GET OUT
Dirigido por Jordan Peele

 

Um filme sobre o preconceito que o racismo sofre.

Hostilidade? Segregação? Muito pelo contrário! Os vilões de Corra! nunca foram tão cheios de amor e tão desesperados por integração, mas não pense que o racismo existe apenas nas ações e discursos inflamados, de gente que procura os motivos mais idiotas para descontar suas frustrações e fabricar inimigos. O filme é uma denúncia às injustiças sociais sim, só que não com os suspeitos de sempre no centro de tudo. Muito se conhece sobre o preconceito descarado que ataca com base no ódio, mas o diretor quer falar sobre outro tipo de ofensa, uma mais velada que insiste em atribuir papéis às pessoas por julgá-las diferentes, com o objetivo de que elas se encaixem em visões distorcidas. Em um nível mais sutil, a denúncia pode ser sobre um movimento crescente de auto-promoção, disfarçado de defesa dos interesses alheios.

Eu estava um pouco mais do que familiarizada com o programa de humor Key and Peele, que apareceu como uma agradável surpresa nas sugestões de vídeos do youtube há alguns anos, quando um dos membros da dupla de comediantes responsáveis pelos esquetes mais legais do Comedy Central, anunciou que iria estrear na direção de um longa, mas especificamente, um filme de terror. Foi um misto de animação e apreensão porque, por um lado eu sabia do que Jordan Peele era capaz de fazer como escritor, por outro, eu temia que a nova aventura profissional, caso fracassasse, me deixaria decepcionada como fã dele e de terror. Comprovadamente competente, Peele me fez enxergar o meu preconceito sobre artistas saindo da própria zona de conforto, e também me fez questionar a serviço de quem está atribuir personalidades permanentes aos outros.

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Chris Washington, um talentoso fotógrafo e personagem principal do filme, tem um semblante constante de desconfiança no rosto, como quem sempre espera problemas antes que eles cheguem. Em um ambiente no qual ele se sente um intruso, é com descrença que ele escuta um elogio, ou alguém satirizando seus medos por ter um relacionamento inter-racial. Visitando os pais da namorada pela primeira vez em uma cidade onde só pessoas de altíssima renda vivem, ele mal consegue conter o nervosismo. Acontece que a namorada é tão protetora e a chegada do casal é recebida com tanto carinho pelos sogros, que Chris se aquieta, e a gente até esquece que o filme abriu com uma cena onde um rapaz negro, na mesma comunidade onde moram os pais de Rose, sofre um episódio de violência sem testemunhas, nenhum sentido ou explicação.

Corra! é do tipo de filme que se a gente falar demais sobre, estraga muitas surpresas para quem ainda não viu, mas eu posso dizer sem spoilers que no mesmo final de semana da visita do casal, a família Armitage também irá receber um grupo grande de amigos, para a celebração anual do trabalho do avô de Rose. Entre menções consideradas obrigatórias pelos convidados à personalidades negras como Obama e Tiger Woods e gentilezas exageradas, o incômodo volta a assombrar Chris, que só consegue enxergar gente branca e rica ao seu redor e o fato de que os empregados da casa são negros, aumentam a sensação de que ele só pertenceria ao local se estivesse prestando um serviço. Entretanto, o que realmente o assombra, fazendo com que Chris ache necessário procurar refúgio ao entrar em contato pelo celular com o melhor amigo que ficou na cidade, é a presença do único convidado negro da festa, agindo com a passividade e naturalidade de qualquer outra pessoa branca no local. Para nós, que sabemos que o convidado é o mesmo rapaz atacado no começo da história, chegou a hora de gritar o título do filme. Para a sorte de Chris que não nos ouve, ele é um paranóico e vai fazer exatamente isto.

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Contemplem um dos melhores filmes de terror do ano, vindo de onde eu imaginava ser o mais improvável dos lugares. O objetivo final dos vilões é uma fantasia maluca, que apesar de ser comum no terror, nos puxa o tapete onde ficava uma história sobre desigualdade e nos faz cair em um sangrento episódio de Além da Imaginação. A melhor parte é que as razões para o sangue também são inesperadas. Jordan Peele tem uma mensagem clara e com pulso firme, não perdoa o “racismo do bem” dos personagens brancos que exploram o preconceito para parecerem progressistas, nem as suspeitas exageradas e até cômicas dos personagens negros. É um filme cheio de vítimas mas sem vitimização, tirando a justificativa de um protagonista que vivia com medo de ser hostilizado pela cor da pele. Aqui ele é um “final boy” comum de filme de terror, com a mesma má sorte de tantos outros em uma situação absurda, independente da raça.

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