Dirigido por Charles Laughton
Dirigido por Charles Laughton

Um assassino se aproxima de uma família por dinheiro, enquanto eles tentam se recuperar de um trauma.

O Mensageiro do Diabo não foi promovido como terror, mas você não espera que eu engula a classificação “drama com suspense”, só porque o filme tem crianças como alvo primário da maldade e naquela época, qualquer adulto tinha a liberdade de dar uns sopapos em um pirralho travesso, sem precisar ser o responsável legal por ele. Quando o corpo de Shelley Winters aparece no fundo de um lago, sem o mínimo aviso, com suas longas madeixas balançando na água por intermináveis segundos, se trata de apenas uma das muitas cenas pavorosas que embelezam este filme. É um terror como poucos, independente da forte mensagem bíblica que ele passa.
The-Night-of-the-Hunter 2Eu sou suspeita para falar por conta de um pesadelo da minha infância, o mais assustador e memorável que já tive, bem antes de assistir ao filme pela primeira vez. Nele eu fugia de barco por um rio, para escapar de uma figura com aparência humana e alma demoníaca, como uma sequência de impressionante semelhança no filme, que me fez temer para sempre Robert Mitchum, no papel de um trambiqueiro assassino com bizarras convicções religiosas. Harry Powell é o próprio anticristo e esta não é apenas a opinião da criança assustada que ainda vive em mim. Ele sabe exatamente o que faz, planeja seus crimes com antecedência e até conversa com Deus a respeito.
O filme começa com Ben Harper, que costumava ser um homem comum durante a grande depressão norte-americana, até que resolveu roubar um banco e acabou matando duas pessoas. Em fuga e com a polícia se aproximando, ele entrega o dinheiro roubado para os filhos John e Pearl e os faz jurar guardar segredo. O esconderijo usado pelo pai não é perfeito e não demora para ser descoberto por quem assiste, mas não tem tanta importância. O importante é que nem a execução do pai criminoso por enforcamento, nem as dificuldades financeiras da família, irão salvar as crianças do mal que o dinheiro sujo irá atrair.
Poderia se encaixar perfeitamente nas matinês de sábado, junto à Lassie e obras do tipo, se não fosse pela graça dos filmes de terror, que nunca poupam os mais inocentes por conta da pureza de seus corações. Os personagens do filme cometem erros terríveis e pagam por eles, exatamente por serem bondosos e crédulos demais. Se alguém conta uma história, todos acreditam porque são pessoas decentes, como eles gostam de acreditar e o bom Deus jamais permitiria que algo de ruim aconteça, com os que preenchem os assentos da igreja todo domingo de manhã. A ingenuidade exagerada, que reforça valores que nunca existiram e espalha boatos como se fossem verdade, é punida sem dó. É um aviso para o público acostumado com justiça na ficção, sendo que ela nem sempre existe na vida real.
the-night-of-the-hunterApesar da vilania ser comum até nos filmes da Disney, no caso, a figura do adulto malvado que atormenta crianças pelo motivo que for, em O Mensageiro do Diabo, Harry Powell consegue ser um pouco sobrenatural. Eu admito, que a culpa pelos eventos que se seguirão não podem ser apenas da tolice das vítimas. Assim que encontra a família Harper, Harry se torna uma figura de autoridade instantânea, mesmo com uma história mal contada e nenhuma prova de suas palavras. Ninguém desconfia de nada, exceto pelo pequeno John. Harry é invencível se você o adora e pior ainda se tem medo dele. Ele tem a audácia de anunciar para as vítimas que está se aproximando, como se não houvesse escapatória, com uma canção religiosa que se torna arrepiante, com sua bela (para minha surpresa) voz. É como se ele sentisse o cheiro de dinheiro mas não deixasse cheiro próprio para trás, porque ele coleciona uma quantidade absurda de vítimas fatais, sem jamais ter sido pego pela polícia. Olhando para cima para agradecer pela sorte, ele ignora que a ajuda possa vir de outra direção.
Não é muito complicado. Harry chega a explicar com as duas tatuagens nas mãos, que serviram de inspiração para Spike Lee em Faça a Coisa Certa, dizendo que o amor e o ódio vivem brigando dentro de nós. A batalha é vencida pelas circunstâncias e o que ganha nunca é vitorioso para sempre. O homem de boas maneiras e nenhum coração, chegou na cidade para encantar alguns e destruir quem possui o que ele quer. Nunca um título em português foi mais apropriado do que o original. Para a sorte de todos, o filme também apresenta outro personagem que é o completo oposto de Harry. Os dois julgam, mas não fazem disso sua atividade principal. Porque o bem e o mal existem independente da culpa ou do merecimento.

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