Duas estudantes enfrentam uma força sinistra em uma academia católica para moças.

February não engana ninguém sobre suas verdadeiras intenções desde o início. É sim um filme esquisito, daqueles que apenas uma porção do público segue assistindo, depois de algumas sequências aparentemente sem sentido, de desanimadoras pausas dramáticas e caras de paisagem que o elenco foi instruído a fazer, já no começo da trama. Com essa tremenda placa de “mantenha distância”, os cinéfilos entre nós não conseguem resistir e com o senso de superioridade reservado aos mais pacientes, confere um filme claramente artístico primeiro/amedrontador depois, prestando atenção em cada detalhe, para recolher a recompensa de ter visto um filme incomum com a mente aberta, na esperança de que ele fosse bom.

Tudo começa com um pesadelo e temos certeza de que não é real, porque a sequência é cortada várias vezes para mostrar Katherine dormindo, em posições não muito naturais em sua cama no internato. Quando ela acorda, descobrimos que no dia seguinte haverá uma pausa de inverno, provavelmente para as festas de fim de ano, que acontecem nos Estados Unidos em uma temperatura bem diferente da nossa. Os pais de todas as garotas da escola estão a caminho para levar suas filhas para casa, mas Katherine não está tão animada por conta do sonho que teve. Nele, os pais dela não conseguem chegar na escola com vida. Kat é a garota excêntrica oficial do filme, responsável-mor pelas carinhas de paisagem, mas no lugar dela eu também estaria cabreira o dia inteiro, ainda mais se não conseguisse entrar em contato com os meus pais por telefone e se eles realmente não aparecerem para me buscar. Já Rose, outra aluna do internato de Bramford, um pouco mais velha, meio rebelde, lindíssima e suspeitando de uma gravidez na adolescência, fez questão de informar a data errada para os pais virem busca-lá.

BLACKCOAT'S DAUGHTER 3

Eis que Joan aparece na história e a premissa do filme começa a piscar na minha mente. Não eram apenas duas garotas em perigo, o que Joan está fazendo aqui? Bom, ela não é uma aluna de Bramford, na verdade, bem longe da escola, confusa, sofrendo com flashbacks violentos e usando uma pulseirinha bem suspeita que ela tenta tirar com desespero, eu imagino que Joan seja uma paciente que acabou de escapar de um sanatório. Enquanto o filme passeia entre a ansiedade de Rose, as premonições de Katherine e a sorte de Joan em encontrar Bill, um religioso homem de família com muita vontade de ajudá-la, existe uma dificuldade incrível em fazer com que a narrativa ande mais rápido, ou pelo menos para frente. Toda vez que alguma personagem está tensa, a trilha sonora transmite o sentimento como se estivesse sendo acionada pelas batidas dos corações das jovens. A sensação de perigo passou? Então a música também passa, como se nada tivesse mudado muito.

Misteriosíssimo, February me faz temer depois de algumas cenas atípicas e alguns diálogos enigmáticos, que existe a chance de não haver uma conclusão decente para uma história cheia de ganchos. É como aceitar no meio do caminho, que a paciência nem sempre traz bons frutos. Aí uma reviravolta acontece, quando Bill mostra uma fotografia, uma simples e ao mesmo tempo super esclarecedora fotografia de família à Joan, sua protegida e eu admito que nunca tinha considerado um twist como aquele, de verdade. O problema no entanto, é que mesmo com as insinuações acontecendo por todo o filme, sobre uma presença sinistra no internato, que certamente precisa ser investigada e entendida mais pra frente, a história parece ter sido concluída com aquela foto. O filme então passa a agir como se o grande mistério não tivesse sido resolvido já na metade, voltando no tempo para revisitar cenas sobre outro ponto de vista, sem oferecer realmente uma perspectiva mais interessante.

BLACKCOAT'S DAUGHTER 2

Com Joan fora da escola na maior parte do filme, a premissa das duas garotas enfrentando o problema na escola sozinhas não seria desonesta, mas elas não estão sozinhas como a descrição do filme sugere. Tem funcionários no local e isso não é uma coisa ruim para a história. Jamais duas alunas pagantes seriam deixadas sem supervisão, ainda mais em um educandário católico, com freiras que não “retornam para casa” durante as férias. A autenticidade também é refletida nos cenários e na fotografia do filme, que faz um grande trabalho de iluminação para fazer parecer que a luz é natural. Não é um filme feito para as salas de cinema, mas não é inconsistente, apenas inconstante. Tem momentos muito bons, mas eles são poucos.

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