Dirigido por Robert Wiene
Dirigido por Robert Wiene

Uma série de assassinatos coincidem com a chegada de uma atração na feira da cidade.

Este filme mudo alemão parece ter sido feito no quintal de algum adolescente, que no início do século passado não tinha ainda noção de todo o potencial do cinema. Mas não é isso o que todos os estúdios costumavam ser? Uma estrutura improvisada nas mãos de artistas iniciantes? Eu só não estava entendendo por que substituir o uso de uma cortina, pela representação de uma. Por que não levar a câmera até uma rua qualquer, ao invés de construir ruas visivelmente falsas? Até as pregas nas luvas são desenhadas. O público pode perceber toda a fantasia, mas o meu erro foi acreditar que isso era resultado da inexperiência.

Considerado o primeiro terror (de verdade) da história, o filme pode nunca ter sido feito para assustar, pelo menos não do modo como estamos acostumados. A atmosfera de O Gabinete é sombria e desconfortável, não só pelo exagero nos cenários e nos personagens carregados de trejeitos teatrais, mas pela sensação de ansiedade. Quando você acha que sabe o que está acontecendo e deveria saber, já que artifícios do cinema são mais familiares para o público moderno do que para os realizadores deste filme, uma reviravolta acontece, depois outra e outra, aumentando a insegurança quando deveria levar ao esclarecimento. O filme impede a necessidade de buscar por referências, para entender exatamente onde estamos pisando. A influência deste clássico é indiscutível.

O filme é contado em flashback por Francis e eu só vou revelar que é muito importante para quem ele conta a história. É obvio que foi filmado em preto e branco, mas para diferenciar o dia da noite, eles usaram filtros amarelados e azulados, o que deixa o filme bem mais fácil de acompanhar se você tem problemas de atenção. Mesmo que o passado esteja no meio do filme e o presente apenas no início e no fim, é bom ficar ligado nessas transições para não achar que a história não faz sentido, já que a mudança acontece sem aviso.

CALIGARI 1 Francis e seu amigo Alan são muito próximos, a ponto de estarem apaixonados pela mesmo mulher, sem que isso cause conflito entre eles. Alan fica sabendo que uma feira no estilo circence está para acontecer e convence Francis a ir com ele. Ao mesmo tempo, na administração da feira, um sujeito com cara de vilão de filme de terror, que se entitula Dr. Caligari, está tentando conseguir uma permissão para incluir sua apresentação entre as atrações. Quando ele descreve o conteúdo do seu ato, o chefe da administração ri da cara dele. Este chefe é assassinado na mesma noite e que coincidência, Caligari consegue uma vaga na feira.

O mestre cuida da atração enquanto ele está inconsciente, alimentando e eu presumo que limpando o homem também. “Senhoras e senhores, Cesare o sonâmbulo, irá responder a todas as suas perguntas”. Cesare é um homem que dorme há 23 anos, acordando apenas ao comando de Caligari para as apresentações. Sim, é tão ridículo quanto parece, mas a tenda enche e lá estão os dois amigos entre os pagantes, para ouvir as previsões do místico. Alan parece fascinado, é incrível e quando o vidente diz que o rapaz estará morto até o fim do dia, ele leva o aviso a sério.

CALIGARI 2Quando você é criança, brincar de ser sonâmbulo é muito divertido. Algo a ver com impunidade, com não ser responsabilizado por nenhuma travessura. A profecia se concretiza e Alan é assassinado. Alguns dias depois, outro homem também é. Francis tem os seus suspeitos, mas também tinha os seus motivos para ser um suspeito. Enquanto todos buscam por um assassino, inclusive eu, simplificando minhas conclusões com base nas aparências, o filme brinca com o conceito de que um crime nem sempre vem acompanhado da culpa, independente das vítimas.

O ritmo acelerado é mérito da direção e da edição, por mais que o tempo tenha engolido alguns frames que causam um pulo nas cenas. As surpresas são em parte pela competência de quem o fez e em parte pelo nosso cinismo. É como conceder tratamento especial a alguém pela idade avançada, só que O Gabinete do Dr. Caligari não precisa da nossa compaixão. Eu esperava inocência e levei uma rasteira e tanto.

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