Dirigido por Bill Paxton
Dirigido por Bill Paxton

Um homem revela para a polícia, as circunstâncias que levaram o irmão dele a virar um serial killer.

Matthew McConaughey fez este ótimo filme, quando estava passando por um abismo de péssimas escolhas na carreira, que aconteceu bem no meio de duas eras de sucesso. Entre a era dos filmes bons dos anos 90 (Ed TV, Tempo de Matar, Contato) e a dos filmes melhores ainda da atualidade (Interestelar, O Clube de Compra de Dallas, Amor Bandido, O Poder e a Lei). A Mão do Diabo foi lançado e sufocado por comédias românticas dispensáveis ao lado de Kate Hudson, então existe uma grande chance de você nunca ter assistido ou sequer ouvido falar deste filme, dirigido pelo ator Bill Paxton, talvez o mais bem sucedido ator secundário de Hollywood, estreando atrás das câmeras.

frailty 2O F.B.I. está procurando por um assassino em série apelidado de “A mão de Deus”. Daí vem a escolha criativa para o título do filme em português. A segunda coisa mais bizarra do filme acontece quando Fenton, interpretado por McConaughey, aparece no escritório dos federais dizendo que o assassino é o irmão dele, Adam. É um milagre, brinca o investigador. Nunca um caso que se arrastou por anos, com tantas vítimas e um assassino tão perspicaz, foi resolvido com tanta facilidade! Basta um Zé Ninguém entrar no departamento e acusar outro Zé Ninguém, certo? Fica claro que Fenton vai ter que trabalhar muito, para convencer os homens da lei de que está falando a verdade. A solução de Fenton é contar toda a história de Adam, junto com a própria, desde a infância e esta sim, é a coisa mais bizarra do filme.

A Mão do Diabo seria um épico inesquecível com bastante mérito, se Paxton, também no papel do pai dos meninos, fosse um diretor mais ambicioso. Ele só quer descrever com simplicidade uma história que de simples não tem nada. Em flashback, com um ótimo ritmo, trilha sonora perfeita e a narração de Fenton, o filme descreve uma tragédia que poderia acontecer em quaquer família, ao mesmo tempo que mostra personagens bons demais de espírito, para praticamente convidarem essa tragédia para dentro de casa. Fenton volta à pré-adolescência, para a vida que se seguiu anos após a morte da mãe, sem revoltas ou tristeza constante, ao lado do irmão mais novo Adam e do melhor, mais carinhoso e atencioso pai do mundo.

Apenas uma canção gospel, compartilhada pelos meninos na volta da escola. Nenhuma reza forçada ou voluntária. Nenhum sinal de abuso, de problemas mentais ou de exaustão. É de cortar o coração porque em nenhum momento o que está por vir parece uma aventura que pessoas normais gostariam de ter. Uma noite, o pai acorda os meninos com uma notícia que pode até ser sonho dele, mas parece um pesadelo. Ele diz que tinha acabado de receber a visita de um anjo, que o avisou que o apocalipse está próximo. Segundo ele, o diabo enviou demônios com aparência humana para a terra e Deus escolheu o pai e os filhos para destruírem esses demônios disfarçados… De repente, a vida calma e comum da família se transforma em um inferno.

frailty 1É possível odiar um personagem, ou classificá-lo como um vilão, quando ele acredita que suas intenções são totalmente puras? É uma grande questão que o filme levanta. Fenton descreve para o detetive as ações de um pai com enorme respeito pelos filhos, maior ainda por Deus, com sua listinha de nomes na mão, como se fosse os dez mandamentos, trazendo para casa a cada duas ou três semanas, um morador das redondezas amarrado e amordaçado, acusado de ser um demônio. Seria ridículo, se não fosse assustador. A “prova” da verdadeira identidade do prisioneiro é feita quando o pai coloca a mão sem luva na cabeça do pobre coitado e “descobre” os mal feitos do suposto demônio. Adam está encantado coma idéia de fazer parte de uma família de caçadores de monstros. Fenton, mais velho e menos manipulável, está como qualquer um ficaria, horrorizado.

A Mão do Diabo é de um estilo diferente de terror, que foge do lugar comum, mas que volta para o lugar de sempre no desfecho, sem perder o brilho conquistado no decorrer do filme. Eu não sei se essa falta de ambição de Paxton, o fez colocar o filme no caminho mais fácil no final ou se ele foi audacioso a ponto de nos conduzir em uma direção e nos dar uma rasteira quando a gente menos esperava, nos forçando a produzir o nosso próprio flashback da história, para nos adaptar a mudança de realidade. O que eu sei, é que esteja o filme inovando ou não, até a cadeira em que você se senta para assistir vai suar de tanta tensão.

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