Não possui um orçamento de superprodução ou rostos famosos, mas não precisa de nada dessas coisas. A equipe técnica não chega a cinquenta pessoas, (tudo bem que Nosferatu (1922) tinha ainda menos do que isso). Não vemos locações montadas para causar frio na espinha, na verdade, com a exceção da breve aparição de um sótão, tudo o que é mostrado são cenários que veríamos tipicamente em uma vídeo conferência informal. Nada de trilha sonora ou um belo trabalho de fotografia. Não tem nem mesmo uma hora de duração! Mas desde quando o tamanho de um filme influencia o medo que ele causa?

Haley, assim como todos os outros personagens prestes a se darem muito mal neste filme, decide praticar uma atividade que em teoria parece super inofensiva, mas na prática, tem o potencial para ser um desastre de proporções infernais. Eu estou certa de que durante esta pandemia, todos tivemos a nossa cota de imprudências, só que as amigas aqui querem burlar o isolamento, invocando companhias invisíveis. Obviamente não é o caso, mas digamos que todos os participantes online compreendam as regras de uma sessão espírita. Também não é o caso, mas digamos que além de Haley, todos tenham experiência com este tipo de contato sobrenatural. Realmente… de verdade… não é o caso, mas digamos que o mundo espiritual fosse composto predominantemente de fantasmas fofos e amigáveis. Qual era o plano para o caso de uma eventual desconexão do grupo, no meio da sessão? Estão entendendo o que eu estou dizendo? Existe hora e lugar pra tudo nesta vida e se chama “brincadeira do copo nos anos 80”. Uma queda de internet ou um ruído que faça alguém amarelar e pular fora, pode ser a diferença entre a vida seguindo normalmente com uma história fantástica pra contar, ou todo mundo caindo dentro de um filme de terror de maneira irreversível. 

A minha indignação é superficial, com certeza. Enfiar o sobrenatural dentro do super-natural, é o que faz o filme funcionar tão bem. Como é maravilhoso ver melasmas no lugar de maquiagem feita por profissionais, ou problemas técnicos característicos de uma ligação no Zoom e não anomalias assustadoras de vídeo, criadas em computação gráfica. A descontração na produção é tanta, que os nomes dos atores viram os nomes dos personagens. Como é excitante ser arrastado para dentro do filme, de uma maneira tão sorrateira, com esta atenção a detalhes que nos são tão familiares, para depois puxar o tapete, quando já estamos completamente investidos e a história abandona subida e definitivamente a vida real. Ao contrário de outra versão do mesmo tema para o cinema, como Amizade Desfeita (Unfriended – 2014), o realismo é uma consequência muito mais atribuída à simplificação do enredo, do que à utilização de aplicativos populares, como Facebook por exemplo. No filme de 2014, recursos online eram usados para encorpar a história e torná-la mais estereotipada, mas aqui, a informação é tão limitada quanto deve ser, em um período tão curto de tempo e um meio tão inconstante de comunicação.

Trata-se de uma sessão espírita inocente, para conectar membros de um grupo de amigos aos seus entes queridos, possivelmente. Antes de começar, alguns participantes já estão com medo, outros estão se divertindo e a além da médium chamada para guiar o trabalho, Haley parece ser a única focada e levando o negócio a sério. Haley não é uma iniciante, mas isso não é necessariamente algo favorável aqui. Ela está tão segura, com base em outras experiências positivas, que nem imagina o que mais poderia aparecer além do avô de alguém ou um amigo que se foi. Entre apavorados, super confiantes e indiferentes, existe sempre o palhaço da turma e este nunca se segura. Uma besteira é dita, algo incomum responde ao chamado e está longe de ser o parente morto de alguém. O filme é, a partir deste ponto, absolutamente horripilante!

Cuidado Com Quem Chama é uma modernização mais do que bem vinda, do processo clássico de filmes de casa mal assombrada. Geralmente, a gente veria uma sequência da chegada da família. Os pertences seriam desempacotados, todos diriam ter muita sorte de conseguir aquele lugar enorme por aquela barganha. Depois de algumas noites, os objetos começam a voar, vozes sem rostos perturbam todo mundo e não existem dúvidas sobre o paranormal. Que bom para todas essas famílias, que o espírito maligno sempre trabalha em suaves prestações, deixando a brecha para uma médium chegar, com uma galinha preta e várias regras sobre o mundo espiritual. Aqui são múltiplas casas e a ação acontece em tempo real. O público deste filme só vê o que as webcams mostram e em uma inesperada mudança de dinâmica, a gente espera que as participantes não prestem atenção em cada fenômeno, porque é impossível não nos colocarmos no lugar delas. Cada expressão de pânico, cada ataque e cada tentativa frustrada de fuga não é apenas assistida. Tudo é sentido com elas, tudo é vivido. Parabéns aos envolvidos!