Dirigido por James Wan
Dirigido por James Wan

A história real de dois investigadores paranormais que tentam ajudar uma família em perigo.

Lorraine e Ed Warren não são personagens fictícios, eles foram um casal religioso com um conhecimento extenso sobre espiritismo, atividades paranormais e demonologia, que não só dava palestras sobre estes temas, como colocava em prática, sempre em dupla e às vezes sob um risco altíssimo, todo este conhecimento para auxiliar leigos com problemas espirituais. Este filme conta a história do pior caso que eles tiveram, de acordo com eles mesmos.

Annabelle é a boneca introdutória, não o foco da história. Ela serve para apresentar o casal e nos dar uma idéia do que eles fazem. Antiquada e maltrapilha, ela assusta sem fazer nada, porque acompanhamos o testemunho de quem ela assustou. E precisamos de mais do que isso? Mais do que uma história assustadora sobre um objeto, para ficar longe dele? Desde a infância até o presente, pelo menos para mim, é um prazer e um martírio ouvir depoimentos de estranhos ou conhecidos sobre espíritos e eventos inexplicáveis. Um filme de terror competente, é como uma história contada em pessoa. Você não precisa presenciar nada para temer.

Para os Warren, uma manifestação paranormal serve como estudo se ela for lida a respeito e serve como uma ótima oportunidade para ajudar o próximo, se ela for observada de perto. Não existe curiosidade mórbida porque o cristianismo cumpre um papel muito importante na vida do casal. Francamente, isso incomoda quem está acostumado com heróis mais cínicos, mas, em uma história supostamente real que toma liberdades demais e foge um pouco dos fatos, pelo menos faz com que o casal seja retratado de forma convincente, já que eles não moderam o papo de igreja para agradar ninguém.

the_conjuring_1A família Perron (e eles possuem o mesmo nome na vida real) se mudou para uma casa surrada pelo tempo, mas acessível econômicamente. Roger e Carolyn não têm muito dinheiro, mas possuem um estilo de vida agradável e uma penca de filhas. Eu só entendi que eram cinco garotas ao todo, quando a mãe Carolyn disse o número em voz alta. Elas são tão parecidas e hiperativas que fica difícil contar. Em uma das brincadeiras pela casa, as garotas acidentalmente revelam um sótão que estava vedado. Mas que ninguém pense que a recente perturbação no local deu início ao pesadelo que está por vir, já que o cachorro da família se recusou a entrar na casa logo após a mudança. Annabelle foi fichinha.

Muitas vezes, uma boa direção em um filme de terror significa decidir quando e o quanto mostrar. A gente sabia que tipo de filme seria logo no início, quando o logotipo do estúdio veio acompanhado de uma trilha sonora tão misteriosa quanto ensurdecedora. Aguardamos os sustos com ansiedade, mas os fantasmas eram tímidos e ao invés de algo concreto, temos insinuações e provocações que acabam nos dando uma falsa sensação de segurança. Um bom diretor, como é o caso de James Wan, sabe armar a cilada com paciência e dar o bote com crueldade. Não vemos nada quando estamos esperando, nem mesmo quando os personagens apontam em pânico para algum lugar e quando acreditamos que continuará um mistério, duas mãos saem da escuridão e batem palmas. Simples e eficaz.

Invocação do Mal é um clássico instantâneo, ou seja, não é uma produção como aquelas lançadas em dúzias e facilmente esquecidas. Tudo dá medo e o humor é muito discreto para amaciar cenas tensas. Fica claro que inovação não é o forte do filme. Hitchcock aparece sem propósito ou explicação na forma de pássaros, que se chocam contra as janelas da casa. Nós temos um exorcismo, um fantasma que aparece em um espelho “de acordo com certas regras” e outro fantasma que, sem brincadeira, se enfia debaixo de um lençol. Eu não pedi uma revolução no gênero e não recebi uma, eu só queria sentir medo, então está tudo bem.

the-conjuring 02O único pecado talvez seja não manter a elegância e esfregar fantasmas na tela, assim que as assombrações começam a ficar mais violentas. A família Warren finalmente se une à família Perron, depois de passar muito tempo sendo retratada paralelamente. Lorraine Warren, que é uma médium em exercício até os dias de hoje, consegue ver a presença, ou as presenças que habitam a casa e atormentam a família. Ela também consegue entender o objetivo da líder dos fantasmas, que é colocar em prática um plano diabólico, executado com sucesso diversas vezes em décadas anteriores.

Se os elementos do filme são familiares, o que conta é o que o diretor faz com eles. Para os amantes do gênero, um corpo com uma corda ao redor do pescoço é trivial, mas ver este corpo suspenso perseguindo alguém em um ambiente pequeno e trancado, é a definição do bom uso. O diretor não nos dá um filme impressionante, mas nos poupa de um dos maiores e mais insultantes erros dos filmes de terror da atualidade. Aquele desesperado, desnecessário e estúpido susto gratuito no final do filme. Por essa razão eu já agradeço muito e reconheço que Wan estudou os antecessores certos para realizar este filme.

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