ilwtHosEntão… não haverá uma lista com os piores filmes este ano. Eu não vou perder o meu ou o seu tempo com filmes que nem se incomodaram! Para a sua diversão, a seleção abaixo está bem gordinha, porque a nossa safra foi boa e você irá encontrar as representações mais variadas do terror, algumas já famosas no ano que passou, outras eu acredito, completamente desconhecidas. Eu passei este último mês vendo o que eu achava que faltava para completar a lista ou ser descartado, muitos desses filmes foram lançados recentemente e por isso o blog estava tão quieto. Não havia tempo para mais nada a não ser esta lista. Eu não consegui ver tudo (o novo Suspiria, por exemplo), mas vi muita coisa e reforço que, apesar de todo o amor e critério envolvidos no processo de seleção, tanto os filmes escolhidos quanto a ordem na qual eles aparecem, são fruto apenas da minha opinião. Nas menções honrosas, eu ainda gostaria de colocar Ghost Stories, O Apóstolo, Hostile, Wildling e Mom and Dad. Vamos lá:

 

30 – DELÍRIO – (DELIRIUM) – Dirigido por Dennis Iliadis

Não se sabe porque Tom ficou trancado em um hospital psiquiátrico por tanto tempo, mas após décadas ele está finalmente sendo liberado e terá que viver na mansão que foi dos pais por trinta dias, monitorado por uma tornozeleira eletrônica e inspeções constantes de uma detetive que não confia nele. As instruções que irão garantir a liberdade após este período de condicional, são simples: não saia da propriedade, nada de visitas e nunca, NUNCA deixe de atender as chamadas feitas de um telefone instalado especialmente na mansão para… hum…mantê-lo na linha. As instruções de Tom para si mesmo são mais complicadas: Obedeça as instruções da polícia, continue tomando a medicação não importa o que aconteça e confie no próprio cérebro, não nos próprios olhos.

Solitário, recebendo ligações misteriosas e tendo a casa invadida regularmente por gente curiosa e por gente violenta, Tom precisa aguentar estes trinta dias, enquanto vai tentando decifrar o que é real e o que é imaginário, em um filme cheio de fantasmas do passado, sustos e com um desfecho mais do que satisfatório.

 

29 – WHAT KEEPS YOU ALIVE – Dirigido por Colin Minihan

Em uma enorme e rústica casa no meio da floresta, que não está isolada, mas é reservada, Jackie e Jules, estão comemorando o primeiro ano de casamento. Atividade  ecológica e momentos românticos não deveriam faltar, mas a vizinha aparece interrompendo as festividades, faz revelações importantes e provoca algumas mudanças nos planos do casal. Nós ouvimos uma história sobre a morte de um urso, tem outra sobre uma criança afogada no lago, tem também uma canção esquisita que uma das moças usa para fazer uma mini-serenata e tudo isso é super importante, mas não tanto quanto Megan, que chega com sede de sangue pra tomar o lugar de Jackie e empurra Jules de um rochedo. Só que Jules não morre e o filme se transforma em um terror do estilo sobrevivência.

What Keeps You Alive é um filme muito violento de maneira física e psicológica, que fica um pouco implausível em certas partes, mas a gente dá um desconto porque existe muito medo e choque envolvendo algumas decisões e porque coisas mais improváveis acontecem na vida real todos os dias. É uma ótima repaginada em um argumento batido e um jogo divertido de acompanhar, cheio de reviravoltas, entre vítima e vilão.

 

28 – ATERRORIZADOS (ATERRADOS) – Dirigido por Damián Rugna

Até a metade do filme, é uma antologia de histórias de terror, cujo elo de ligação é ter como localização a mesma vizinhança argentina. Começa com um homem preso pela morte da esposa, dando o depoimento para um grupo de investigadores independentes, já que a polícia não acreditaria no que ele tem a dizer. Depois voltamos algumas semanas no tempo, para ver que a origem do problema surgiu em outras casas e chegar a conclusão de que a contaminação sobrenatural, age como uma epidemia qualquer e não pode ser contida. A outra metade são estes investigadores paranormais, com as chaves dos moradores nas mãos e a permissão para ir e vir dentro das casas, enquanto tentam entender o que está acontecendo, como tudo começou e como parar o que está ameaçando os residentes daquela rua.

Então, Aterrorizados não vai responder quase nada destas questões, mas entre um clichê e outro em uma história que se transforma em uma lambança, o filme exibe algumas das sequências e imagens mais assustadoras de 2018. É um tipo de aparição diferente para cada casa, como se a maldade se adaptasse ao medo de cada habitante e elas funcionam tão bem, porque apesar de não estarem em um lugar hostil e isolado, a impressão é que a vizinhança aberta e cheia de policiais é inescapável e o que vemos representa os nossos medos também. Uma presença invisível assassina, um monstro embaixo da cama, uma criança morta tomando leite na cozinha…Deus me free! E eu ouvi por aí que o diretor prometeu fazer a segunda parte!

 

27 – HALLOWEEN 2018 – Dirigido por David Gordon Green

Danem-se os quarenta anos que separam este do original, junto com a cambada de sequências, que tinham Mike Myers como o vilão absoluto da data que representa o Natal para nós, fãs terríveis. Gordon Green passa a borracha no que só prejudicou a franquia todos esses anos, fazendo Myers sair agora da Instituição dos Criminosos Sobre-Humanos do cinema de terror, para ter apenas o segundo e se ela tiver sorte, derradeiro encontro com a final girl e rainha do grito em um mundo cheio de princesas, Laurie Strode, agora avó e muito bem preparada, porque como o seu algoz, ela sabe quem ela é e o que precisa fazer no mundo do cinema.

