Dirigido por Michael Dougherty
Dirigido por Michael Dougherty

Um filme feito especialmente para homenagear o feriado mais legal que já inventaram.

Nos subúrbios as crianças conseguem doces na base da pressão. A ameaça é o direito a uma travessura, caso não recebam a guloseima. No centro da cidade os adultos fazem festa e bebem além da conta. Nos dois ambientes, a mesma proporção de diversão e perigo, favorecidos pelo uso de figurinos que podem ao mesmo tempo esconder identidades e revelar intenções macabras. É a noite em que as fantasias saem do armário e as máscaras caem, em que o mundo dos mortos e o dos vivos vira um só. É a celebração perfeita, mas para a minha tristeza não é mundial, como a Páscoa ou o Natal. O que mais se aproxima do Halloween no Brasil é o Cosme e Damião, e não pelas razões certas.

O vilão principal no filme (porque são vários, é claro) não é muito exigente. Ele não quer que você seja bonzinho, ou que se abstenha de sexo até estar casado, aliás, quanto mais próximo da sua verdadeira natureza, melhor, ele só pede que você respeite o dia dele. Samhain, a criatura sobrenatural com milhares de anos de atuação, só pede que as abóboras permaneçam acesas por toda a noite, que você assuste e se deixe assustar, que distribua “oferendas” aos diabinhos da noite em troca de paz. Ele não é tão inofensivo quanto a sua estatura sugere e se você violar as regras, que nunca foram tão bem esclarecidas como neste filme, Samhain irá te encontrar onde quer que você esteja e ele vai te matar. HA HA HA!

trick r treat 1Contos do Dia das Bruxas é um guia, um manual de conduta que honra a data mostrando diversas lendas urbanas de terror, que podem aparecer como se fossem algo que realmente existe, ou como uma paródia. O filme tem cinco histórias, se você contar com o prólogo. Um casal entra em conflito sobre a importância do feriado pagão, uma figura de autoridade entre crianças e adultos se revela um assassino em série, crianças executam a maior das travessuras tendo uma deficiente como alvo, um velho rabugento recebe a visita do verdadeiro espírito do Halloween e um grupo de jovens mulheres inicia uma novata em uma tradição anual. Lobisomens, bruxas, vampiros, zumbis e uma verdadeira aula de história sobre o nascimento do Halloween, contada pela menos esperta e ao mesmo tempo, mais bem informada dos personagens do filme.

Todas as histórias acontecem próximas umas das outras, em matéria de horário e geografia. São contos sombrios que acontecem em uma vizinhança comum e esta proximidade faz com que todos eles se atropelem ao longo do filme. Não é como outros filmes com pequenas histórias sobre o mesmo tema, onde cada curta começa e termina antes que outro se inicie. A narrativa de cada um é contínua e às vezes, mesmo que um personagem morra com antecedência, ele volta a aparecer no filme, como um fantasma vivo que só o público enxerga, por saber o desfecho daquela história. Eu li em algum lugar e nunca esqueci desta comparação: “É um Pulp Fiction para os fãs de terror”.

trick r treat2A tradição que faz crianças sairem sozinhas em busca de açúcar, batendo em portas de conhecidos e estranhos, sempre foi perigosa. Mas aí é que está, risco está lá mas o doce também! É uma troca justa e imediata, a meu ver, isto torna o costume mais legítimo do que aquele proposto pelo bom velhinho. O filme faz um ótimo trabalho não poupando os mais frágeis e nem mesmo julgando quem os ataca. O único elemento sagrado é a preservação dos dogmas, o que me faz até temer uma eventual punição por publicar este texto com um dia de atraso. Se a intenção era fazer com que o público tivesse mais consideração pela data, expondo as lendas em um caos meticulosamente controlado, com toda a transparência sobre os prós e os contras, Contos do Dia das Bruxas é um sucesso.

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