

Bone Tomahawk é muito violento. O filme abre com gente civilizada matando uma família a sangue frio (e em close up) por dinheiro, e fecha com gente primitiva mantendo a própria família viva em condições monstruosas pela própria sobrevivência. Os atores estão tão bem em seus papéis que eu demorei para reconhecer alguns deles. A história fala de uma tribo de “canibais animalescos, que até estupram e depois comem os corpos das próprias mães”, como descreve um índio apavorado com a ideia. Até os maus elementos do velho oeste tem noção para cometer os seus crimes, mas os canibais entram em uma delegacia e simplesmente sequestram algumas pessoas. Quatro homens, entre eles um idoso e outro com a perna quebrada se aventuram no resgate, mas a tribo canibal fica há alguns dias de distância, então, esta é com certeza uma jornada onde tudo pode dar errado

Pode parecer um pouco parado, enquanto os quatro cavaleiros percorrem dia e noite a paisagem que nunca muda, contando com a sorte para encontrar água e resistindo às dificuldades impostas pela natureza e pelos criminosos vindos de outros locais também em busca de uma nova vida, mas o filme tem exatamente o ritmo que deveria ter para mostrar o quanto a missão é suicida. Quer um filme de terror? Viva em um lugar e em uma época em que qualquer um pode levar o que você tem, ou qualquer parente seu, sendo que haja muito pouco ou nada a se fazer a respeito.

2 – TERROR NOS BASTIDORES (THE FINAL GIRLS)

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Não é uma homenagem aos slashers dos anos 80, trata-se especificamente de uma declaração de amor ao Sexta-Feira 13, um filme que até hoje me dá muito medo. As referências vão do tema do acampamento de férias, à arte no título de abertura do filme, passando pela música que é exatamente a mesma (Música? Eu quis dizer aquele som KA KA KA KA CHI CHI CHI CHI que todo mundo consegue imitar com a boca).

Em Terror nos Bastidores, um grupo de adolescentes entra por acidente em um filme de terror, estrelado na juventude pela mãe de um deles. O filme é um drama com uma maravilhosa conexão entre os personagens e um terror de arrepiar sem perder o bom humor. A transição entre “vida real” e slasher é bem engenhosa, assim como é toda a experiência de pessoas comuns dentro de um filme. É como “A Vida em Preto e Branco” só que fazendo com que os personagens sofram com os recursos que a tv dos anos 50 não tinha, mas os slashers dos anos 80 sim, como slow motion e flash backs.

Dentro do filme, os adolescentes interagem com versões clichês deles mesmos, e é muito engraçado notar o quanto o tempo muda certos padrões de comportamento, enquanto deixa outros intactos. É perfeito ao retratar Jason e seus amigos em todo o universo de Crystal Lake e não limitar os intrusos a meros espectadores. Terror nos Bastidores é um slasher, mesmo que metade do povo nele tenha ciência disso, ninguém está a salvo e precisa lutar para sobreviver e voltar pra casa.

1 – CORRENTE DO MAL (IT FOLLOWS)

it follows

Muitos me divertiram, me chocaram, me enojaram e até me encantaram, mas somente um filme este ano me fez ter problemas para dormir. A história de uma jovem condenada a passar o resto da vida fugindo, de um vilão “contraído” como uma doença venérea, com uma aparência normal, às vezes até familiar, com o qual não se pode negociar, é o tipo de ideia que parece ter sido apresentada diversas vezes no universo do terror, mas na verdade faz parte mesmo é do mundo real.

Não existe uma locação segura no filme. Da casa, rodeada pelos inexplicáveis e sinistros móveis antigos, a uma tarde na praia com diversos amigos. É apenas uma personagem em perigo mas por sabermos ou entendermos tão pouco sobre a situação, nada fica menos tenso, mesmo que a moça não esteja em cena. Jay foi contaminada por um vírus mortal através de relações sexuais com um rapaz que mal conhece. Ele passou a doença de propósito para tentar se livrar da maldição, mas pelo menos explicou para a moça o que ela deveria fazer. Tentar passar adiante e fugir, ou só fugir, porque independente de onde ela estiver, de quem esteja com ela ou de quanto tempo levar, uma entidade na forma de uma pessoa conhecida ou desconhecida irá se aproximar sem alarde, sem dizer nada e irá matá-la com muita violência. Em seguida, a entidade volta a perseguir o jovem que a contaminou, quando ele morrer, a mulher que passou para ele será o próximo alvo e assim por diante.

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