Myers é, como foi no filme de 78, um vilão sorrateiro, incansável e determinado, que reconhece a superioridade e elegância de uma arma branca em relação a uma de fogo, sem questionar o motivo de suas convicções, para causar tanto estrago em uma vizinhança que não tem nada de especial, como um vilão de slasher tem que ser. Existo, logo, mato! Esta sequência, atualiza o que precisa para não alienar as plateias atuais, sem ignorar quem esperava há décadas por um retorno sério de Myers, em um filme que compreendesse sua importância.

 

26 – MARA – Dirigido por Clive Tonge

Um assassinato acontece e gera um suspeito plausível, mas o estado em que o corpo ficou, exige um profissional aberto a teorias incomuns, fora do campo criminal. A psicóloga forense Kate é então chamada e fica com a tarefa de extrair informações da única testemunha do crime, uma menina traumatizada com o que viu e apavorada com a possibilidade do incidente se repetir. Para tentar resolver o mistério sem piorar o estado da criança, Kate se envolve com um grupo de pessoas que se dizem amaldiçoadas por uma lenda urbana. Para o azar dela, todos os mitos são verdadeiros em filmes de terror. Não só isso, eles também são contagiosos.

Mara fala de um fenômeno familiar para todos nós: a Paralisia do Sono. Embora explicações científicas tranquilizem nossas imaginações, elas não são muito úteis durante os episódios em que estamos entre o despertar e o “ainda dormindo” e teorias demoníacas são inevitáveis. A “Mara” do título, é uma entidade que transforma suas vítimas em um bagaço antes de virá-las do avesso, porque não deixa ninguém dormir. É uma vilã que poderia estar em um filme menos cheio de clichês, mas ela ainda dá conta do recado, principalmente porque só começa a ficar mais palpável quando Kate passa a acreditar nela. Ou seja, quanto mais o público recebe informações que sustentam as teorias fora da ciência, mais nítida a criatura fica.

 

25 – THE LITTLE STRANGER – Dirigido por Lenny Abrahamson

O Doutor Faraday chega à mansão da família Ayres, através de um falso comunicado de doença. A empregada queria uma desculpa para ser demitida, porque não quer mais trabalhar naquele ambiente deprimente, com uma família de gente boa, mas que é apenas uma sombra do que foi quando havia luxo e dinheiro na casa. A propriedade era o lugar dos sonhos do médico quando ele era criança, assim como o de muita gente no vilarejo, mas como descreve outro admirador que acompanha de longe a ruína da família, trata-se de um navio afundando.  A nostalgia desperta a empatia de Faraday, que acaba se mostrando um amigo cada vez mais próximo e confiável, não cobrando a família pelos serviços prestados. Só que acontecimentos incomuns e violentos, testam estas novas amizades, já que a ideia que o filme vende muito bem, de que a grande casa é assombrada por fantasmas, é comprada por todos,  inclusive por nós, menos pelo Dr. Faraday.

Com um toque sobrenatural muito interessante, este filme é tão parado que tem o potencial de fazer você me xingar por incluí-lo, mas eu prometo, ele precisa ser, porque lá está você, impaciente, caçando espíritos pelo filme inteiro, enquanto o diretor está tentando te contar a história que acontece entre uma parte tensa e outra, porque é ela que interessa. É ali que a maldade está mostrando sua verdadeira face e você não está dando a devida atenção. As cenas precisam ser repetidas e as confissões precisam ser cada vez mais explícitas, para que você enxergue o perigo dentro da casa. É uma versão elegante e com um ritmo de uma produção britânica de época, de um daqueles filmes de suspense americanos dos anos 90.

 

24 – YOU MIGHT BE THE KILLER – Dirigido por Brett Simmons

Sam já está escondido no acampamento estilo Crystal Lake do qual é coordenador, porque um maníaco mascarado, estilo Jason, apareceu e está matando todo mundo, mas ele não consegue entrar em contato com a polícia. Então ele liga para a melhor amiga, Chuck, que está na cidade trabalhando em uma loja e é uma expert em filmes de terror. Sam é um dos, senão o único que sobrou do massacre em andamento e acredita que já que ninguém virá para o resgate, pelo menos Chuck pode fornecer dicas de sobrevivência pelo celular, entre o atendimento a um cliente e outro. As coisas se complicam ainda mais quando Sam descreve para a amiga, que apesar de estar fugindo, é ele quem está em posse da arma do crime e da máscara maldita, e a coitada não vê alternativa senão contar a verdade que já decifrou, baseada em anos de experiência sendo fã do gênero.

Com um mistério resolvido muito cedo, esta comédia de terror utiliza então flashbacks saídos da mente confusa de Sam, para a análise certeira de Chuck, com uma linguagem bem anos 80 em pausas que esclarecem a linha do tempo, mostrando nomes e a contagem de corpos. É uma óbvia e divertida homenagem a Sexta-Feira 13, que nos faz pensar se não existe um assassino relutante e apavorado, por trás da máscara (esta sim, a vilã!) de Jason Vorhees.

 

23 – OS CURADOS (THE CURED) – Dirigido por David Freyne

Depois de anos de uma contaminação devastadora, que quase acabou com o continente europeu, uma cura é encontrada e alguns dos selvagens e semi-zumbificados doentes, são trazidos de volta para a humanidade, para o desespero dos que perderam entes queridos e dos próprios infectados, que mantém as lembranças de milhares de assassinatos cometidos por eles mesmos, enquanto não tinham o controle das próprias ações. A repulsa justa da população saudável, que não viu nenhuma punição ser aplicada aos assassinos, e o medo do risco de uma nova epidemia, dominam a decisão sobre o destino de outro grande grupo de contaminados, mantidos em quarentena por serem ainda resistentes à cura. Do outro lado, os melancólicos e hostilizados curados, sabem que se não há tempo para trabalhar em uma cura mais agressiva para salvar os resistentes, também não há tempo ou interesse para uma reintegração respeitosa à sociedade e se imaginam os próximos a serem definitivamente eliminados.

