Dirigido por Pier Paolo Pasolini
Dirigido por Pier Paolo Pasolini

Durante a Segunda Guerra Mundial na Itália, quatro homens poderosos sequestram adolescentes para torturá-los fisica, sexual e mentalmente.

Quando uma catástrofe acontece na vida real e ela poderia ter sido evitada, não fosse a covardia e a fraqueza dos nossos espíritos, uma nuvem de medo se forma, mesmo depois de décadas, para nos manter alertas e previnir que ela aconteça de novo. Regimes totalitários só podem existir com o aval da maioria, com a sensação de que o povo finalmente faz parte de um movimento benéfico para todos, ou pelo menos, para aqueles que são seus semelhantes. Quem for diferente, que se dane.

Este não é um filme de terror que nos faz temer o escuro, ele foi feito para dar medo da cegueira. Assustadoramente enojante, desconfortável e confuso, Salo é tão controverso que eu não condeno quem o rejeita. Com toda a minha compreensão sobre as intenções do diretor, que foi assassinado pouco antes da estréia do filme, eu me dou o direito de questionar a necessidade de certas cenas, que na minha opinião, tornam o filme um paraíso para qualquer pedófilo que o assista, mesmo que eles sejam claramente retratados como monstros no filme.

O inferno se situa em uma mansão na Itália, no comando, estão os quatro cavaleiros do apocalipse. Um membro da realeza, um membro do clero, um juiz e um homem que todos chamam de presidente. Seus costumes são ridículos, suas preferências são incompreensíveis e suas piadas são sem graça, mas eles possuem as chaves e as conexões certas e estão determinados a contestar a crença de que tudo o que é demais, enjoa. Com o auxílio de alguns soldados nazistas, eles recrutam jovens carrascos e com a força destes carrascos, eles reúnem a contragosto nove rapazes e nove garotas, sem defeitos físicos aparentes, todos virgens, para várias semanas de humilhação e tortura.

Salo 1O filme é dividido em três partes, assim como é pontuada a estadia na mansão. Primeiro vem o ciclo, digamos, romântico, depois o ciclo culinário e por último, o ciclo que irá punir quem desobedeceu os regulamentos nos dois primeiros ciclos. Normas podem parecer inapropriadas com tanta loucura, mas elas são cruciais neste filme. Aquela mansão se torna um mundo fechado e é importante lembrar que ordem nunca evitou o caos no mundo real. As regras da casa não fazem sentido, mas todos obedecem, por mais que elas não tragam nada além de sofrimento. Três velhas prostitutas compartilham histórias da profissão no início de cada ciclo, para estimular os poderosos a cometer atos semelhantes com os jovens. Estes contos precisam se adequar ao tema do ciclo e se houver falhas, um dos consumidores irá reclamar com a naturalidade de quem se irrita na fila da padaria. Esta regra é uma das muitas bobagens que foram literalmente inventadas, anotadas e atestadas pelos quatro homens.

É estranho me incomodar mais com o que eu escuto e menos com o que eu vejo. As cenas de tortura são insinuadas ou mostradas de longe, mal executadas e atuadas. É claro que adolescentes nús causam desconforto, mas nada me choca mais do que o linguajar no filme, seja nas histórias autobiográficas das prostitutas ou nas ordens dadas pelos senhores. É mais do que grosseiro, é maldoso. As sensações que o filme causa não são simples, por exemplo, o local está cheio de vilões desalmados e eu não consigo odiar ninguém. Cheio de vítimas e eu não me apego a ninguém, no entanto, eu quase consigo sentir o cheiro das refeições, de tão realistas que são.

Salo não é totalmente livre de diversão, para nós proletariados de gostos comuns. Em uma sequência inesperada, diversos prisioneiros evitam a punição oferecendo informações secretas sobre outros prisioneiros, formando um círculo de fofocas que termina onde começou, causando morte apenas no grupo dos vilões. É no mínimo interessante ver também, que todas as tentativas de fuga são individuais e que ninguém se une contra o inimigo. Nada mal para um filme apelativo, sobre classes dominantes e classes dominadas.

Salo 2Depois de algumas semanas de exploração, alguns adolescentes se matam, alguns se deprimem e alguns aceitam. Seria sobre sadismo, se a degradação fosse exclusiva para a molecada, mas os quatro homens estão mais do que felizes em participar de tudo o que impõem aos outros. Quando os jovens estão prestes a entrar na casa pela primeira vez, os sequestradores enfatizam que ali dentro não há liberdade e que todos estarão fora do alcance da legalidade. A experiência é um recrutamento. Você não quer as nossas regras, então vai morrer, mas se quiser ser um de nós, não só terá que engolir muita merda, vai ter que gostar… mas em compensação, estará como nós, acima da legalidade.

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