Jordan Peele está em uma missão com este filme, para desmistificar várias crenças. A primeira é a de que uma invasão alienígena não pode ser lucrativa. A segunda é que separar um filme por cartelas com nomes específicos, é sinônimo de divisão por capítulos. Quem determinou que a abreviação O.J. precisava ter uma conotação negativa para sempre? Ou que a aparência de um extraterrestre deve obedecer a um padrão conhecido? Peele acredita entre muitas coisas, que se ele substituir vacas por cavalos como principal fonte nutritiva, a criatura vai consumir sem perceber a diferença no paladar e o ato, junto com outras escolhas criativas, irá provocar questionamentos que ele considera necessários na mente do público. Talvez a melhor forma de viver não seja sabendo de tudo o que se passa. Permita que seus olhos descansem, porque nem tudo merece a sua audiência.

Em uma escala de zero a dez de acidentes de difícil explicação, com um sendo o escorregão em uma superfície seca utilizando sapatos aderentes e dez, sendo uma rajada de vento que ergue e manipula objetos metálicos, com a possibilidade de que estes perfurem qualquer superfície em alta velocidade, podemos concluir que O.J. e Emerald perdem o pai de uma maneira que levantaria suspeitas para o resto de suas vidas. O Sr. Otis, interpretado pelo maravilhoso Keith David, tem pouco tempo de cena, antes de deixar o rancho e o negócio da família para os filhos. Por um bom tempo lucrativa, a atividade de criação, treinamento e fornecimento de cavalos para filmes e comerciais, está na família desde o início da invenção do cinema, mas sem o pulso firme do patriarca literalmente nas rédeas, é certo que tudo, do produto principal à moradia dos Haywood, seja perdido em pouco tempo. 

Não, Não Olhe possui um personagem secundário com sua própria história, vivendo mais fora do que dentro da bolha dos Haywood, na pele do eterno “Glenn” (R.I.P.) Steve Yeun, que precisa não apenas ser o cara das ofertas justas, porém estranhas, em relação aos cavalos dos vizinhos em processo de falência. Ele é crucial para o reforço do que eu acredito ser o tema central do filme: a obsessão com a cultura do entretenimento e das celebridades nos dias de hoje. Tudo precisa ser documentado e se não for divulgado, é como se não tivesse acontecido. A sombria cena de abertura do filme é o ponto de vista dele, quando ainda era um ator mirim no set de uma daquelas sitcoms gravadas em frente a uma platéia. Uma tragédia provocada por outro ator, completamente fora de controle, no qual o pequenino foi poupado milagrosamente, era pra ter sido o trauma de uma vida, e não há como negar uma certa satisfação, em ver que ele conseguiu a sua própria maneira dar a volta por cima. O problema é que quando um sobrevivente medita uma vida inteira sobre um acontecimento terrível, do qual saiu sem nenhum arranhão, ele corre o risco de se tornar perigosamente auto-confiante… como se o monstro que ele insiste em provocar, não pudesse desobedecer o “corta”, do diretor que ainda vive na cabeça hollywoodyana do ex ator.

Eu admito que por mais que tivesse amado Corra! (2017), eu ainda não tinha certeza da, como eles dizem mesmo? “Star Quality” de Daniel Kaluuya, mas trabalhando novamente com o diretor, no papel de O.J., um personagem ainda mais tímido do que o anterior, é inegável que estamos diante de uma estrela. A presença carismática do ator, entretém até quando ele preenche a tela calado, com os olhos fixos em coisa nenhuma. O.J. é um homem de pouquíssimas palavras, com péssimas habilidades de comunicação, que se passaria por um chato, ou um fraco em mãos menos preparadas. Em contraponto temos Emerald, a super extrovertida, hiperativa e péssima profissional irmã de O.J., que está contribuindo para a ruína da empresa, sob a atuação da igualmente brilhante Keke Palmer. Localizado em uma área rural, mas próxima o suficiente de Los Angeles para alimentar sonhos de fama e riqueza, o rancho desmorona aos poucos até que um objeto gigante e não identificado é visto no céu. Dizem que é no momento de maior dificuldade que surge uma grande oportunidade, pois ela chega, instigando uma corrida por exclusividade de imagem tão voraz e divertida, que até nos esquecemos que em outros filmes, a maior preocupação seria a sobrevivência. 

Eu me pergunto se Não Olhe Para Cima, lançado há pouco tempo, teve alguma influência na escolha deste estranho título em português, enquanto assisto a imagens que certamente se tornarão ícones do terror no futuro. Uma casa inteira tomando uma chuva de sangue, foi algo que não devemos ter visto ainda. Tem uma coisa estranha na nuvem, uma nuvem que nunca se move, a não ser que o objeto nela resolva passear. Em cada vez em que isso acontece, o pânico é real. Mais desesperador ainda, é quando a criatura resolve ficar quietinha. Pior ainda, é quando ela não está visível. Com genialidade, Peele utiliza a velha Hollywood como isca, no molde familiar quando o assunto é alienígenas em filmes. Que talento ele teve para exceder expectativas, mais de uma vez, com um vilão completamente surreal, elegante e imprevisível, mesmo tendo um padrão de comportamento e não sendo muito inteligente o tempo inteiro. A decepção que eu tive com a nova versão do sagrado Além da Imaginação nas mãos de Peele, me fez pensar que estivéssemos diante do mais novo M. Night, que trabalha muito melhor quando o ego não atrapalha. Que bom que isso não aconteceu, ainda. Que bom que o diretor nos mostra aqui, que sabe reconhecer as armadilhas da indústria que o emprega.