Tendo a Irlanda como cenário e fazendo várias alusões ao I.R.A., este é um dos filmes da lista com um pano de fundo político, como os filmes de zumbi geralmente são. Não é apenas uma briga por direitos iguais, é também uma batalha por auto-aceitação, que irá ferver até se transformar em uma guerra, onde a balança da vantagem social muda de peso e pode pôr todo o trabalho de união e sobrevivência a perder.

 

22 – VERÃO DE 84 (SUMMER OF 84) – Dirigido por Anouk Whissell, François Simard e Yoann-Karl Whissell

Em uma época sem Facebook, quando a diversão era espionar os vizinhos com um binóculos, o adolescente Davey parece ser o único a notar o número descomunal de garotos que estão desaparecendo em sua cidade. Tudo bem que ele é o Fox Mulder da turma, com suas teorias de conspiração e sua parede coberta com notícias absurdas de jornais sensacionalistas, então ninguém dá muito crédito para o adolescente, mas a verdade é que existe um maníaco rondando as ruas da cidadezinha e Davey pode ser o observador nato que vai descobrir quem ele é e levar o criminoso à justiça.

Verão de 84 é um filme sobre um bando de gente que parece muito alheia ao que acontece, mas a verdade é que o filme é um pouco mais realista do que de costume, no modo como desenvolve o seu enredo. Dificilmente há algo importante acontecendo quando o binóculos é acionado, porque isso é uma realidade, mas por isso o filme demora pra engrenar e é também por isso e por coisas como a sorte que a turminha de Davey possui na sua mini-investigação, como se esse fosse um terror para cardíacos, que quando o vilão finalmente aparece, em toda a sua loucura, o filme se torna tão efetivo em causar um impacto duradouro. Não é um filme de serial killer dos anos 80, é uma visão atualizada de um filme de serial killer dos anos 80, com sintetizadores “divando” do início ao fim.

 

21 – OS DOMÉSTICOS (THE DOMESTICS) – Dirigido por Mike P. Nelson

Um Mad Max de pobre, ou um Road Movie de terror, onde Nina e Mark, um casal à beira da separação, que está entre os poucos imunes ao veneno espalhado propositalmente pelo governo, decide atravessar o país, que às vezes parece somente mais vazio, com uma certa ordem e até rotina, na forma de vizinhos preocupados e informações sendo transmitidas por veículos de comunicação; e outras vezes, parece o fim dos tempos, com gangues sangrentas e populosas, que dominam estados inteiros, tudo para tentar chegar à casa dos pais de Nina, já que os idosos pararam de enviar sinais de vida.

Muito consciente do desenrolar fantasioso do roteiro e completamente imprevisível, por mais que a gente perceba depois de algum tempo, que todo lugar novo irá com certeza ser uma experiência maluca, Os Domésticos é um filme bem humorado e muito agitado, que não é apenas sobre o casal principal, porque vive mostrando o que está acontecendo dentro do raio de alguns quilômetros de onde eles estão. Conseguimos antecipar vários confrontos, mas nunca o resultado deles, em uma história que não nos deixa respirar.

 

20 – A MALDIÇÃO DA FREIRA (THE DEVIL’S DOORWAY) – Dirigido por Aislinn Clarke

A madre superiora nega, mas o Vaticano envia dois padres para investigar mesmo assim. Neste found footage, que sabiamente possui momentos editados e até com trilha, a estátua da Virgem Maria está chorando sangue e fantasmas de crianças mortas no local, avisam que aquele está longe de ser um lugar sagrado. O padre mais jovem e impressionável tem medo, enquanto o idoso ignora os acontecimentos sobrenaturais, até que eles tomam ciência de O’Brien, uma moradora do convento muito novinha e prestes a dar à luz. Considerada perigosíssima e acorrentada no porão, cercada de poderes e muitos amigos especiais, a jovem torna a atitude dos investigadores de nunca checar o material gravado e não solicitar ajuda até que seja muito tarde, ainda mais absurda do que deveria ser.

Este é o único filme com “freira” no título que valeu a pena ver este ano, não apenas pelas assustadoras imagens de espíritos e demônios, mas por falar sem restrições da terrível história real dos conventos irlandeses dos anos 60, que acolhiam imoralmente (para não dizer, sequestravam) mulheres-problema, com a desculpa de que iriam “corrigir” as jovens, enquanto lucravam com o trabalho escravo que elas forneciam. Pensando bem, mesmo que os padres pedissem ajuda, ela jamais chegaria. Eu sugiro o drama As Irmãs Madalena (2002), para um aprofundamento no assunto.

 

19 – OS ESCRAVOS DE SATANÁS – (PENGABDI SETAN) – Dirigido por Joko Anwar

A mãe de Rini, nossa protagonista, foi uma cantora de sucesso na juventude, mas após anos lutando contra uma doença misteriosa, ela está nos seus últimos momentos.  A ex-artista não está em um hospital, porque a família não tem dinheiro, só que mesmo que todos se sacrifiquem para comprar remédios, ninguém quer estar perto da mulher. Todos os chamados da enferma demoram para serem atendidos. Quando a morte vem, envolta em circunstâncias nada naturais, os quatro filhos permanecem na casa com a avó, enquanto o pai finalmente vai procurar emprego. A fonte de dinheiro, literalmente se foi.

