Talvez o último longa de Lars Von Trier.

Normalmente, duas horas e meia explorando de maneira profunda e poética um tema muito complexo, resultaria em um filme que não precisa de fatores externos para ser criticado. O problema é que existia tanta controvérsia em torno do diretor e suas obras anteriores, que não dava para ignorar, do conteúdo privado, com as reclamações de atores sobre o gênio difícil do diretor nos sets de filmagem; ao infame, como declarações de simpatia à Adolph Hittler, que Von Trier diz terem sido uma piada interpretada como algo sério pela imprensa internacional. O filme estreiou em Cannes, mas não foi permitido participar da competição, porque o diretor foi banido do Festival anos atrás. O episódio foi tão desgastante para a carreira dele, que por um tempo uma mancha pairou sobre seus filmes e o diretor disse que não participaria mais de entrevistas coletivas, mas não é como se ele tivesse dado o assunto por encerrado. Não é apenas o psicopata do título que está neste filme. Hittler também se encontra aqui, de uma forma bem escancarada, junto com outros assassinos em série que são referenciados de uma maneira mais velada, assim como imagens já famosas de seus filmes anteriores, como se Von Trier quisesse ir muito além de dar explicações sobre seus comentários. O homem quer explicar quem ele é, o que pretende alcançar na profissão e se a interpretação dos que estão assistindo permitir, talvez ele possa oferecer também uma análise sobre parcelas da culpa naquela polêmica.

Com a certeza de que, usando um tom leve, o público pode ser enganado para gostar de qualquer monstro, Von Trier começa o filme mostrando um Jack com quem podemos nos relacionar em algum nível. O assassino não teve escolha a não ser matar aquela primeira vítima pentelha, ou quando teve escolha sobre outra vítima, ele parecia genuinamente em conflito, como se o que estava para acontecer fosse evitável. Como Jack vê a si mesmo nos primeiros segmentos do filme, chamados de “incidentes” pelo diretor que adora dividir suas histórias em porções, é o que menos importa. Para um homem chamado Verge que não vemos, mas escutamos por todo o filme, Jack narra os incidentes sangrentos que definiram sua vida, junto com suas ideias sobre a vida e a arte, que o diretor permite invadirem o filme de forma generosa, em quantidade e tempo de exposição, para que Jack faça suas comparações entre o que seus ídolos artistas fazem e o que ele fez. Estaria o psicopata confessando seus crimes dentro de uma prisão, para um detetive que dá corda para tudo o que ele fala, esperando que Jack eventualmente se enforque? Bom, no começo não importa. No começo estamos junto com ele, torcendo para que as viaturas passem reto, rindo do Transtorno Obsessivo Compulsivo que faz o homem retornar à cena do mais recente assassinato diversas vezes, para checar se deixou de limpar manchas de sangue ou vestígios da presença dele, até quase ser pego pela polícia. Para nós ele é um homem divertido, apesar de perturbado e um intelectual com as respostas certas sobre músicas e pinturas que não o movem.

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O filme fala de mais de uma década de matanças, mas não há mudanças físicas evidentes no personagem principal. Como ele nunca disse que os incidentes estariam em ordem cronológica, eu presumo que o número limitado de segmentos no filme só apresentem o que Jack considera importante e digno de ser compartilhado, dentro de uma carreira repleta de corpos. Ele tem o cuidado no entanto, de mostrar a progressão do seu trabalho com o passar dos anos, mas com a ideia distorcida sobre evolução. Quanto menos medo de ser pego, mais sede de sangue e o filme reflete isso se tornando menos bem humorado. Quando o terceiro incidente chega, Jack se torna um personagem imperdoável, porque é nele que a enganação do homem culto fica evidente. Os críticos fizeram tanto barulho sobre a sequência em que Jack se diverte com uma família em um piquenique, que eu senti uma mistura de angústia e curiosidade sobre ver o filme pela primeira vez. Eu cheguei a pensar que a versão que eu estava vendo era uma censurada, porque esperava algo mais chocante, mas isso é a minha sensibilidade com a ficção abalada para sempre, após anos de filmes de terror, e não a moderação das cenas. Sim, eu já vi pior, até mesmo de Von Trier que foi mais explícito em Anticristo, por exemplo, mas A Casa Que Jack Construiu ainda é um filme com cenas difíceis de serem digeridas. Eu compreendo os que nos festivais de cinema abandonaram o filme no meio da sessão, pela violência mostrada e pela sugerida, porque ambas causam muito impacto. Saiba que a imagem de uma criança tendo o corpo manipulado para parecer uma piada, mesmo que o ato tenha sido feito após a morte, me abalou tanto quanto outras imagens mexeram com o público normal. É uma cena de puro terror que assombra outras que se passam na mesma locação. O diretor pega até os veteranos com este filme, e melhor, sem tanta apelação.

A fotografia é belíssima, principalmente naquele super slow final, que determina artisticamente o destino do personagem principal, ao mesmo tempo em que revela o mistério sobre a voz no escuro. O ator Matt Dillon (oi sumido!) no papel de Jack está muito bem, assim como os que interpretam suas vítimas. O filme poderia ter sido mais curto, com menos espaço para tantos devaneios de Jack. Em diversas cenas é como se fosse realmente um depoimento policial, sendo mostrado na íntegra. Talvez o objetivo seja mesmo cansar o público, com a conversa mole e contraditória de uma espécie de gente que sempre recebe muita atenção dentro e fora do cinema. Jack é um engenheiro que queria ser um arquiteto, porque ele considera a primeira função uma profissão para ganhar dinheiro e a segunda, o mais próximo que um trabalhador consegue chegar da arte, sem precisar se chamar de artista. Ele tenta construir a própria casa, com base em seus projetos amadores, mas a única que consegue tirar do papel com alguma competência e ainda assim transformar em uma obra grotesca, é aquela feita com os resquícios da passagem dele pelo planeta. Ninguém conseguiria morar nela, nem Jack, o que faz dele um fracasso no que mais deseja ser, apesar do sucesso com a violência.

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Do meio para o fim de A Casa Que Jack Construiu, somos removidos do que seria a estrutura normal de um filme, normal para os padrões estabelecidos por Von Trier, é claro e colocados em uma espécie de tese sobre arte e sua relação com a capacidade de sentir. Quando o quinto e último incidente está em andamento, o diretor está imerso na própria polêmica. Adolph aparece, assim como fragmentos dos outros filmes de Von Trier, as cenas mais agressivas deles. Enquanto Verge condena os atos monstruosos de Jack e da humanidade, como é de se esperar de uma pessoa normal, o serial killer força o ouvinte para fora do filme, questionando a natureza de certos artistas, no caso diretores de cinema, quando suas obras retratam a violência com brutalidade, com o objetivo de causar um grande impacto no público. O interessante é que Von Trier não deixa Verge dar uma resposta, mesmo que o diretor a tenha. Jack está igualando matar alguém a buscar a empatia de quem assiste a uma cena de morte, como um sujeito simplório que não entenderia ou consideraria qualquer resposta de Verge. Se o recipiente da explicação irá interpretá-la como quiser, pra que explicar? A simpatia de Verge pelo monstro não é a de um observador que admira o trabalho dele, é a de um que sente pena do homem que queria ser um artista e não passou de um assassino em massa.

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