Orphan
Dirigido por Jaume Collet-Serra

Uma família que ainda sofre com a memória de um aborto espontâneo, adota Esther, uma criança cheia de segredos.

Filmes de terror são muito mais cheios de propósito do que muitos de outros gêneros. Mesmo que a mensagem seja mal executada, ou que tenhamos que procurar muito para encontrá-la, ela está lá, alertando sobre os perigos do sexo sem compromisso, sobre pisar no calo de pessoas aparentemente calmas, nos avisando sobre agir com cuidado em territórios desconhecidos e experimentos científicos, ou dizendo que se não soubermos lidar com o passado da forma apropriada, ele volta para nos pegar, estando vivo ou morto. Eu sempre tive aversão aos filmes de terror onde os vilões eram crianças, principalmente as adotadas, porque este é o tema que não parece levar a sério os princípios do terror. É uma mensagem muito perigosa, porque é totalmente falsa na vida real, não tem nada de útil, do contrário, propaga a ideia de que humanos menores e mais inocentes precisam da nossa desconfiança e não proteção.

A cabeça de Esther não gira, ela não está possuída e ela não brota de aparelhos eletrônicos (a propósito, estas são as únicas ocasiões em que crianças apresentam perigo), então no meu entendimento, este deveria ser um filme mal intencionado. Mas A Órfã é um filme sério. Tão sério que ferimentos provocados pela pimpolha são muito graves ou fatais, diferente de Macaulay Culkin em O Anjo Malvado por exemplo. Outra coisa, criança pode ser uma peste, mas nunca com a discrição necessária para ser um vilão, só que Esther é diferente, ela é especial. O filme tem aquelas falhas típicas e não muito realistas, como informações importantes que só chegam tarde demais, mas a garota não sai por aí ofendendo inteligências e sendo malvada só em prol da própria maldade.

orphan1Eu preciso confessar que saquei o grande segredo do filme bem antes da revelação, mas isso aconteceu porque eu tinha visto um daqueles docudramas da Discovery sobre “crimes em vizinhanças pacíficas”, com um caso assustadoramente semelhante ao do filme. Só que ao invés de me render à raiva, por ter “informação privilegiada”, a constatação do nosso real comportamento diante de vilões sorrateiros, me deixou com um sentimento bem diferente. O que Esther apronta dá medo, muito medo. A verdade é que entre uma pessoa que mal conhecemos e uma pessoa que conhecemos bem, mas que nos desapontou de alguma forma no passado; temos a tendência de dar crédito à primeira, porque estranhos entram em nossas vidas com a ficha limpa. Se houver intrigas entre o nosso elo recém-formado e o nosso elo antigo, sendo que o novo não presta, existem grandes chances, através de mentiras e manipulação, de familiares e velhos amigos serem expulsos das nossas vidas, em prol do ficha limpa. Esther é o tipo de ser que se aproveita dos erros do passado alheio, para desenvolver uma personalidade que engana as pessoas certas na vida dela.

Há alguns anos, John e Kate, que já têm dois filhos, perderam um bebê ainda na gravidez. Eu nem preciso me esforçar para imaginar a dor, já que há um problema bem comentado de alcoolismo na família, que quase custou a vida de mais um filho. O casal decide que todo aquele amor pelo bebê que não veio, serve muito bem para uma criança mais velha, e na vida real seria uma ótima decisão, sempre! Entra em cena Esther, a criança mais prestativa, educada, madura, eloquente e formal do mundo. O que fica claro desde antes de você começar a ver o filme, é que por trás daquela carinha super fofa, se esconde uma criaturinha bem perversa. O que você não sabe é a extensão da perversidade.

orphan2Para uma criança que não tem família, John e Kate são verdadeiros anjos enviados do céu. A casa é espaçosa, pelo menos um em dois irmãos é receptivo, há conforto, respeito, o que mais Esther pode querer? Qualquer criança no lugar dela estaria feliz da vida, por que ela está tão insatisfeita com arranjos feitos para garantir uma vida saudável e feliz? O filme tem o cuidado de mostrar duas coisas, para nos fazer desculpar os adultos responsáveis e profissionais que falham em enxergar o perigo. Uma, é que tem muita gente ao redor de Esther fazendo coisa errada. Outra, é que a criança com um passado difícil, que se veste como uma boneca, está sofrendo bullying na escola. Uma vez que Esther vira uma vítima, o público aceita seus atos terríveis e até espera uma mini vingança. Como não acreditar que ela possa agir livremente, quando até nós que conhecemos sua verdadeira índole, ficamos em cima do muro dependendo de quem será o alvo da ira da garota.

O filme começa com os logos dos estúdios que promovem o filme, pichados com aquela tinta neon que só aparece no escuro. Adotar uma criança mais velha, que já vem com uma bagagem e com certeza tem um histórico de problemas, é uma decisão nobre e belíssima, e não é o objetivo do filme desencorajar o ato. Esther realmente é uma caso a parte, que em muitas ocasiões deixa a máscara cair, mas que se safa porque as pessoas ao seu redor não a enxergam com objetividade, ou sob a luz apropriada. A Orfã é um estudo sobre padrões de comportamento de caçadores e presas, sobre a nossa vulnerabilidade e sobre o quanto ser gente boa, ao invéz de atenta, não protege ninguém na vida real.

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