Vivendo em um casebre com pouco conforto no meio do mato, a família recebe todo o apoio da comunidade, mas é gritante a diferença entre os que sempre foram muito pobres e se agarram às superstições para explicar certos eventos, e os que foram obrigados a viver entre eles por causa das contas que se acumularam por anos, enquanto o ganha pão da família definhava em uma cama. Só que manter a lógica e a racionalidade no comando, além da segurança, fica cada vez mais difícil, com a influência dos vizinhos, um cemitério ao lado da casa, um pai que não chega com boas notícias, uma avó já fragilizada e claro, o espírito da mãe retornando para atazanar e levar todo mundo junto com ela. De arrepiar!

 

18 – DISTÚRBIO (UNSANE) – Dirigido por Steven Soderbergh

Até Soderbergh está fazendo terror agora! Só que ao invés de se adaptar ao gênero, deixando marcas da sua personalidade, como fez o diretor de comédias Jordan Peele no ano passado com Corra! (Get Out), o terror em Distúrbio precisava estar não só acompanhado, como quase dominado por um tema que se tornou a marca registrada de Soderbergh: o Cinema Denúncia. Na história, Sawyer é uma mulher que está sofrendo com um caso grave de estresse pós-traumático, vivendo sozinha em uma cidade nova, após ter escapado do assédio de um perseguidor. Quando percebe que precisa de ajuda profissional, para lidar com o fato de que está vendo o rosto do cara em qualquer homem que acaba de conhecer, ela faz a coisa certa e busca um centro de apoio… que se revela um manicômio… que interna Sawyer contra a vontade dela!

Cheio de longos diálogos, que mesmo não sendo pertinentes para a história, passam a sensação de realidade para o público, o filme nos coloca no lugar da protagonista que sabe que não quer estar ali, mas que não sabe se deveria, por ser incapaz de distinguir o que é real e o que é imaginário. Sawyer está convencida de que um dos enfermeiros é o doido obcecado de quem ela foge, mas como ele saberia que trabalhando naquele hospital, teria acesso a ela? Não faz sentido. Por outro lado, mesmo que ela esteja alucinando e esteja mais segura ali dentro, qual é o problema em tratar a mulher de uma maneira mais honesta e humana?

 

17 – CAM – Dirigido por Daniel Goldhaber

Em um site para adultos, onde garotas online competem pela atenção de clientes, com performances sexuais cada vez mais ousadas, a jovem Alice, sob o codinome Lola, investe todo o seu tempo para estar entre as mais bem posicionadas no ranking interno do site e com isso ganhar mais dinheiro. Ela é muito nova e a família não sabe o que ela faz para estar tão cheia da grana ultimamente, mas Alice tem tudo sob controle, com seus clientes regulares e generosos, com a personalidade online muito bem separada da vida real e com muita autoconfiança para manter “azinimiga” longe do seu pequeno, mas lucrativo negócio. Um dia após sua apresentação de maior sucesso até então, Alice acorda e vê que sua conta foi hackeada, mas este não é o problema. Uma impostora com o nome Lola, está online no lugar dela com o mesmo rosto, a mesma voz, a mesma personalidade e com um quarto com a mesma decoração que Alice montou para fazer o seu show diário.

Sobrenatural demais para ser um thriller, mas habitual demais para ser sobre uma pessoa mal assombrada, Cam é muito mais do que um filme de roubo de identidade. Ele é um alerta assustador sobre os perigos da superexposição online, mesmo quando se usa um nome inventado e mesmo pagando suporte técnico, 24 horas. A Lola falsa, por ter ainda menos ligação com a vida privada de Alice, se mostra mais destemida e ambiciosa no site, fazendo mais sucesso do que a Lola verdadeira e atraindo mais atenção e problemas. É quando Alice percebe que não existe proteção nenhuma ao seu redor, no mundo virtual ou no mundo real e que os cuidados que ela acreditava serem suficientes, não passavam de uma ilusão.

 

16 – RAVENOUS (LES AFFAMÉS) – Dirigido por Robin Aubert

O zumbis desta produção canadense falada em francês, mal podem ter essa definição. Primeiramente, eles parecem maratonistas e correm tanto e tão rápido que a impressão é que nunca estiveram tão vivos! A maquiagem não é típica, então a aparência também não é cadavérica, mas o comportamento dos infectados é o que leva o troféu da peculiaridade no filme. É como se o vírus desativasse o apego por objetos pessoais e ativasse a comunhão silenciosa, mas somente entre semelhantes. Se você não for um contaminado, eles primeiro te denunciam, depois te caçam. É quase que uma representação tragicômica da chegada surpresa do comunismo em uma região. Como diz um personagem: “Se eu soubesse o que estava por vir, teria limpado minha conta bancária e levado meu filho para ver o Mickey”.

O filme é entretenimento puro, com cenas inapropriadas de humor, boas doses de drama para nos fazer sentir a morte de gente que mal tivemos tempo para conhecer, e muito terror, com sangue, perseguição por hordas e momentos em que os infectados agem com inteligência. Ravenous mostra vários sobreviventes espalhados pelo cenário campestre do norte do Canadá, lidando separadamente com a epidemia, até que todos formem um grande grupo para enfrentar o problema, como se fossem o último sopro da resistência.

