Como personagem-título, ela é uma ótima coadjuvante.

Ed e Lorraine Warren, personagens baseados no casal de investigadores paranormais da vida real, que apareceram pela primeira vez no super tenso A Casa das Almas Perdidas (The Haunted – 1991), mas só ganharam fama mundial a partir de Invocação do Mal (The Conjuring – 2013), possuem um magnetismo raro no cinema de terror, reservado frequentemente para os vilões do gênero, que se tornam icônicos e arrastam o povo para os cinemas, sequência após sequência. No momento, os mocinhos são a nossa versão da Marvel, com um universo próprio, empolgando o público e cheio de casos arrepiantes que escolhemos acreditar, pela reputação dos Warren e pelos depoimentos dos sobreviventes. O que eles supostamente testemunharam em décadas de envolvimento com o oculto, não são a criação da mente de um roteirista, então o que estamos vendo nos cinemas graças aos relatos do casal, é mais do que uma história assustadora para se juntar a tantas outras, sobre um encontro infeliz entre vivos e mortos. A ideia dos filmes baseados em fatos reais é atraente e já foi muito utilizada por produtores da sétima arte, mas se o objetivo é criar uma franquia, você precisa convencer o público de que o filme é fiel a uma história que é “verdadeira de verdade” e não “verdadeira de faz de conta”. Ed e Lorraine são rockstars e uma mina de ouro para o gênero!

Pelo modo como muitos diretores atuais decidem conduzir seus filmes de terror, a aparição de um espírito em uma cena não chega a ser algo memorável. A não ser que o fantasma venha acompanhado de uma informação importante, como por exemplo, revelar que um personagem morreu sem que o público tenha se dado conta (como em O Sexto Sentido), ou que alguém é ou se tornou vidente, em um filme que não indicava ser sobrenatural, fica difícil não perder o impacto quando os mortos começam a se multiplicar pela história. É óbvio que o que dava medo há décadas, como sustos e maquiagem de zumbi, pode ser visto agora como algo banal, mas pequenos cuidados com a forma como a família assombrada é mostrada, a intimidade e as dificuldades financeiras que os tornam tão acessíveis para nós, ou momentos assustadores que são apresentados sem a fanfarra de trilhas no volume máximo, ajudam pra caramba a repaginar estes velhos truques. Com Ed e Lorraine, não importa se eles estão nesta vida há algum tempo, uma aparição sobrenatural é sempre impressionante, porque se existem pessoas com o mesmo dom de Lorraine pelo mundo, eu tenho certeza de que todos os espíritos que elas veem são inesquecíveis. No filme, os olhos da médium demonstram tanto medo dos espíritos menos amigáveis e ela conduz suas habilidades psíquicas com tanta elegância, que ao lado da devoção e seriedade de Ed, não há outro caminho a não ser o respeito e a crença em tudo o que eles acreditam. O fato de os dois serem super caretas e utilizarem os métodos mais batidos de combate ao mal, faz deles ainda mais queridos para o público.

ANNABELLE COMES HOME 1

Dos derivados de Invocação, que também incluem A Freira e A Chorona, Annabelle é a de maior sucesso, conseguindo melhorar a qualidade da produção a cada tentativa nas telas. Pela primeira vez, interpretados pelos ótimos Patrick Wilson e Vera Formiga, Ed e Loraine aparecem em uma história estrelada pela boneca, com uma participação mais do que especial, mas não duradoura, o que permite que o terceiro filme caminhe com mais liberdade entre a realidade e a fantasia, sem manchar a imagem de ninguém, e que a família-alvo sejam os próprios Warren, representados pela filha do casal, Judy. A menina que também vê os mortos, mas ainda tem vergonha dos poderes e nenhuma experiência de combate, se vê em uma terrível aventura com a babá, enquanto os pais precisam sair da cidade por um dia. Também pela primeira vez, obtemos uma resposta clara para a natureza e a amplitude dos poderes de Annabelle, em uma história que é tão fictícia quantos as outras duas, mas infinitamente mais assustadora. A boneca não está para brincadeira neste filme e o impacto que a primeira aparição dela teve em Invocação do Mal, é retomado com força total, depois da decepção que foi sua primeira produção solo e da leve redenção que foi o segundo filme. Para que a boa imagem seja mantida, eu espero que este seja o último filme dela. Com um título que lembra os mais recentes lançamentos do homem-aranha, Annabelle 3 é sobre uma época em que a família Warren começa a ganhar notoriedade, com as primeiras divulgações sobre o trabalho do casal para a população americana dos anos 70. As consequências são desagradáveis para todos, mas especialmente para Judy que na véspera do aniversário, sem amigos e sem a proteção dos especialistas, precisa enfrentar Annabelle e tudo de ruim que acompanha a boneca, em um verdadeiro parque de diversões para a maldita: o cômodo na casa dos Warren, que abriga todos os objetos amaldiçoados que eles recolheram através dos anos.

Com uma história escrita pelo sempre competente James Wan, o jovem pai desta nova era do terror, o estreante diretor (mas roteirista veterano) Gary Dauberman mostra que entende a importância de dois elementos que são cruciais para o filme: o primeiro é o suspense, que nunca é vazio e em várias cenas dispensa a trilha sonora, se tornando quase insuportável pelas razões certas, e o segundo elemento é a dupla principal de paranormais, que precisa sumir na história levando com eles um pouco da credibilidade, para dar lugar a um grupo de personagens que pode até não ter a mesma presença de cena, mas que foram concebidos nesta parceria Wan-Dauberman para segurar a bucha que é a Annabelle, com muito carisma e personalidade. A cena da inevitável libertação da boneca da mini-prisão de vidro, é um ótimo exemplo da boa direção que o filme tem. Vemos uma adolescente tentando entrar clandestinamente no museu de horrores dos Warren, de diversas maneiras que são óbvias e plausíveis, e cada vez que o esforço para abrir a porta termina em frustração, a sensação é a alternância entre terror e alívio, mesmo que a gente saiba qual será o resultado das investidas da jovem. Quando ela finalmente entra no cômodo, descobrimos que não se trata de uma garota inconsequente e curiosa, mas sim de uma jovem com motivos justificáveis para estar naquele lugar proibido.

ANNABELLE COMES HOME 2

O filme tem diversas cenas maravilhosas, mas uma parece ter se manifestado diretamente dos meus pesadelos. Anna está deitada ao lado da criança que dorme e a babá estranha a presença, mas acaba ignorando, certamente porque não teria como estar familiarizada com todos os brinquedos da menina, então lá a boneca permanece, como se fosse um desses confortos indispensáveis para o sono. O modo como ela é descoberta chega a ser engraçado. O filme é repleto de bom humor, que vem das formas mais inesperadas e cheio de afeto também, que nos diz que mesmo se a história é fantástica demais para ser um relato direto de Ed e Lorraine, ela ainda foi criada para respeitar os princípios e a dignidade da família que foi o alvo da assombração desta vez.

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