Uma jovem precisa escolher entre Deus e a atração que sente por uma amiga.

Noruega, Dinamarca, Suécia e França se juntam nesta produção com pouco mas expressivo terror, de narrativa lenta que você vai querer ver mais de uma vez, por incrível que pareça. A chegada da jovem protagonista na universidade, é uma sequência aérea que mostra boa parte da movimentação no pátio do campus, se aproximando aos poucos e revelando em quem deveríamos prestar atenção. O filme inteiro é assim, só que ao contrário. Um cenário comum é apresentado, como Thelma conversando com os pais por telefone e aí um corte para um plano mais aberto mostra a mãe dela na cadeira de rodas. Em um momento, Thelma conta a uma amiga que o pai costumava segurar a mão dela em cima de uma vela acesa, para que ela ainda criança tivesse uma ideia do que acontece para quem vai para o inferno. Eu olho as prateleiras vazias do novo dormitório da jovem e imagino que o diploma em biologia era só uma desculpa, uma fuga dos pais que ficaram no interior, mas ligam todos os dias exigindo que o contato permaneça forte. Nem a mala ela desfez. A universidade ou um cantinho só dela não são importantes, a liberdade é! Mas aí os pais, que são super gente boa, aparecem trazendo o restante das tralhas e antes que o filme termine, você também vai se dar conta de que a superproteção é também o cenário comum. Os motivos dos pais é o plano aberto.

Thelma conhece Anja durante uma aula que as duas têm em comum, apesar de estarem se formando em cursos diferentes. Um estranho e inédito ataque epiléptico em Thelma atrai a boa vontade de Anja, que estava bem ao lado dela na hora. Anja quer se certificar de que a desconhecida se recupere bem e que tenha pelo menos uma amiga, já que Thelma é além de nova no pedaço, muito solitária. Os dias passam e o círculo de amigos vai aumentando, só que Anja é especial e que surpresa interessante é o recente término com o namorado, seguido por mais momentos de conexão com Thelma. É durante este período de flerte discreto, que o filme desacelera bastante e pode desencorajar muita gente a continuar assistindo. Só que quando acabou, eu reconheço que essas sequências mais paradas eram as que eu mais queria assistir novamente. Em um filme sobre mudanças constantes de perspectiva, as cenas que mostram a paixão crescendo entre as duas, ganham o potencial para se tornarem as mais perturbadoras, se a gente prestar bastante atenção na aparentemente encantadora cena final do filme. Considerando o desenrolar das vidas dos personagens além da tela, mesmo que sejam fictícios, não dá para rever essas cenas tão românticas e não se horrorizar com a crueldade por trás delas, mesmo que não haja intenções ruins em nenhuma ação ou pensamento.

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Thelma está apaixonada e apavorada. O relacionamento que ela tem com Deus há tanto tempo não permitiria uma união homossexual, então as crises que incluem convulsões, alucinações e muita reza desesperada, seguida por choro e culpa, se tornam mais frequentes e sem nenhuma novidade, desencadeadas pela simples presença de Anja. A religião da jovem explica uma tentativa de retomar o que ela acredita ser a própria pureza, se insinuando para um rapaz, assim como as visões claramente religiosas na forma de uma serpente que passeia pelo seu corpo. Muito se fala sobre o terror que é o preconceito, mas e quanto ao inferno que é a jornada de auto-aceitação? No entanto, a devoção não explica um monte de coisas que a garota não vê acontecendo, como o teto de um teatro quase caindo em cima das duas, depois de um encontro onde Anja tenta um contato físico um pouquinho mais íntimo. Seria Deus punindo Thelma pelos seus desejos? Punindo pelo que ela é? Eu creio que não. Algo me diz que Thelma arranjaria problemas graves na vida sendo lésbica ou hétero, tendo ou não a supervisão ferrenha e incansável dos pais, sofrendo ou não algum tipo de repressão.

O filme é cheio de flashbacks, sempre muito bem vindos e não simplesmente porque incrementam uma história aparentemente sem grandes eventos. Cada viagem ao passado é uma grande revelação, em um filme em que recebemos apenas uma ponta de informação por vez. Uma dessas viagens é literal, sem precisar interromper a cronologia da história, e é muito esclarecedora em relação ao histórico da família principal do filme. Enquanto eu me acomodava na calmaria de uma locação só (a universidade), a casa da infância de Thelma surgia dos mortos trazendo um monte de novidades e quando eu esperava uma protagonista deprê, se lambuzando nos simbolismos, lá está ela com o pé na estrada, investigando as causas dos próprios tormentos.

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Por favor, não se deixe vencer pela narrativa lenta, porque é dentro das cenas pacatas que o diretor escondeu uma história riquíssima e não se preocupe, tem cenas bem fortes para deixar qualquer fã de terror com as sobrancelhas lá no alto. Cheio de indicações e prêmios merecidos, este foi  a sugestão norueguesa para o Oscar de filme estrangeiro de 2017, mas acabou não entrando na lista de indicados. Teve outra lista no qual Thelma não entrou e eu falei que isto aconteceria! Eu iria trombar esse ano com um monte de filmes bons do ano passado, que não consegui ver a tempo de colocar na lista dos melhores, mas tudo bem. Thelma entraria, talvez em nono ou décimo lugar, empurrando outros filmes mais pra baixo e transformando uma lista de dezesseis para dezessete melhores do ano.

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