 

15 – CAIXA DE PÁSSAROS (BIRD BOX) – Dirigido por Susanne Bier

Primeiramente… estaríamos entrando em uma era de traduções literais, independente da estranheza, para títulos de filmes? Segundamente, sim, a comparação com Um Lugar Silencioso é inevitável, já que é mais um sentido do nosso sistema nervoso, que o cinema de terror quis reprimir na base da ameaça (alienígena?) este ano. No filme temos duas versões do apocalipse, uma, seguindo Sandra Bullock já adaptada à vida na qual a humanidade vive no escuro, tendo pela frente uma tarefa impossível: uma viagem de barco com os filhos, vendada, com a duração de alguns dias, sob a promessa de um santuário no outro extremo do rio. A outra versão, mostra o início da invasão anos antes, quando Sandra era uma grávida infeliz e antissocial, forçada a conviver com estranhos em uma casa que se transforma em um abrigo permanente.

Apesar do filme sobre o silêncio ser muito superior, “Caixa de Pássaros” é igualmente provocador, quando nos faz pensar no quanto ficaríamos limitados, se atingidos em conjunto por algo que nos tirasse uma porção importante das nossas vidas. Eu não gostei da inclusão de vilões paralelos, facilitando o trabalho dos vilões centrais e do filme em eliminar pessoas, na transição entre a vida da personagem de Bullock cercada de adultos, e a vida dela anos depois, apenas com as crianças. Mas eu reconheço que é justo que em uma epidemia mundial, alguns de nós sejamos imunes e é também interessante em uma história sobre uma força que nos faz ver coisas enlouquecedoras, que os já acostumados com essas visões tenham certas vantagens. É de grande valor também, a ótima sequência em que o caos começa, para as pessoas totalmente desavisadas e inocentes nas ruas.

 

14 – PYEWACKET – Dirigido por Adam MacDonald

Para o meu espanto, Leah não só convida a força maligna para dentro de casa, como invoca o demônio Pyewacket para matar a própria mãe. A menina encrenqueira, meio emo, meio metal, perdeu o pai recentemente e está vendo a mãe definhando em uma depressão profunda. Entra em cena aquela idolatria marota e passageira pelo capiroto. Em seguida, entra em cena a grande e inevitável briga entre as duas, com palavras duras e muita mágoa. Eu não deveria sentir pena, porque não é como se ela tivesse devolvido os insultos da mãe com um sopapo, que seria desculpado pelo calor do momento. O ritual é complexo e envolve planejamento, eu diria até, muita calma, para ser realizado direitinho, mas não dá para não ficar ao lado da garota, quando a raiva passa e ela e a mãe fazem as pazes, só que já é tarde demais e a encomenda está a caminho.

Eu amei o modo como Pyewacket não apressa a chegada do dito cujo, mas também não protela o andamento da história. O filme é curto, mas há tempo para os eventos que constroem a tensão entre mãe e filha e eventos que restauram a relação delas, fazendo com que as duas situações tenham veracidade. Tudo na tela, exceto a assombração, parece muito realista. As atuações são ótimas, a condução da história é bem feita e isso faz com que qualquer anormalidade tenho o efeito amplificado, principalmente com as aparições discretas, mas indiscutíveis do demônio-título por todo o filme. Sem brincadeira, o carinha é tenso, ainda mais quando ele mostra para Leah o que significa para um anjo do inferno, atender a um pedido de homicídio vindo de uma mortal.

 

13 – BLACK MIRROR  – BANDERSNATCH – Dirigido por David Slade

Meu querido, a tia só estava esperando você estrear, para fechar esta lista! Porque sim, este episódio extra, perdido entre temporadas e com uma hora e meia de duração, conta como um longa metragem. Na história, Stefan, um jovem programador trabalhando para uma empresa de videogames dos anos 80, tem a tarefa de desenvolver um jogo interativo, baseado em um livro controverso. Após ser lançado, Bandersnatch recebe péssimas críticas, então Stefan volta no tempo e tenta desenvolver o jogo de novo. Guardando alguma memória da vida (jogo) anterior e forçando o jogador (nós) a fazer escolhas diferentes, Stefan passa a perceber que não está controlando as próprias decisões, porque o público está, em uma ótima sacada de Black Mirror em deixar o andamento da história em nossas mãos.

Eu não estava esperando aquela introdução, ou o conceito que guia todo o filme, criando uma experiência participativa com o público, que é super divertida e ao mesmo tempo terrivelmente opressiva. A cada nova tentativa de colocar um game de qualidade nas prateleiras para o Natal, o filme faz pausas que quebram o ritmo da narrativa, só para que a gente escolha uma entre duas alternativas para o personagem principal, do cereal a ser consumido pela manhã, a que caminho seguir quando Stefan começa a perder a sanidade. Quando as opções para uma ação capaz de mudar o destino do personagem, são a cruz ou a espada, é que nós de casa percebemos quem está realmente no controle do filme.

 

12 – INCIDENTE EM GHOSTLAND (GHOSTLAND) – Dirigido por Pascal Laugier

No início do filme, um garotinho correndo pelo mato em direção à estrada, com a aparência de quem saltou diretamente de dentro de Colheita Maldita, nos envia vibrações de Stephen King, mas é com a bênção de H.P. Lovecraft que Incidente Em Ghostland nos fala sobre o poder que o medo exerce sobre as nossas mentes.

O filme é uma jornada não linear, sobre realidades paralelas criadas pelo pavor do desconhecido e causando uma reviravolta na história, digna de filmes com um orçamento maior e atores mais conhecidos.

Do diretor da perfeição do terror – Mártires e do “terror de mentirinha” – Homem das Sombras, chegou em 2018 este terror onde nada é o que parece, sobre duas irmãs lidando de maneiras diferentes com um trauma terrível. Na adolescência, Beth e Vera foram atacadas por um casal de maníacos homicidas, que invadiu a casa delas com a intenção de torturá-las, mas os dois foram mortos pela mãe das meninas, antes que danos físicos graves fossem feitos. Muitos anos depois, casada e com um filho, Beth, a mais imaginativa das duas, se tornou uma autora de livros de terror rica e famosa, morando em Los Angeles, bem longe da antiga casa onde Vera, completamente destruída pelo que aconteceu no passado, ainda vive sob os cuidados da mãe. Um dia, Beth recebe uma ligação desesperada de Vera pedindo ajuda e volta para a antiga casa, onde ela testemunha a irmã mais velha exibindo sinais de esquizofrenia e partindo pra porrada, e isso força Beth a entrar na psicose dela.

