Esta crítica contém spoilers de Um Lugar Silencioso – 2.018.

Duas cenas chamam a atenção logo no início, por serem carregadas de expectativas. Uma delas é a notícia na t.v., com poucas informações concretas, de que alguma tragédia aconteceu em um lugar distante, portanto, facilmente ignorada por quem não tem a mínima ideia do que está por vir. A outra, acompanha sem cortes o patriarca da família Abbott, enquanto ele caminha com tranquilidade pela rua principal daquela cidadezinha pacata. O som do rádio sai baixinho das janelas, os pássaros cantam e o cachorro simplesmente existe. É preocupante. A propósito, apesar da tensão, não passou despercebido que o reflexo do cara nos comércios vidrados, não vem acompanhado do reflexo da câmera. Qual será o barulho inocente, mas fatídico, que atrairá o primeiro dos monstros? Os primeiros a descobrirem que a melhor estratégia é calar a boca, nós já sabemos quem são.

O ator e diretor John Krasinski tomou no final do primeiro filme, a decisão de remover seu personagem de uma possível continuação para a história da família. O que ele nos dá em troca, é um flashback que a gente nem sabia que precisava, até ver o trailer desta sequência. Todos nós imaginamos como poderiam ter sido os primeiros sinais de que o planeta inteiro estava em perigo, quando o filme de 2.018 foi lançado. Só que o segundo filme não era necessário apenas para nos mostrar como tudo começou. É muito bom ver que Marcus sempre foi um menino nervoso e que o bebê da família era, ironicamente, super quieto. Melhor ainda é saber que Regan sempre será uma jovem determinada e que o novo bebê, naturalmente imprevisível, exige procedimentos mais complexos de sobrevivência. A gente ainda não tinha visto tantas vítimas em potencial, juntas na mesma sequência de ação e é interessante que neste filme, a carnificina não se limita ao momento em que a população era bem maior. 

Seguindo exatamente de onde havia parado, a história nos mostra que a propriedade rural ficou inutilizada, eles estão na estrada com um recém nascido e o nível de perigo subiu terrivelmente, mesmo que qualquer crime contra a mãe com os filhos, tenha a capacidade reduzida pela barulheira que poderia causar. Os corações de todos estão partidos. Ao longe, eles avistam um sinal de fumaça, o antiquado… e também moderno meio de comunicação entre vizinhos. A distância é vencida a pé, como tem sido com todas as distâncias há mais de um ano. A velocidade dos passos é determinada pelos decibéis, de preferência sem sapatos. As únicas defesas são o aparelho auditivo de Regan, acompanhado da velha caixa acústica do pai e se houver sucesso da engenhoca, para abrir uma brecha na armadura dos alienígenas, uma espingarda seria a solução imediata que certamente atrairia outros inimigos. Logo, um pai sem família encontra a família sem um pai, mas não antes que Marcus fique gravemente ferido, em uma cena para lá de bizarra, cujo propósito era deixar o coitado de molho temporariamente e aumentar o volume.

Cillian Murphy foi o escolhido para substituir Krasinski e ele é ótimo, sempre foi, mas eu preciso admitir que esta nova dinâmica do grupo deixa bastante a desejar. Me incomoda que muitas separações que acontecem entre os personagens e elas precisam acontecer, sejam o resultado de decisões negligentes, ao invés de serem acontecimentos fora do controle de todos. É claro que o estresse contínuo é um prato cheio para extrair o que há de pior nas pessoas, mas algumas escolhas no filme não fazem sentido além de causar drama. Emmett, o novo personagem, se recusa a ajudar os vizinhos (temporariamente), quando ele deveria estar eufórico com a companhia de outras pessoas depois de passar meses sozinho. Ninguém pensou em estocar tanques de oxigênio, que abafariam o choro com segurança, antes do bebê nascer? A única maneira de gerar ruídos, era Marcus largando o bebê para trás e explorando o novo lar, quando deveria estar morrendo de dor? Não vamos nem falar em Regan, a deficiente auditiva impulsiva, saindo sozinha em busca de uma antena transmissora de rádio. 

Ninguém esperava que fosse tão bom quanto o primeiro e realmente não é um filme ruim. Todos estávamos curiosos para saber como eles iam se virar no mundo, mesmo que o primeiro filme tivesse terminado com uma esperança inédita desde o início da invasão: a de um combate, onde antes só havia aniquilação! A situação piorou muito e não dava mais para somente viver afastado e com cuidado. O segundo filme é sobre buscar algo em grande escala e definitivo, então eu entendo que precise ser uma questão de poucos dias e que os eventos precisem ser acelerados, mas ainda precisávamos de um pouco mais de história, de um desenrolar mais cuidadoso dos novos encontros, já que enrolação teve! Será que outros flashbacks no meio do filme, contendo ou não a família central, seriam considerados apelativos? Porque eu adoraria ter visto umas cenas curtinhas, aparecendo espalhadas entre a história principal, da galera em geral tentando chegar em casa silenciosamente, assim que ficou evidente que os bichos são cegos. Eu gostei, mas é um longa com cara de curta. Quase Um Lugar Silencioso 1.5.