Dirigido pelos irmãos Pang.
Dirigido pelos irmãos Pang.

Após um transplante de córneas, uma mulher que era cega, começa a ver espíritos.

 

 

 

 

 

Se para nós que conseguimos enxergar, já é complicado! Um pregador no chão, vira uma barata por uma fração de segundo. O casaco em cima da cadeira, é com certeza uma pessoa olhando pra gente, até que acendemos a luz do quarto. Imagine a confusão na mente de alguém sem referências visuais. Que não sabe distinguir o que está perto do que está longe, que não se habituou a lidar com a mudança drástica em um ambiente, por causa da iluminação. Uma pessoa que ainda não entende que não é normal, quando alguém desaparece da nossa frente, no meio de uma conversa.

Mun é uma jovem que perdeu a visão na infância. Após o sucesso de uma cirurgia de transplante de córneas, ela precisa se adaptar à nova vida. Enxergar lhe tira da orquestra de cegos, onde tocava violino, mas a coloca em um novo mundo, onde ela desfruta da ferramenta que a deixará mais independente.

the eye2Uma mulher que aprendeu a não temer o que só conseguia escutar, reage corajosamente a qualquer sombra que se movimente na sua frente. Enquanto ela não sabe, que nem tudo o que vê é visto por todos, a vida segue com a esquisitice aceitável, presente em qualquer recuperação cirúrgica. Mun pode desconfiar de que algo está errado, quando acorda todas as manhãs e o que olha no seu próprio quarto, demora a fazer sentido, mas acredita que tudo é uma questão de tempo.

É preciso que Mun veja um espirito acompanhado do corpo morto, sem poder confundí-lo com um sujeito duplicado por uma visão desfocada, para perceber a extensão que os seus novos olhos alcançam. Quando ela começa a sentir medo, o filme começa a dar medo. Toda aquela animação de ver as coisas pela primeira vez, é substituída pela depressão de quem prefere a escuridão.

The EyeAté que Mun é uma médium de sorte! Onde mais, fora do cinema asiático, ela encontraria personagens tão crédulos e prestativos? Em nenhum momento ela é ridicularizada, ou considerada maluca. Antes que ela peça ajuda, sua avó e sua irmã já trazem um curandeiro para uma sessão de descarrego no apartamento. Seu terapeuta, que deveria ser o racional na turma, não hesita em assistir a paciente, dentro e fora do consultório. Tudo o que ela precisa fazer é lidar com o próprio medo. Quando alguém próximo dela morre, desfazendo a impressão de que seu novo dom a coloca em perigo, só resta aceitar que ela continua sendo diferente, só que de outra maneira.

Entretanto, não conte com Mun para virar uma líder espiritual, ou montar uma barraca de leitura de mão tão cedo. Desde a conclusão do seu transplante, ela tem pesadelos constantes e violentos, mas não tinha certeza de que eles significavam alguma coisa, até que sua visão fica nítida o suficiente, para que ela perceba através de fotos, que a imagem que vê quando olha no espelho, não é a sua.

The eye – a herança, nos faz experimentar o medo da morte e dos mortos, sem sustos repentinos. Um fantasma pode aparecer de repente e botar todo mundo pra correr, mas pode ser bem mais assustador, se ele vier devagar e você não tiver como fugir. No final, quando Mun descobre que existe uma razão para as suas visões, ela já superou suas limitações e deficiências. O mundo que antes a via como alguém especial, começa a tratá-la como uma pessoa comum. O seu novo tormento é estar rodeada de céticos, justo agora, que virou um poço de informações relevantes.

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