 

11 – MANDY – Dirigido por Panos Cosmatos

Por um tempo significativo, tudo é literalmente cor de rosa. O filme se passa em uma floresta paradisíaca onde vive o casal Red e Mandy, donos de uma cabana simples, mas muito bonitinha e arrumadinha. Como Adão e Eva, eles até parecem criaturas místicas, em um mundo fantástico de iluminação propositalmente artificial e amor inabalável, que me fizeram ter a impressão, não sabendo nada sobre o filme, de que Mandy Bloom (estou falando aqui especificamente da mulher e não do filme) tinha tudo para ser uma entidade originária da própria floresta, com todo o seu talento para a esquisitice, aprendendo a viver como humana com o lenhador que a descobriu. Amantes, cúmplices, admiradores mútuos e com certeza protegidos pelas forças da natureza, assim como todos nós acreditamos ser, até que algo muito ruim aconteça. Na verdade, Mandy é uma balconista de lojinha de conveniência e nem ela, nem a fotografia angelical do filme, estão imunes à maldade do mundo.

Parte revenge-porn (mas o nú frontal é masculino), parte heavy metal (o desenho animado, não o estilo musical) e dividido por títulos, Mandy homenageia filmes sangrentos dos anos 80 nos moldes de Desejo de Matar, ao mesmo tempo em que desmistifica toda a fórmula com a qual filmes de vigilantes vingativos funcionam. Nunca na vida que Charles Bronson enfrentaria um super-vilão egocêntrico, que terceiriza a violência e implora por misericórdia de maneira tão vergonhosa. Os exageros expressivos de Nicolas Cage nunca foram tão justificados e cenas de violência quase fantasiosas, estão longe de serem glorificadas ou absorvidas com indiferença.

 

10 – CARGO – Dirigido por Ben Howling e Yolanda Ramke

Fizeram novamente! Pegaram um curta de sucesso e o transformaram em um longa que não parece uma história esticada. Acho que o segredo é manter os criadores originais no controle da produção. Na verdade, Cargo funciona melhor aqui, porque para o personagem contaminado por um vírus zumbi, correndo contra o tempo em busca de alguém para cuidar da filha bebê quando ninguém liga mais pra ninguém, são permitidas mais horas de lucidez, para que ele conte mais para nós sobre como o mundo ficou, mesmo que continue não revelando como tudo começou.

Cargo não quer ser mais um filme de zumbis, onde pessoas saudáveis são perseguidas por infectados (nada de errado com a fórmula, eu sempre digo, mas…), pois ao invés de focar nos mortos, o filme que se passa na Austrália e faz seus contaminados exercerem o estranho hábito de enterrar as próprias cabeças debaixo da terra, é um exercício sempre atual naquele território, de comentário político. Cargo é um filme sobre a união fazendo a nação com Andy, o pai, encontrando os mais variados tipos de pessoas em sua jornada, com um papel de destaque para uma criança aborígene sempre em perigo, que infelizmente, não é vista por todos os sobreviventes como alguém digna da mesma importância da bebê a ser salva.

 

9 – A NOITE DEVOROU O MUNDO (LA NUIT A DÉVORÉ LE MONDE) – Dirigido por Dominique Rocher

Preso no apartamento da ex, depois de uma festa onde bebeu demais e perdeu a parte mais divertida de uma epidemia zumbi, Sam recebe a oportunidade rara no cinema de terror, de acompanhar o apocalipse sozinho, do conforto da uma janela. Por perto, nenhuma alma respira para fazer companhia, mas diversos mortos reanimados o mantém alerta. Ele não tem como sair do prédio, mas também, não tem certeza de que do lado de fora as condições seriam melhores, ou se encontraria outras pessoas saudáveis. Até onde se estende o estrago desta contaminação? Seria Sam o último sobrevivente da cidade? Do país?

Usando muitas referências a filmes de zumbis que já vimos antes, mas sem perder a originalidade, A Noite … é uma história que se passa no mesmo lugar o filme inteiro, mas que nunca sofre com monotonia ou repetição de eventos. Com mortos competentes no papel de perigo inescapável e um cenário limitado, mas nunca claustrofóbico, este é um conto interessante de sobrevivência física e mental, na forma de um homem que nunca foi dotado de qualidades de um macho alpha, mas que precisa se virar para ser o melhor ômega que puder, diante da nova realidade. É também muito divertido no filme, que Sam seja um adepto da escola Bjork de música experimental.

 

8 – VINGANÇA (REVENGE) – Dirigido por Coralie Fargeat

Richard leva a amante Jen para um fim de semana que combina negócios e prazer em uma casa no meio do deserto. Os dois sócios de Richard, aparecem na casa um dia antes do tempo, atrapalhando os planos do casal e deixando Jen ainda mais desconfortável, sendo ela, a intrusa que está na casa em segredo. Quando Richard precisa sair por algumas horas, um dos sócios acredita que pode violentar a garota sem que hajam consequências. Ela nem é a mulher oficial do amigo, certo? O pior é que ele estava certo, porque Richard jamais arriscaria um escândalo chamando a polícia. Ele prefere abafar tudo da maneira mais machista que encontra, só que ela quer justiça, então os três se juntam para eliminar o problema. Só que o problema não morre e acaba se tornando uma lenda.

