Nem todas as heranças são um presente.

Você sabe o que um fã de terror mais teme, enquanto procura algo novo para assistir? Depois de ter visto o que acreditamos ser “de tudo um muito”, a preocupação maior é permanecer constantemente relaxado. É estar tão acostumado com certos truques do gênero, que eles deixam de fazer efeito. Eu sabia logo que os créditos começaram a subir, que precisaria ver o filme de novo, já que se trata de uma história muito rica em detalhes e eu queria escrever com segurança. Mas me peguei resistindo a mais uma sessão do filme tão cedo, porque em primeiro lugar é uma história meio deprimente e em segundo, porque eu estava com medo. Eu precisava de um tempo para me recuperar e para analisar o que eu tinha visto, para tomar coragem e encarar o filme novamente também. No meio tempo, eu me dei conta de que um filme de terror competente e duradouro te amedronta com coisas tolas, coisas que em outro contexto são normais, como gêmeas usando um vestido azul e fitas de V.H.S., medo de cair no sono e sonhar… ou o barulho que a gente faz descolando a língua do céu da boca. Até agora, que tentei imitar o som para descrevê-lo melhor, eu percebo que ele ainda me incomoda e talvez eu não o use mais para chamar a atenção de cachorros e bebês na rua, como de costume.

Logo na primeira cena, que sem cortes mostra a transição da casinha de bonecas para a casa de verdade onde os personagens vivem, já vemos uma amostra não só de uma grande disposição para fazer algo diferente, como uma incrível habilidade técnica para executar a sequência sem que se perceba o corte. Não, mais do que isso, não entendemos de imediato que fomos distraídos com uma belíssima junção de efeitos práticos com especiais, que deram vida a imagens que pesam no subconsciente. Seja a ideia de gente viva onde deveriam haver bonecos ou a ideia de uma força externa bem maior no controle, é uma primeira impressão nada natural do ambiente familiar, que vai perturbar o nosso sono mais tarde. A casinha construída no estúdio dos Graham com muito apreço, é apenas uma de várias encomendadas ou feitas por vontade própria por Annie, personagem interpretada pela dádiva ao cinema (desde O Casamento de Muriel) que é Toni Collette, esplêndida e aterrorizante enquanto processa, mas não lamenta a recente morte da mãe e combate, mas não de uma maneira sábia, os eventos que começam a acontecer na vida da família, após o funeral da matriarca que nunca deixará de assombrá-la.

HEREDITARY 1

Eu quero deixar claro que a minha posição diante deste filme é a de crente total. Eu acredito em tudo o que eu vi acontecer, especialmente no final, em toda a sua sobrenaturalidade. Claro que existe espaço para teorias, afinal, a descrição que Annie faz da mãe morta, tanto no funeral quanto em um grupo de apoio algum tempo depois, é a de uma mulher doentia e dominadora, capaz de contaminar todas as relações de Annie com seu comportamento tóxico. Existe uma janela escancarada para a teoria da doença mental, do “está tudo na cabeça de algum personagem” e não dá pra negar que a influência da mãe deixou sequelas em Annie que ela não conseguiu evitar de passar adiante, criando muita desconfiança na família e por consequência até múltiplas interpretações entre eles para conversas simples. A passagem de tempo no filme é um modo de ilustrar o estresse na casa também, através das miniaturas encomendadas, que a cada nova aparição sugerem um cliente novo e um trabalho completamente diferente, para o qual Annie está sempre atrasada. Só que tem a questão de como Annie foi parar naquele grupo de apoio em primeiro lugar, ou os estranhos sorridentes que observam a filha mais nova de longe, ou o fato de que até o mais sensato da família está vendo coisas. Perspectivas à parte, o filme é cheio de evidências que levam exatamente ao desfecho como ele é mostrado pra nós.

Em matéria de atuação, Hereditário não poderia estar mais bem servido. Todo mundo é bom, começando pela menina que faz o papel de Charlie, a filha mais nova (dona do barulho do céu da boca), esquisitíssima até para os padrões hollywoodianos de esquisitice. O nome deve ser Chalotte, mas chamá-la pelo apelido resulta em uma conexão bizarra com Charles, o irmão de Annie que se matou por causa da mãe deles. Charlie está sempre com a expressão de quem foi pega em flagrante durante um ato proibido, talvez porque está sempre comendo e desenhando fora de hora, dormindo na casa da árvore em noites frias ou usando um material incomum para criar bonecos, numa imitação peculiar do trabalho da mãe. Não é uma garota com intenções de assustar, mas confie em mim quando eu digo que ela vai te dar medo. Gabriel Byrne é brilhante como Steve, o marido/anjo que tenta preservar os dois pés no chão, quando mais ninguém consegue. Collette está perfeita, como uma mulher que quando está histérica, assusta e dá pena ao mesmo tempo. Não deve ser fácil desempenhar o papel de uma mãe cheia de defeitos, que chega a agir com crueldade às vezes e ainda nos fazer acreditar que os filhos são tudo para ela. Eu confio em Annie acima de todos, apesar de todas as falhas dela.

HEREDITARY 4

O outro membro da família é o filho mais velho, e o ator que o interpreta não era um grande favorito meu, mas Peter é tão importante no filme que eu não posso deixar de apreciar o trabalho do rapaz. Uma grande tragédia acontece no filme e o choque da cena é de arrepiar, mas o impacto é amplificado pela reação enigmática de Peter. Existe uma grande possibilidade dele ser o principal causador do acontecimento. Existe também uma grande possibilidade dele ser o menos envolvido. O negócio é que por conta de um trauma de infância, Peter cresceu acreditando que não era amado em casa, portanto uma culpa verdadeira caindo sobre ele, é o que menos importa. Eu pensei a princípio que ele estava tentando esconder por algumas horas a própria participação no incidente, quando ele chega sorrateiro em casa e espera atônito que alguém perceba o que aconteceu. Se ele foi uma criança querida ou não, também não importa, o que importa é no que ele acredita. No momento em que o acidente acontece, Peter não tem outra escolha a não ser abandonar a esperança de um futuro normal. Peter não reage porque apesar de ter sobrevivido, ele está morto. É uma parte do filme difícil de encarar, que me fez respeitar o moleque na pele do personagem mais desamparado do filme.

Hereditário é violento pra caramba, tanto em uma cena relâmpago que ninguém prevê, quanto em outras cenas bem mais demoradas que tiram o chão do público de maneira sangrenta. Nem tudo o que vemos é compreensível, mas isso não me preocupa, já que os personagens que seguimos também não compreendem e pra mim, não são eles que controlam o show aqui. Hereditário é triste pra caramba, como fica evidente entre outras coisas, em duas cenas em que Annie discute com Peter, tentando se aproximar dele, mas não conseguindo por serem duas almas perdidas na história. Hereditário é assustador pra caramba, com tantas cenas de horror explícito e de horror enrustido que nos enche de medo enquanto remove o maior dos medos. É impossível assistir ao filme e não ser afetado de maneira profunda por ele.

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