Uma fábrica de zumbis, no quintal da sua casa!

Bom, se eles estão refazendo “It”, por que não trazer para este século, outra adaptação de um livro de Stephen King, já que a primeira tentativa deste aqui, também estava um pouco datada para o público atual? Vamos dar um trato na fotografia, melhorar os efeitos e a qualidade da maquiagem e do sangue, um elenco mais afiado, quem sabe… o meu medo no entanto, era repetir o texto escrito para o filme original, como se esta versão não fosse nada além de uma atualização plástica do outro filme, mas este não era o caso. A refilmagem não é perfeita, mas não é nada mal e traz uma nova perspectiva para a história escrita por King há quase quarenta anos, mudando um elemento importante que faz o filme funcionar melhor do que o original, em um aspecto importante. Você pode escrever uma história fictícia de terror sobre qualquer coisa e fazer com que o que você inventa pareça plausível, mas, a verdade é que no cinema, a responsabilidade que o papel de um vilão carrega não é apropriada para uma criança tão pequena. Bebês não atuam.

A memória do primeiro filme é muito nítida para o público de terror, ao ponto de anteciparmos certos eventos, então a comparação com o outro filme é inevitável. Esta crítica também é diferente da primeira por isso, nós temos dois filmes com a mesma premissa e execuções completamente diferentes pra comentar aqui. Cientes da nossa familiaridade e do quanto certos eventos são icônicos na nossa memória coletiva, os produtores de Cemitério Maldito – 2019 nos surpreendem com algumas escolhas e até brincam com as nossas emoções, enquanto aguardamos o momento em que parece certo que algo ruim vai acontecer, só para sermos surpreendidos alguns minutos depois. Quem estava de olho no calcanhar do personagem Jud, esperando o bisturi aparecer em uma sequência de suspense muito bem dirigida, sabe do que eu estou falando. Eu não tenho nenhum problema com as mudanças em relação ao material de origem, ou não seria tão apaixonada por O Iluminado, por exemplo; ainda mais se a dupla de diretores Kevin Kölsch e Dennis Widmyer estiver empenhada em fazer um filme para todos nós, calouros e veteranos.

PET SEMATARY

Falando em Jud, este é um personagem que nunca iremos parar de odiar, mesmo que ele nunca tenha sido um vilão e mesmo que agora ele se encontre na pele do sempre perfeito John Lithgow. Quando o médico Louis se muda da cidade grande para a casa ao lado da de Jud no interior, com a esposa e os filhos pequenos, fugindo da agitação e do barulho, para curtir a vida supostamente mais tranquila do campo, lá está o vizinho, pronto para se tornar um grande amigo. O terreno da propriedade é generoso, mas eles não estão isolados. Os vizinhos não moram longe e sempre estão pelos arredores, seja para enterrar seus bichinhos de estimação, no cemitério para animais construído no meio da floresta que fica no quintal da casa nova, ou para revelar habilidades terríveis que o local possui. Apesar do nome do filme e do livro, o problema real nunca foi exatamente o cemitério, mas sim uma porção de terra um pouco mais adiante, com um poder de recriação e destruição sobrenaturais e impressionantes. O lugar estava escondido, com acesso dificultado e quase esquecido para sempre, até que o vizinho solitário e prestativo resolve apresentar ao médico as propriedades regenerativas daquele solo. O gato da família morre e a filha Ellie vai ficar muito mal com a notícia, então tudo bem se ele for ressuscitado, certo? Não, Jud! Zumbis nunca são uma boa ideia, seu mané! O que ele achava que iria acontecer, assim que uma morte de maior peso acontecesse naquela família?

Sem tretas no hospital para o novo funcionário, somente a luta diária e nem sempre bem sucedida para salvar vidas. Sem bullying para Ellie na nova escola, somente novas amizades. As pessoas da família, parecem pessoas comuns. É um filme mais sério e isso vem com vantagens e desvantagens. A história de Cemitério Maldito, contém uma das mortes mais ousadas e devastadoras que eu já vi no terror e a decisão tomada neste filme, em relação ao que é o grande evento que muda a vida de todo mundo, melhora o desempenho de quem se torna um grande vilão, mas diminui o impacto do acontecimento. Pelo menos foi assim pra mim. O filme tem ótimas atuações, mas tinham dois personagens no filme anterior que sofreram um pouco aqui, pela abordagem mais contida que a refilmagem possui. A cunhada de Louis, Zelda, que morreu na história quando a esposa dele era uma criança, era bem tosca no filme original, mas isso não quer dizer que ela não tenha sido e ainda seja, o combustível ideal para pesadelos. Zelda era um caso raro no cinema, de uma imagem assustadora que ganhava força a cada vez que era exposta na tela. Neste novo filme, ela é muito bem feita e até dá medo, mas… não! Não é a mesma coisa. A ausência do ator Brad Greenquist, com seus olhos enigmáticos ilustrando a capa do filme de 89, também é muito sentida no papel do fantasma que tenta alertar Louis sobre os perigos do lugar maldito. Ele era outra raridade no terror, no caso, sustos que chegam a ser divertidos. O novo Victor Pascow não tem personalidade e o novo filme pode até ganhar no quesito credibilidade, mas perde em bom humor.

PET SEMATARY 2019 - 1

O preço para a reanimação de corpos é muito caro. Eu estava curiosa para ver como este filme nos mostraria os mortos voltando, como eles se comportariam e eu devo dizer que gostei da nova interpretação da história. A gente sabe que as pessoas retornam à vida completamente diferentes e quem gostaria de trazer de volta uma versão inversa do que já teve e amou tanto? Só se você acidentalmente matasse um padrasto violento, como acontece em Cemitério Maldito 2. Eu queria ver como seria um “gato malvado”, em um filme feito para um público menos ingênuo. O “vilão” faz um ótimo trabalho, porque no ponto em que aparece e do modo como age, com cenas de pura esquisitice, podemos até saber o que esperar, mas desejamos que Louis simplesmente mantenha a calma e não faça nenhum movimento brusco.

O filme tem um problema com ritmo. Muita enrolação no começo, mas apressado demais no final. Os diretores removeram uma ótima história paralela do livro e do original, sobre um morador da cidade e seu filho zumbi e preencheu o tempo com um coisa que não tivemos antes, que é uma tentativa de explicação para o fenômeno que é o cemitério. Eu digo tentativa, porque não há um aprofundamento no tema e ficamos na mesma, sem esclarecimentos. Era melhor nem ter mencionado a entidade que supostamente assombra o local. A raça escolhida para o gato é mais apropriada para o papel, tanto é que é ele agora que está na capa, o outro era muito fofinho. No final, que é bem audacioso e cruel sem ser explícito, houve uma certa redenção em relação à cena mais triste e chocante do filme antigo, deixada de lado no filme novo. É uma reinterpretação digna de conferência, mesmo que a execução tenha as suas falhas.

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