Jen não é um símbolo do feminismo porque quer vingança contra três homens violentos, que a subjugaram, a usaram e a descartaram. Ela é uma heroína para qualquer um, porque apesar das desvantagens físicas e indo contra todas as expectativas, ela escolhe viver, fugindo e depois atacando, não porque quer ser como eles, mas porque consegue ser para tentar sair daquela situação. Equipados, bem nutridos e morrendo de medo, eles começam a caçar a garota assim que percebem que ela segue lutando e é uma delícia torcer pra ela, neste filme amalucado, angustiante, divertidíssimo e livre de qualquer amarra.

 

7 – UPGRADE – Dirigido por Leigh Whannell

Leigh Whannell sai definitivamente debaixo da asa de James Wan, assim como Logan Marshall-Green estrela mais uma vez em um terror que não parece terror, até que o bicho comece a pegar seriamente no último ato do filme (o outro foi O Convite – 2015). Cheio de ação e ela é muito divertida apesar da violência, porque a câmera é ágil e dedicada a fazer o público participar de cada golpe, Upgrade é uma bem sucedida junção de vários gêneros, com respeito e atenção a cada um deles até se curvar finalmente ao nosso favorito, resultando em um filme fenomenal em termos de direção, roteiro, direção de arte e atuações.

Tendo como pano de fundo um futuro em que próteses concedem habilidades especiais para quem pode pagar, ao invés de serem utilizadas por necessidade, como de costume, o restaurador de carros antigos e adepto ao estilo vintage de ser, Grey Trace, sofre um acidente que o deixa paralisado. Contactado por uma empresa que representa tudo o que ele mais odeia, ele acaba aceitando participar de um programa inovador que promete devolver os movimentos do corpo dele. O procedimento é um sucesso, só que o chip instalado em Grey, é um micro computador totalmente consciente… e às vezes, independente.

 

6 – ANIQUILAÇÃO (ANNIHILATION) – Dirigido por Alex Garland

Existe uma chance gigante de tudo ser um acidente, dos desaparecimentos dentro do território ainda desconhecido pelos cientistas, ao elemento alienígena que cai do espaço, desencadeando uma série de acontecimentos inéditos e assustadores. Mas o importante é que, mesmo sendo um segredo para a população civil e tendo a intenção de ser uma invasão ou não, o domínio extraterrestre está se expandindo e precisamos de respostas, rápido, então os soldados serão substituídos por cientistas, em mais uma expedição para dentro da fantástica bolha brilhante que não pára de crescer, antes que seja tarde demais.

Atmosférico, ousado e arrepiante, o mais recente trabalho de um diretor especialista em ficção científica e em explorar amostras incomuns do gênero, exibe um terror que se desdobra na casualidade, sem exatamente uma força malígna por trás dos acontecimentos, mas ainda assim, cheio de crueldade, imagens dantescas (e belíssimas) e nenhum espaço para negociações. Se eu não sei se, ou como eu estou te machucando, como eu poderia parar?

 

5 – A CASA QUE JACK CONSTRUIU (THE HOUSE THAT JACK BUILT) – Dirigido por Lars Von Trier

A primeira morte é, na mente de uma pessoa que não sabe o que está por vir, quase merecida. Toda a primeira parte do filme é cômica, porque Jack, vivido de maneira brilhante por Matt Dillon, é uma figura e também é muito sortudo. Meu Deus, como ele é sortudo! Como em várias obras de Von Trier, esta é longa, cheia de cortes bruscos, super slow e dividida em capítulos, em que Jack descreve para uma figura que apenas ouvimos pelo filme, toda uma vida de ideias e pensamentos sobre arte e relações humanas, além de assassinatos cruéis e difíceis de serem vistos.

O filme precisa de um post próprio e terá, mas por enquanto ele está na lista, desafiando respeitosamente a galera que saiu no meio da sessão, nos festivais de cinema onde A Casa Que Jack Construiu foi mostrado. A porção normal da audiência não suportou cenas fortes de mutilação e violência e eu confesso, que aquela cena do corpo do menino congelado mexeu comigo também, mas infelizmente, eu não faço parte da porção normal do público há algum tempo e já ví coisa muito pior. A porção da minha turma que não aguentou os devaneios das duas horas e meia de Jack, esperando mais ação e menos falação, também é compreendida, mas trata-se de um filme de Lars Von Trier, que eu amei tanto quanto amei todos os outros dele. O cara é incapaz de falar de um determinado assunto superficialmente. Ele não pode apenas entregar um filme sobre psicopatia. Ele precisa fazer o público estudar o filme, tanto quanto ele estudou o assunto para fazê-lo.

 

4 – O CULTO (THE ENDLESS) – Dirigido por Aaron Moorhead e Justin Benson

Era para ser um simples filme sobre uma seita típica de filme de terror, mas se tornou uma manobra de gênio, nas mãos de dois rapazes a quem eu desejo muita sorte na carreira! Você tem que ser muito seguro no mundo do cinema independente, para dirigir um filme que você sabe que não será um grande sucesso, sendo que ele serve diretamente como uma sequência, mesmo que visto por um ângulo diferente, do seu outro filme independente que quase ninguém viu. O Culto é uma surpresa e tanto dos diretores Moorhead e Benson, dando uma de Shyamalan-de-pobre e também atuando como os personagens principais, em um filme com uma das propostas mais interessantes e habilmente executadas que eu já vi, cuja critica se tornou a mais acessada neste blog deste que foi postada, em junho deste ano.

