Li Ronan vive em desespero há seis anos por diversos motivos. Ela acredita ter sido amaldiçoada, após ter violado as regras de um antigo ritual religioso. Sendo a ameaça real ou imaginária, o resultado é que a jovem agora luta para obter novamente a guarda da filha. Eu acredito que as autoridades de Taiwan na época, decidiram não confiar em uma mãe tão supersticiosa e potencialmente perigosa para a menina. A verdade é que, até que ela entendesse o que deveria e não deveria fazer, tragédias aconteceram aos montes ao redor de Li e algumas delas, mesmo com o registro de câmeras de segurança, são difíceis de explicar. Nenhum desses problemas são fáceis de enfrentar sem ajuda, mas ela não tem muita escolha, já que não crer no que ela crê, é o que preserva a vida de quem ainda sobrou por perto.

Marcas da Maldição faz uso do found footage de uma maneira brilhante na concepção e exagerada na execução. Vamos falar do lado positivo primeiro. Se você vai produzir um terror no qual a vítima conversa com quem assiste, nada melhor do que torná-lo interativo! A maldição diz algo sobre o perigo de saber demais sobre a entidade que aterroriza a protagonista. Quanto mais alguém a investiga, mais real ela se torna para o curioso. O filme já começa com um apelo da mãe, para que a gente a ajude a salvar a menina, assistindo aos diversos vídeos que ela fez com ou sem essa intenção específica. Ela nos ensina mantras e nos força a concentrar nossa atenção em símbolos, que ocupam toda a tela e demoram a desaparecer, levantando suspeitas sobre as intenções da direção. É o mesmo artifício usado em O Chamado, que lentamente envolvia a plateia em uma apavorante e triunfante manipulação.

Enquanto estava grávida, Li fazia parte com mais dois rapazes de um programa (t.v.? youtube?) pseudo-sobrenatural de caça à fantasmas. Com conhecimento sobre edição de vídeo, é natural que Li tenha nos preparado um longa metragem normal, onde a história é contada fora de sequência e em certas cenas, com mais de um ângulo de captura de imagem. Quando ela consegue levar a filha pra casa, em caráter provisório, também é natural que ela queira registrar que tem competência para criar a menina, com câmeras espalhadas pelo apartamento, no carro; mas é indefensável que outros personagens tenham a mesma obsessão, não apenas amadores utilizando a câmera como se fossem documentaristas, como também pessoas normais se permitindo gravar em qualquer circunstância. Mesmo que Li precise de bastante material, para convencer os assistentes sociais e o público, uma abordagem mais simples, enxugando sequências desnecessárias onde a ação poderia ser apenas imaginada por nós, ajudaria a estabelecer credibilidade, já que crença tem um papel crucial no final desta história. 

Dodo, a filhinha interpretada por uma gracinha de atriz mirim, passa a viver com a mãe e a construir com ela um vínculo amoroso quase destruído por anos de separação. Pela regra estabelecida, já que Dodo saiu de cena ainda muito novinha, assim que Li começou a perder familiares, amigos e provavelmente a própria sanidade, ela deveria estar a salvo da maldição. Desde o primeiro dia, no entanto, o “bicho papão” tem aparecido, assustado e possuído a menina. Em uma cena muito bem feita (apesar de Dodo ser a videomaker da ocasião), somos engenhosamente manipulados para acreditar que Li está para sofrer sua pior perda até então. Para a nossa alegria temporária, Dodo vive, mas é deixada com sequelas físicas sem um diagnóstico certo. Mesmo sem querer arriscar a vida de mais alguém, Li precisa pedir ajuda. A melhor solução é buscar socorro na comunidade que já conhece o demônio. A mesma que Li e seus companheiros desrespeitaram anos antes. Um povo que sabe tudo sobre oferendas e sacrifícios. 

Para salvar Dodo, um plano muito difícil de ser seguido é imposto nas duas. No meio tempo, outra pessoa, que deveria ser uma aliada, é exposta voluntariamente a imagens que nem Li tinha visto do ritual profanado. Se alguém dentro da história vê, a gente também vai acabar vendo. O filme é previsível sim, mas precisamos aplaudir uma produção que faça do seu filme um desafio. Marcas da Maldição não é recomendado para quem sofre de tripofobia, ou para quem entre em pânico com uma ótima direção de arte, que crie templos macabros dentro de túneis sufocantes. Você acredita em bênção, nos pergunta Li. E maldição? Você repetiu, pelo menos mentalmente os encantamentos que ela te pediu pra fazer? Olhou para o símbolo que ela mostrou, por todo o tempo em que ele esteve em cena? Viu na íntegra as imagens que certamente encerram o filme? Se a resposta for não, mesmo podendo ser melhor, o filme deu certo!