O medo é um sentimento universal e o terror, um gênero disponível para uso por qualquer artista, em qualquer meio de expressão, portanto, nada mais natural do que a expansão do tema para o mundo da música. Os metaleiros levam uma certa vantagem em relação aos outros músicos no quesito horror, porque imagens perturbadoras já são um pré-requisito na promoção das músicas, dos álbuns e das bandas. Sim, tem heavy metal neste post, mas também tem outros estilos musicais e diversas interpretações do terror… que ilustram as letras das músicas… que acrescentam contexto quando as letras são vagas, revelam crenças, traumas e até preferências de estilo cinematográfico. Tem artista que usa o terror como uma válvula de escape para a raiva e artista que busca conexão, através de imagens que chocam uma porção do público, mas que fazem sentido para uma outra porção. Se a MTV deu cara ao artista, a leitura visual que este artista faz da música junto com seu diretor, dá ao público uma ideia de quem ele é, ou de quem ele quer ser com o seu trabalho. No caso da escolha do terror como categoria, o videoclipe pode ser um instrumento eficaz para atingir o público alvo. Eu não acredito que um músico queira se apresentar para um público tão diferente dele mesmo.

A lista abaixo não reflete necessariamente o meu gosto musical pessoal, ou seja, você não encontraria estas bandas e artistas reinando no meu Spotify, eu apenas tentei escolher alguns trabalhos de vídeo que chamaram a minha atenção através dos anos, clipes que marcaram muito além da música que eles foram criados para promover. Eu vejo alguns videos musicais como verdadeiras obras-primas do audiovisual, em pé de igualdade com curtas vencedores de prêmios importantes. Quando o terror ou o desejo de assustar são os elementos principais destas obras, elas precisam ser celebradas, não apenas pela coragem em ligar um sentimento primordialmente negativo, a uma música que precisa ser agradável para que o artista consiga comer, como também pelo quão interessante, divertido e bem feito um videoclipe de terror pode ser. Eu vi muita coisa assustadora pra este post, mas tentei ficar o mais longe possível daqueles clipes psicodélicos, cheios de imagens aleatórias e das “emices” (i.e., que provém de emos – acabei de inventar!) com sua maquiagem deprê e sua forçada de barra pseudo-satanista.

 

KIDS – MGMT

 

A música é bem alegre, mas eu passei o vídeo inteiro buscando brechas na edição e na captação de imagens, enquanto vejo um bebê andando sem auxílio na rua, aos prantos, cercado por criaturas assustadoras por muito mais tempo do que o meu coração aguenta assistir. Eu até percebi alguns truques de câmera, mas minha capacidade para encontrar falhas não foi o suficiente e eventualmente foi preciso que eu visse o making off do vídeo, para acalmar meus nervos. A banda MGMT denuncia com bastante eficácia em KIDS, os perigos que rodeiam crianças negligenciadas pelos pais.

 

WOULD YOU LOVE A MONSTERMAN – LORDI

 

Existem duas versões do clipe para esta música, da banda estilo Kiss de heavy metal, Lordi. Uma lançada em 2002, onde os músicos que já se apresentam para o mundo vestidos de monstros, atormentam uma menina sozinha em uma floresta, e esta versão em 2008, um pouco menos teatral e mais bem sucedida em termos de causar pavor, onde eles encontram o que eu acredito ser a versão adulta daquela menina, agora trabalhando em um necrotério (onde mais?) e perguntam novamente se ela seria capaz de amar um homem-monstro. Como a idade traz um pouco mais de bom senso, a garota recusa a oferta maléfica, mas para Lordi não faz diferença.

 

THE BEAUTIFUL PEOPLE – MARILYN MANSON

 

Manson tem muitos trabalhos focados no terror, já que o gênero tem tudo a ver com o lado da personalidade dele que ele resolveu tornar famoso, mas The Beautiful People é pra mim o mais cuidadoso com fotografia, direção de arte e mensagem. Como a maioria de seus vídeos, este possui aspectos familiares do tema como câmera nervosa, cortes frenéticos e imagens demoníacas, só que aqui tudo parece amplificado. Não há um frame de paz pra gente descansar os olhos. As “pessoas bonitas” no entendimento de Manson, se dividem entre fascistas que se mutilam e deformam para adquirir força, e os fracos de corpo e alma que fatalmente se tornam seus seguidores.

 

RUBBER JOHNNY – APHEX TWIN

 

Sem nenhum contexto que explique sua procedência ou o seu propósito no planeta terra, Johnny, o menino elástico, chegou ao mundo dos videoclipes para renovar o nosso repertório de inspirações para pesadelos. Não é só a aparência e o comportamento do rapaz que perturbam, é o modo como ele “dança” sob o efeito da “música”, graças à genialidade de Chris Cunningham na pós-produção audiovisual (Frozen – Madonna, All Is Full Of Love – Bjork). O DJ Aphex Twin adora trabalhar com crianças atípicas nos seus vídeos, mas Johnny é a cereja no bolo da carreira dele e o padrinho de todos os vídeos que habitam aquela parte esquisita do youtube até hoje.