Na história, e como tem história aqui, os irmãos Aaron e Justin retornam ao acampamento que os acolheu na infância, quando eles se tornaram órfãos e de onde eles fugiram, quando Justin, o mais velho, pressentiu que o destino dos moradores do local, iria imitar o de tantas outras vítimas de cultos pelo mundo afora. Algo que nunca se concretizou. Chegando na comunidade, eles questionam quem dos membros foi o responsável por enviar uma fita de vídeo que serviu de convite para a visita, mas ninguém no local sabe do que eles estão falando. Embora ninguém pareça ter envelhecido com o passar dos anos, e exista uma ocasional esquisitice para manter Justin com um olho no culto e outro na chave do carro, nada pode ser apontado como possível ameaça e o grupo está claramente feliz com a visita dos irmãos, mas no comportamento de todos impera uma paz tão profunda, como se não houvesse nenhuma preocupação com o futuro sob nenhum aspecto, que a melhor coisa para Aaron e Justin é dar o fora daquele lugar aconchegante e saudável o mais rápido possível e voltar para o miojo, para a falta de grana e para a difícil, desagradável e aparentemente interminável adaptação de dois ex membros de um culto ao mundo real.

 

3 – VERÔNICA: JOGO SOBRENATURAL (VERÓNICA) – Dirigido por Paco Plaza

Claro, as fotos online do incidente e o laudo oficial da noite em questão, ajudam mais do que o costumeiro aviso de “baseado em fatos reais”, mas a direção do talentoso Paco Plaza, que insiste em expor o cotidiano sem sofisticação da família, e em não usar uma linguagem típica de cinema para apresentar os personagens, só para jogar todo mundo em um verdadeiro pesadelo de tormento e perigo de morte, é o que faz todo o truque no filme. Verônica é tudo o que muitos filmes de terror com espíritos tentam ser, mas não conseguem, porque seus realizadores não enxergam que o sobrenatural é sempre assustador, mas se ele não vier acompanhado do natural, nós simplesmente substituímos um pelo outro e não nos importamos com o filme.

A história verdadeira da garota espanhola que queria se comunicar com o pai morto, mas que acaba invocando uma entidade poderosa e maligna, é tão envolvida em mistério, com depoimentos confusos de policiais sérios e sem explicações plausíveis, que se tornou quase que uma lenda urbana na Espanha. O filme fala de uma brincadeira com três garotas e uma tábua ouija, de onde a personagem-título esperava tirar uma comunicação séria com o oculto e ela consegue, para o terror dela e dos irmãos mais novos. Sem poder contar nem mesmo com a mãe, que trabalha muito, Verónica precisa enfrentar praticamente sozinha os eventos sinistros que começam a acontecer. Não se sinta mal se você precisar fazer uma pausa no filme e assistí-lo em duas partes, como eu fiz.

 

2 – UM LUGAR SILENCIOSO (A QUIET PLACE) – Dirigido por John Krasinski

Uma sala de cinema repleta de adolescentes, loucos para estragar a sessão dos demais pagantes, mas um filme tenso e mudo demais para que alguém desse um pio. Se no ano passado, O Homem das Trevas (Don’t Breath) já era um silenciador competente com a história dos ladrões calados na casa do cego malvado, Um Lugar Silencioso vai muito além, elevando a brincadeira da vaca amarela a um nível muito mais ambicioso e igualmente bem sucedido, calando a boca do mundo inteiro após uma invasão do espaço, onde os aliens são basicamente gigantescas orelhas assassinas. Alguns decibéis de ousadia e você está morto.

John Krasinski, que sempre será o Jim de The Office pra mim, dirige a esposa e alguns outros bons atores mirins com o dedo indicador nos lábios e um pulso firme, em uma história que apesar de ser muito ampla, escolhe sabiamente focar na sobrevivência inteligente de uma família, que não possui nem a liberdade de espirrar. Krasinski também atua como o patriarca dos Abbott, que vive em um regime de escravidão alegórica, utilizando vários truques para manter a discrição, enquanto não se permite sonhar com a permissão de causar um acidente. Como viver em silêncio em um planeta tão sonoro? O filme tem um início brutal, um final esperançoso e um meio conduzido como um elefante em uma loja de cristais.

 

1 – HEREDITÁRIO (HEREDITARY) – Dirigido por Ari Aster

Este foi um bom ano pra nós e muitos filmes de terror me deram medo, mas nenhum enfiou sorrateiramente no meio dos sustos, tantos diálogos e imagens de cortar o coração e nenhum foi tão bem sucedido em produzir imagens inesquecíveis de puro horror no meio do drama. Era a receita perfeita para nos provocar mini-ataques de pânico por todo o filme, desses superficiais, mas eficientes quando sentidos em sequência, quando vemos personagens fictícios que amamos imediatamente, em situações sobrenaturais tão desoladoras, que quando eles não conseguem enxergar uma saída, o público nem reclama.

Na tradição de filmes como Corrente do Mal e A Bruxa, Hereditário não foi feito para ser um sucesso instantâneo com a maior parte do público. Pra muita gente, ele pode ser apenas um modo intrigante de contar uma história simples, como a de uma família mal assombrada, mas mesmo para esta parte do público, o impacto do filme ainda pode ser sentido a longo prazo, quando essas pessoas se pegam num dia qualquer lembrando de cenas do filme e desconfiando dos próprios parentes. Pra mim, ele foi uma visão crua, trágica e horrenda de um grupo de personagens muito bem escritos, que nunca teria a chance de estar em outro lugar que não fosse um filme de terror. Você ainda pode assistir várias vezes e tentar entender o que pode estar por trás de tantas críticas positivas, só para sem querer, se tornar um atormentado pelo filme. Foi o que O Iluminado fez comigo.

 

 

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