A câmera assustadora de Gaspar Noé invade a nossa praia.

O diretor deve saber que todo mundo tem medo dos filmes dele, porque se não soubesse, filmaria cenas de violência mais explícitas ao invés de brincar com a nossa imaginação, como fez aqui. Com a excessão de um soco, de uma procedência completamente inesperada, que imita outro soco bem famoso de um de seus trabalhos mais perturbadores (Seul Contra Tous – 1998), a violência em Climax é bastante comedida e quase acidental, se a compararmos com outros filmes do diretor e se considerarmos que o argumento de Climax, dava margem para um verdadeiro banho de sangue nas telas. Noé sabe que por conta de algumas de suas cenas inesquecíveis, ele se transformou no nosso Vietnam, quase nos provocando flashbacks de batalha, com traumas criados pela sua câmera sem filtro, então ele teve êxito em duas tarefas que foram uma surpresa pra mim: aumentar a tensão a cada minuto, ainda que mostrando mais coreografias do que conflitos físicos, e dizer para o mundo que, apesar da filmografia, ele nunca foi um cara interessado na crueldade, mas sim na realidade.

Um filme de terror com foco em dança, não soa como o mais recreativo dos passatempos, se o nome do filme não começa com “Sus” e termina com “piria”. Um “roteiro de apenas cinco páginas”, escorado sem dó no improviso do elenco, este, repleto de bailarinos profissionais e não atores experientes, também não ajuda a vender o peixe, mas se olhássemos para trás, poderíamos avistar a maluquice maravilhosa que foi Viagem Alucinante (Enter The Void – 2009), onde o diretor já mostrava que uma narrativa incomum não significava um filme sem pé nem cabeça sob seu comando. Além disso, os primeiros segundos deste filme já são o suficiente para prender o público de terror, com uma pequena amostra do resultado de um incidente caótico, regado a loucura e desespero, iniciado na noite anterior e estendido madrugada adentro. O fato de que a ação seguinte volta no tempo para nos apresentar os envolvidos, um a um, em uma sequência em que a câmera fica parada por uns sete minutos, enquanto cada bailarino responde às perguntas dos recrutadores, já nos indica que se fosse o caso de um vilão externo invadindo a companhia de dança, eles sendo tantos e tão atléticos, conseguiriam se defender. Este é um “self-terror”, sem a presença de estranhos e isto é muito interessante.

CLIMAX 1

Esta introdução super demorada me irritou um pouco, eu admito. O que Noé queria, além de me deixar desconfortável… de novo, com sua câmera imóvel em uma cena que eu desejo que acabe de uma vez? É necessário dar tanto tempo de exposição para cada personagem, impedindo que pelo menos uma boa porção deles se torne coadjuvante nesta história? O filme se passa durante o último dia de ensaio do grupo francês de dança, que conta com colaboradores de vários países, antes da grande turnê mundial que terá início nos Estados Unidos. Isolados no campo em uma propriedade sem luxos, mas com o tamanho apropriado para o trabalho e para acomodar os jovens de maneira digna, eles terminam seus últimos passos coordenados e se dirigem em clima de celebração para a mesa posta no mesmo local. É uma festa fechada, ao som de um dj com comida, bebida, dança livre, para variar e já que os profissionais se conhecem agora muito bem, muita conversa, que o diretor não deixa escapar por mais mundanas que pareçam, deixando a câmera invadir cada dupla ou grupinho que se forma, falando abobrinhas, até que o filme se torne um documentário em que nada de realmente importante aconteça. Aí alguém começa a passar mal, bem mal, não do tipo que precisa correr para o banheiro, mas do tipo que começa a questionar a própria realidade e o consenso é que alguém deve ter “batizado” a sangria que… quase todo mundo bebeu. Sim, as cenas demoradas com cada um deles eram necessárias, porque é importante saber profundamente com que tipo de gente estamos prestes a lidar.

As cenas de dança são belíssimas. Interessantes, animadas e sempre bem vindas, mesmo que o público de terror esteja geralmente em busca de outra coisa. A presença de uma criança no filme, já é um belo motivo de apreensão, mesmo que ela não apareça tanto. Eu não confio gente inocente a Noé. Cada curva que a câmera faz, sem corte pelos corredores do casarão, indo e voltando, me dá medo. Ele nem precisa mostrar muita coisa. De vez em quando, Noé só nos atiça com uma ideia que ele pode jurar que nem sugeriu, ou com um som que pode não ser nada além de uma farra sem malícia… ou um crime em andamento, que o diretor não teve a rapidez de pegar no ato. O filme passa a sensação de que além dos membros do grupo de dança, só tem um cinegrafista no local, equipado com uma steadicam e fingindo ser invisível, sem cabos e sem equipe de apoio. Sendo um criador com apreço pelo realismo, Noé apresenta o caos de uma situação absurda, mas possível de acontecer em qualquer lugar. Nada do que é mostrado é incoerente com as personalidades que vimos ou com as circunstâncias, mesmo que o comportamento seja às vezes irracional e enlouquecido. Mesmo que a dor e o sangue venham em doses mais leves, existem vítimas fatais naquela festa.

CLIMAX 2

Climax se passa nos anos 90 e tem como base uma suposta lenda urbana da época. Se é verdade ou não, é o que menos importa. O filme é uma viagem de uma locação só, muito bem coreografada (e não havia grupo melhor de pessoas para isso) para dar vida e agilidade aos diversos planos sequências, que permitem que o público seja levado para dentro da alucinação coletiva, estando completamente consciente de tudo o que se passa, como cúmplices que não podem oferecer nenhuma ajuda, como sempre acontece nos filmes do diretor. Toda vez que a câmera de Gaspar Noé começa a perambular atrás de alguém, minha pressão sobe. Quando ela passa a rodopiar sem eixo, como se não soubesse onde deve parar, é um espetáculo! Neste caso, ela nos leva ao inferno e de volta, com o colorido de Argento a tiracolo. Eu me pergunto que tipo de maluco coloca os créditos no meio do filme? O mesmo maluco que inovou o modo como a violência é filmada e o impacto que ela passaria a ter no cinema.

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