Dirigido por Stanley Kubrick
Dirigido por Stanley Kubrick

Durante a baixa temporada, um homem é contratado para cuidar de um grande e isolado hotel, tendo somente a esposa e o filho como companhia.

Eu tenho o hábito de assistir ao filme sobre o qual vou escrever, enquanto estou escrevendo, mesmo que já o tenha visto várias vezes. Rever certos detalhes dos filmes que a memória apaga é muito útil, principalmente se mudam ou ampliam a visão que eu tinha. Foi o meu ritual semanal aos catorze anos, gastar a mesada alugando filmes inéditos, mas sempre acompanhados de uma cópia de O Iluminado, um filme que eu me recusava a não entender. Era uma obsessão. Minha frustração era tão grande, que eu cheguei a ler o livro de Stephen King em busca de respostas. Em vão.

Eu não verei O Iluminado enquanto escrevo este texto e não é só porque eu já o assisti muitas vezes, por muitos anos e praticamente decorei até as cenas que normalmente esqueceria em outros filmes. Stanley Kubrick criou, na minha opinião, o melhor, mais eficaz e duradouro filme de terror da história do cinema. Em matéria de tópico a ser analizado, O Iluminado será o Everest deste blog. Este texto espera para ser terminado há mais de um ano, espera pela minha coragem de ver o filme inteiro, pelo menos mais uma vez. Há alguns anos eu lí que este era um filme que só dava medo com tempo. Eu sinto que Stanley, com toda a sua paciência, finalmente me pegou e esta crítica terá que seguir em frente, com o auxílio apenas da memória. Depois de tanta observação, o filme que era intrigante há vinte anos, se tornou insuportavelmente assustador, mesmo sem conter vultos, vozes sussurradas e cobertores sendo puxados no meio da noite.

Durante a entrevista de emprego, Jack Torrance escuta a história macabra de um ex-zelador do hotel, que não aguentou a pressão do isolamento durante os meses de inverno e se matou, logo após matar a esposa e as filhas. É uma espécie de aviso para o candidato à vaga, que corre o risco de não entender o lado negativo de reinar absoluto em um local tão bonito. O que me chama a atenção agora, depois de tanto ouvir a história do zelador Grady, até que ela não tenha mais nenhum impacto, é a expressão facial de Jack, que sabe que precisa parecer chocado, mas reage com praticidade e frieza. Como se o que escutasse não fosse real.

TheShining 2Jack é um alcoólatra em recuperação, que apesar de se dizer escritor, trabalhava como professor e agora será um zelador. Ao lado dele está Wendy, a esposa submissa e meio lerda, perfeita para que Jack se sinta superior e idolatrado, como se fosse um escritor de sucesso. Danny é o único filho do casal, que se adaptaria bem ao isolamento, já que gosta de brincar sozinho e conversar com o amigo imaginário. Os hóspedes e empregados vão embora e a família fica sozinha. Um dos aspectos medonhos do filme, é que eu não posso confiar em nenhum desses personagens para obter um relato seguro do que está acontecendo no hotel. Nenhum deles é a mesma pessoa sozinha e em grupo. Nem Kubrick me ajuda, porque ele faz questão de dizer que um determinado dia é uma quinta-feira, mas não me diz de que mês, ou semana. Eu não tenho nem como saber quanto tempo de confinamento se passa, até que a família tenha que lutar pela própria vida.

O terror é muito mais do que Danny vendo duas meninas no hotel, sendo que só a família deveria estar lá. O problema é que eu posso nunca ter uma explicação para quem elas são, já que as filhas de Grady tinham uma diferença de idade e o que Danny vê no corredor são gêmeas. O filme é cheio de cenas apavorantes, como o rio de sangue saindo do elevador e a revelação do conteúdo do livro que Jack está escrevendo, mas não saber se o hotel é realmente assombrado ou se todos estão enlouquecendo, é o que me tira qualquer segurança e me faz ter medo de coisas como a trilha sonora, como a já característica padronagem do carpete, ou do fato de que o design do labirinto arborizado não bate com o desenho do lado de fora dele. Cenas chocantes podem ser superadas, mas atmosfera precisa ser cultivada e ela dura mais.

TheShining 1Tirar o crédito de um continuista em um filme de Kubrick é um insulto. O homem era famoso por filmar a mesma cena dezenas de vezes, ou até atingir a sua idéia de perfeição. Portanto, o modo como certos objetos mudam de lugar na mesma sequência, pode ser tanto um indicativo de constante atividade paranormal, quanto um convite do diretor para entrar na armadilha de revisitar o filme várias vezes. Outro modo de não deixar ninguém escapar de O Iluminado, foi Kubrick mudar muitos aspectos do livro de Stephen King. O diretor se recusou a mostrar Tony, o amigo imaginário, modificou a aparência e o destino de alguns personagens, substituiu um jardim de animais por um labirinto e enfiou gêmeas que não existiam, em uma cena que nunca fica mais fácil de assistir. Talvez ele quisesse que todos soubessem que o livro era apenas uma inspiração e era ele quem tinha o controle sobre o filme. O que isso acabou desencadeando, junto com outras decisões aparentemente supérfluas, foi um interminável festival de análises, que podem até ser meticulosas, mas nunca definitivas sobre o filme.

O título do filme e do livro se refere à Danny, o menino com habilidades extra-sensoriais, que percebe que a família não está segura, mas não pode fazer nada a respeito. A iluminação dele é comprovada diversas vezes, ele é um médium de verdade, mas não é o único a ver algo além do normal. Jack, com ou sem bebida, também possui alguns amigos, que aparecem no local, mesmo com as estradas bloqueadas pela neve há muito tempo. Se eles são reais ou imaginários, para mim, já não é tão importante quanto evitar um quarto de hotel com a numeração dois três sete. Eu também não sei se esses visitantes aparecem em uma segunda, ou uma terça. Minha memória é boa, mas não tão boa, mas eu não vou tirar a dúvida assistindo ao filme agora. Talvez amanhã, ou daqui há alguns anos.

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