Quase um eletrodoméstico vindo do inferno.

Eis que aparece a vinheta da Orion Pictures, como que ressuscitada da minha infância,  da época em que alugar v.h.s. me definia como ser humano, mais presente do que os logos dos grandes estúdios na minha memória. Eu li em algum canto que a companhia foi comprada pela MGM e está refilmando alguns clássicos, não necessariamente seus, como este, que chega repaginando toda a história e dando uma imagem completamente diferente a um dos vilões mais conhecidos do terror. Eu não sei se não chamaram Brad Dourif para que Chucky não tivesse nenhum traço da personalidade dos outros filmes, ou se chamaram e Dourif já estava de saco cheio de tantas sequências e recusou, mas eu gostei muito da escolha do mestre jedi Mark Hammill para fazer a voz do boneco. Dourif é inesquecível, mas Hammill não é um novato na área de usar a voz para dar vida a vilões e fez um ótimo trabalho. Nesta versão, temos um Andy mais velho e com isso, várias mudanças na execução da história, em relação ao primeiro filme. Temos uma mãe do Andy mais jovem e um policial que mora no mesmo prédio e com isso também, uma série de possibilidades para fazer o roteiro seguir em direções imprevisíveis, mas a maior mudança está em Chucky, que não me causava medo desde os dias do v.h.s.

Vamos tirar uma coisa do caminho: Não há desrespeito com o material de 1988, quando o primeiro filme foi lançado, porque não há um legado para ser preservado aqui. Alguns dos atores dos filmes antigos, torceram o nariz e  não quiseram ter nenhuma associação com esta produção, como se continuações de causar vergonha alheia, em que Chucky arranjou uma noiva ou teve um filho, não tivessem existido. A aversão a esta refilmagem pelos “puristas”, só pode ser porque a ideia principal por trás da motivação do vilão deixou de existir, assim como a magia negra que tornava possível a existência do boneco. Sai o “good guy” e entra “Buddi”, uma espécie de Alexa ou Siri para crianças, com tronco, braços, pernas e a habilidade de interagir com todos os eletroeletrônicos de uma casa que foram fabricados pela mesma empresa que ele, uma espécie de Apple com produtos desenvolvidos para os compradores da Marabraz. Buddi, que para ir de acordo com a tradição, passa a se chamar Chucky ao ser ativado por Andy, é um boneco-robô equipado com um aplicativo de inteligência artificial que faz dele um assistente ultra moderno, que aprende com o tempo a servir o dono da melhor maneira possível. Andy, que neste filme tem 13 anos, é meio velho pra bonecos, mas é também um recém chegado na cidade, deficiente auditivo e meio chateado com a juventude da mãe. Buddi é um ótimo instrumento de adaptação a nova rotina, ou deveria ser, se o de Andy não fosse diferente dos outros, para preservar outra tradição.

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O argumento deste novo filme, é que a tecnologia por trás de Buddi é tão assustadora quanto um espírito maligno habitando o corpo de um boneco. A companhia responsável pela fabricação faz de tudo, de lâmpadas inteligentes a carros que podem ser usados como Uber e trabalhar sem motoristas. O brinquedo tem acesso à televisão e ao aparelho preso à orelha de Andy e o problema de tudo isso é um caso nada raro de defeito de fábrica. Só que, na vida real, se um produto da Apple quebra, por exemplo, os outros produtos não sofrem interferência, mas em um filme de terror, a palavra-chave é controle total e é exatamente esse o novo elemento semi-sobrenatural que o filme pede que aceitemos. No caso de Chucky, um funcionário insatisfeito com o trabalho na fábrica, remove parte das diretrizes habituais e todas as medidas digitais de segurança, fazendo com que o boneco, que tem uma aparência um pouquinho mais macabra do que o original, tenha inicialmente uma personalidade muito doce e ingênua, ainda cheio de espaço no hard drive para absorver noções básicas de comportamento, que ele vai aprender observando e convivendo com um “professor” que não é nada além de um adolescente normal.

Ele é ensinado a falar palavrão e usado para dar uns sustos em certos adultos, enquanto  cria um vínculo muito especial com o menino solitário. A ameaça a Andy não é imediata, porque é preciso tempo para que ela seja razoável. Nós somos convidados a imaginar Chucky de uma outra maneira e a narrativa, que é bem interessante e divertida, prende o público mesmo que não nos encoraje a aguardar o momento em que o boneco vai dar o bote. Entre uma palhaçada e outra (com destaque para a cena em que Andy ensina Chucky a fazer cara de mau), o boneco registra as conversas particulares da família e dos visitantes, a agonia que algumas pessoas causam ao menino e a alegria que ele sente com as cenas mais ridículas e sanguinolentas dos filmes de terror.  Chucky é quase um vilão por acidente, cuja única característica programada que não havia sido apagada, além da fofíssima musiquinha tema dele, era a devoção ao dono. Quando ele entende que Andy corre perigo, ele ataca “os inimigos do garoto” com a mesma violência que diverte Andy na ficção, enchendo o filme com um suspense diferente, que tem mais a ver com a reputação do menino do que com a segurança física dele. Na era das redes sociais e fama repentina, reputação pode ser encarada como sendo tão importante quanto a vida. O papel de Andy não poderia ser interpretado por um menino novinho, como da primeira vez. O filme precisa de atuações maduras… e as têm!

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Eu adorei o fato do filme ter modernizado o boneco da maneira que fez, envolvendo de maneira direta as facilidades tecnológicas que não existiam há pouco tempo atrás. Esta versão não esquece o que foi feito para fazer melhor, apenas deixa pra trás uma parte que já foi tão judiada da vilania de Chucky, para tentar algo diferente. Não é apenas válido pela ousadia, porque ela não vale nada no cinema se a tentativa não der certo, mas a versão de 2019 de Brinquedo Assassino consegue ser cativante e dar medo, com ótimos personagens, um combate final épico e uma história de terror mais ao estilo de Black Mirror do que ao estilo de Annabelle, ou do próprio Chucky dos anos 80. É estranho que o boneco acabe desenvolvendo sintomas de megalomania e apele para a vingança, como um namorado ciumento, quando Andy começa a fazer amigos, ou quando o menino tem um faniquito ao encontrar partes de corpos pela casa, mas vamos combinar que o “ranço de Chucky” (Olha que título legal pra uma sequência!) se trata de um avanço ainda não alcançado pela nossa tecnologia e não uma inserção sobrenatural fora de lugar.

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