 

JEREMY – PEARL JAM

 

Não é do modo tradicional, mas é terror ainda assim! Bullying, descaso, lavagem cerebral e um final chocante, filmado da melhor maneira possível, sem a violência nítida, mas com os efeitos dela na cara e nos gestos congelados dos espectadores. O impacto foi sentido em várias premiações pelas quais o clipe passou. O melhor de tudo, é que a história é contada do ponto de vista de um ex-bully arrependido, e foi anos antes da junção de armas e escolas se tornar familiar nos Estados Unidos.

 

WE ARE WATER – HEALTH

 

Maquiagem mal feita, peruca e uma jovem desesperada correndo pela floresta escura. Um maníaco com um machado perseguindo ela. Parece a descrição do que a gente veria do meio para o final de um slasher qualquer, a melhor parte de muitos deles, pra dizer a verdade. We Are Water jorra uma quantidade respeitável de sangue, só que é a proximidade permanente durante todo o vídeo entre vítima e vilão enquanto eles correm, que mantém nossos corações acelerados. O final do vídeo é de uma bizarrice curiosa, que a gente não evita o desejo de assistir a uma “versão longa-metragem” do vídeo, se essa existisse.

 

LIVIND DEAD GIRL – ROB ZOMBIE

 

Rob Zombie é um homem que aprecia os clássicos, ou não faria uma homenagem a um deles no nome da própria banda. Living Dead Girl é outro tributo de um grande apreciador do cinema de terror/diretor, a O Gabinete Do Doutor Caligari, um dos mais importantes filmes da história do cinema de terror. Da história do cinema!

Utilizando a mesma linguagem do filme de 1920, com os filtros coloridos, a montagem crua e a perspicácia, o clipe volta a um tempo mais inocente, mas não bobo! O doutor apresenta uma morta ambulante ao respeitável público do passado e ela precisa ser real, já que a plateia jamais aceitaria uma fraude. Por ser autêntica, a zumbi não pode ser controlada e logo está a solta nas ruas no início do século 20.

 

BLACK HOLE SUN – SOUNDGARDEN

 

Um sorriso é sempre bem vindo, mas se ele persiste em uma situação inapropriada e exagera nas expressões faciais, o resultado é um pouco sinistro. Nos anos 90, o efeito que distorcia os rostos dos moradores de uma vizinhança aparentemente perfeita, assustou a molecada que não tirava os olhos da MTV, fazendo do clipe um evento imperdível. Soundgarden enxergava uma tempestade interminável, em um subúrbio que fazia a propaganda falsa de tempo bom, e convocava um sol com um buraco negro, para revelar a verdadeira face daquelas pessoas, ao mesmo tempo que as sugaria para bem longe de nós.

 

IF I HAD A HEART – FEVER RAY

 

Que tal um break das dezenas de cenas por segundo, com este festival imersivo e assustador de planos sequências, que quebram um pouco o ritmo tradicional dos clipes de terror, para seguir o caminho de alguns filmes cults do gênero? Às vezes a lentidão enerva mais do que a pressa.

Na mansão os adultos já estão mortos, mas o destino das crianças fica aberto para interpretação. Elas podem estar escapando de barco no meio da noite, ou sendo levadas contra a vontade, já que as criaturas que as observam nas margens do rio, podem ser os espíritos protetores dos mais novos ou os responsáveis pela matança, planejando outro ataque.

 

RABITT IN YOUR HEADLIGHTS – UNKLE feat. THOM YORKE

 

Eu não sei se é o túnel que não tem fim, ou se é o maluco que muda de direção cada vez que é atingido por um carro, morre e ressuscita, acompanhado pela hipnótica voz do vocalista do Radiohead. Na minha adolescência, o clipe era angustiante e desconcertante e eu já conseguia perceber naquela época, uma obra de arte cheia de vida e significados a serem explorados. Jonathan Glazer seria um diretor interessante e provocativo de longas no futuro. Por que ninguém ajuda o cara? Por que os atropelamentos não têm consequências nem para a vítima, nem para os motoristas? Quando isso vai acabar?

 

THE LAST BREATH – PARN THANAPORN WAGPRAYOON

 

Com uma bela mensagem sobre a fragilidade da vida, uma artista pop tailandesa remove a maquiagem, os cabelos e envelhece diante das câmeras. Um crime na profissão dela, mas um gesto admirável, até que as imagens ficam menos poéticas e mais literais, com a mulher corajosamente e assustadoramente mostrando o corpo passando por todo o processo de decomposição, sem suavizar nada. Um clipe feito com muita sinceridade e amor… mesmo assim…Ave Maria!

 

THRILLER – MICHAEL JACKSON

 

Eu devo ter visto Thriller, na íntegra, somente duas vezes em toda a minha vida, uma sendo obviamente a primeira vez ainda bem novinha, e outra talvez uma década mais tarde, sem que houvesse aviso ou preparação para o acontecimento. E atire a primeira pedra, alguma criança dos anos 80 sem um trauma insuperável com raízes no mundo pop! Uma vez que eu ganhei o comando do mouse ou do controle remoto, o clipe passou a durar até o final daquela dança maravilhosa. Na verdade, neste verdadeiro curta de terror, a voz de Vincent Price pré-coreografia já é de arrepiar. Depois de todos esses anos, ainda é a mais assustadora filmagem de uma casa sendo invadida por zumbis que eu já vi! E aquela risada, gente?? Uma belíssima façanha artística, que eu não vejo até o fim nem por uma lata geladinha de coca-cola.

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