Uma mulher presa entre a natureza selvagem e a natureza com fome.

Em uma cidade no sul da Flórida, que receberá todo o impacto de uma tempestade com tornados, Haley, uma jovem nadadora que nunca foi a mais rápida na própria equipe, precisa ir contra o caminho dos grupos que estão abandonando o local, para tentar encontrar o pai, que não responde o celular e mora perto do pântano. Os ventos estão violentos, a chuva não pára e a cidade está ficando alagada, mas a jovem que é destemida demais para o próprio bem, como se contasse com a sorte ou blindagem de uma heroína em um filme de desastre, demora em cômodos que ficam mais submersos a cada minuto, para acabar com os nossos nervos, em busca do homem que costumava ser também seu treinador e com quem ela está brigada há algum tempo. Até as equipes de resgate já se foram do local, porque o dever é importante, mas ninguém é idiota. A boa notícia é que Haley encontra o pai, a má notícia é que o furacão que se aproxima e pode atingir os dois a qualquer momento, é o menor dos problemas.

Quem viu Twister (1996), sabe o que é um furacão da categoria 5. O maior e mais destrutivo de todos é uma estrela escondida no filme, a gente só acompanha as consequências da passagem pela cidade, mas não vê o “corpo” do fenômeno. Só que isso, ou o fato de que temos outros vilões na história, não diminuem o espetáculo visual que é a tempestade, mostrado de uma maneira inteligente para disfarçar que, por mais que se trate de um evento grandioso, a maior parte da ação está concentrada no espaço físico de um quarteirão. De qualquer maneira, Predadores Assassinos pertence à categoria monstros no gênero terror, uma raridade no cinema moderno, que costuma ser quase dominada por bichos que não são reais. É o raro, porém clássico conto do mocinho (no caso, uma atleta das águas com o pai ferido a tiracolo) preso em um ambiente insustentável (no caso, a antiga casa da família que está cercada por água), enquanto o inimigo está à espreita (no caso, uma família de jacarés que aproveitou a enchente para fazer uma visita). As duas ameaças do filme contam com efeitos especiais de primeira e em todo momento parecem completamente inescapáveis. Quem viu a série Miami Vice (eu não vou colocar a data aqui e denunciar minha idade), sabe que jacarés naquela parte da Flórida são praticamente cidadãos votantes, de tão numerosos!

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O filme se passa durante algumas horas da manhã e a luz do dia é indispensável, porque Haley encontra o pai em um local escuro e lá eles permanecem por um bom tempo. Filmes de terror são tipicamente noturnos e foi uma ótima decisão fugir desta regra, pois do contrário, não só a fotografia ficaria comprometida, como o entendimento do que está acontecendo também. Dirigido por Alexandre Aja, o francês responsável por Alta Tensão (2003) e a ótima refilmagem de Viagem Maldita (2006), o filme não nos poupa da carnificina que a presença dos animais promete. Com a produção de Sam Raimi, que adora esse tipo de coisa, é difícil que um ataque aconteça fora de cena. As mortes são demoradas, ferozes e vemos tudo graças a este cuidado com a clareza das imagens e ao espírito atrevido dos realizadores. Em muitos filmes de monstro, a criatura não precisa trabalhar muito para comer e apenas uma mordida geralmente acaba com a vítima. Aqui o desespero é bem realista e um pouco desconfortável de assistir, porque é ao mesmo tempo caótico e nítido, com a câmera bem próxima das dentadas e das sacudidas.

Agora, se um filme de desastre já é sempre tão recheado de clichês, imagine quando o gênero é obrigado a dividir a história com outra categoria de filmes, igualmente  repleta de estereótipos que poderiam ser dispensados, mas continuam firmes nos enredos da vida! É claro que existe um conflito mal resolvido entre pai e filha e é claro que ele precisa chegar ao ápice, quando os personagens estão prestes a virar uma refeição. O momento mais inapropriado possível para lavar a roupa suja, é quando eles estão dentro de uma gigantesca máquina de lavar a céu aberto e a água ao redor tem corpos boiando, mas isso não impede ninguém de sair xingando parentes. Outro acontecimento padrão, é mostrar personagens gananciosos tentando lucrar no meio da tragédia. Esse povo é quase figurante, porque só está lá pra fazer o público esperar a punição da mãe natureza. A propósito, o que aquele pai ainda estava fazendo em casa, com o resto da cidade sendo evacuada? Sustos se multiplicam como os vilões que os provocam, mas não se engane com a minha descrição de alguns chavões dessa história, porque cada salto que a gente dá, por consequência da aparição de um jacaré, é orgânico e recompensado com uma cena de ataque ou tentativa assustadora, que transformam os animais em grandes adversários.

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Super movimentado, o filme não dá muito tempo para o público respirar, o que resulta em um blockbuster super tenso, mas com personagens com um desenvolvimento um pouco artificial. Não é um problema de jeito nenhum, na minha opinião. Pai e filha, apavorados e sangrando, precisam sair da parte da casa que está inundando e ir não apenas para um piso acima, mas para uma parte bem alta da residência, porque ela está afundando na lama e os bichos continuam entrando, seja nadando ou rastejando. O problema é que do lado de fora, o F5 está arrancando telhados e destruindo estruturas que poderiam servir de abrigo. Eles estão praticamente em um sanduíche e isso é muito divertido de assistir. No terço final do filme, são umas quinhentas reviravoltas, tirando e colocando os dois em perigo o tempo inteiro e o impacto dos animais nunca diminui, para o nosso deleite e martírio.