Silêncio em terror, nunca significa calma.

Não é porque não vemos a invasão, que não podemos imaginar a carnificina em nível global que deve ter sido. Quantos pedidos de ajuda no meio da rua, quantos telefonemas para as autoridades? Quanto choro, quantas arrancadas com o carro em fuga, quantas tentativas de reforçar os muros da casa com reformas? Quanta gritaria desesperada, quantas mortes, até que tenha sido estabelecido de forma definitiva e generalizada, que o som era, de fato, o grande problema? É claro que quando muito tempo se passa, sem o estímulo de um sentido muito importante para a percepção de um filme, a tendência é preencher o “vácuo” com criações da própria cabeça, mas este não é em nenhum momento um filme sossegado a ponto de encorajar devaneios. O que nos faz imaginar, somente depois que o filme termina, o início e o desenrolar de tudo até o momento na história em que o filme começa, é a certeza de que a nossa espécie é praticamente incapaz de não gerar barulho. A ideia de Um Lugar Silencioso é muito interessante.

Toda a forma de comunicação foi repensada, inclusive aquela à distância, feita com fogo e luzes que mudam de cor para sinalizar o perigo. Se esconder em um abrigo seria a mais prejudicial das decisões. Cegos, os aliens possuem uma audição poderosa, o que significa que o primeiro desentendimento por falta de espaço, ou mesmo a primeira tampa de panela caindo no chão, condenaria à morte a comunidade toda. Para não correr mais riscos, eu acredito que todos os humanos que sobraram após alguns meses estão vivendo em famílias pequenas, duplas ou sozinhos mesmo. Novamente não temos como saber, podemos apenas imaginar. Estamos no campo, em uma casa cheia de adaptações em prol do silêncio, cercada por um milharal e com um rio cheio de peixes nas proximidades. Na casa mora a família Abbott. Se eles são os donos de fato da propriedade, ou seja, se já estavam acostumados a plantar para comer, não importa, o que importa é que a vida na quietude não é grande novidade. Os Abbott tiveram a sorte de criar uma filha deficiente auditiva e por ela, tiveram acesso à ferramenta de comunicação mais útil do mundo no momento.

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Os Abbot têm uma grande vantagem, mas ela não é a garantia de segurança, nada é! Não é exatamente um filme de monstros, mesmo que os invasores pareçam formigas gigantes, como aquelas vilãs de uma era já esquecida dos filmes de terror. Graficamente eles são muito bem feitos, conceitualmente são melhores ainda. Fortes o suficiente para atravessar paredes e calando a boca de um planeta inteiro de tão bem que escutam, eles nunca são “pegos” desprevenidos. Apesar de aparecerem bastante no filme, eles não param de dar medo porque só se mostram quando querem. Não matam para comer, mas nunca param de caçar. Na maioria das vezes ao ar livre, a família anda descalça, até em casa existem marcas da porção do piso de madeira que não range com os passos. No jogo de tabuleiro, os dados são rolados em cima de um tapete e os peões foram substituídos por um quadrado feito de tricô. Vizinhos não se visitam. Poderia ser considerado um exagero, se o diretor John Krasinski (Jim, de The Office) não tivesse estabelecido no início, a dimensão dos recursos do inimigo com uma dolorosa cena de ataque. No meio do nada e sem nenhum sinal de presença alienígena, um barulho idiota chama a atenção e é fatal. É um filme sobre a escravidão de uma raça, quando outra nega um direito básico de expressão, o ruído.

Krasinski, sem a Pam, escala a esposa da vida real Emily Blunt, para viver a esposa na tela. É ela quem ilustra a poster, retirado da cena mais tensa e interminável do filme. Ele acertou na escolha dos atores e também acertou co-escrevendo o roteiro, com uma dinâmica familiar que torna o filme apaixonante e assustador. Isolados e com um possível repertório extenso de tragédias gravadas na mente, os personagens não vivem em um estado depressivo, mas também não vivem bem. É um alívio quando eles se permitem usar fones de ouvido para escutar música, e não só para procurar sobreviventes através das ondas de rádio. Com raras e cuidadosas excessões, o diálogo é mantido na linguagem de sinais, que precisou ser treinado por todos menos a maravilhosa jovem surda que interpreta Regan, a filha mais velha, entrando na fase da rebeldia em um mundo onde isso é impossível de ser tolerado. Em cima dela cai o peso da culpa e do heroísmo, mas não é só pra ela que estão reservados os espinhos e as rosas, porque Krasinski tem o cuidado de dar a oportunidade para que todo o elenco brilhe em momentos diferentes.

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No cinema, todos os adolescentes que me deixaram apreensiva durante os trailers, porque não paravam de brotar na sala, respeitaram a lei do silêncio como se estivessem dentro do filme. De vez em quando se ouvia um coitado nervoso soltando um “shhhh” discreto mas incontrolável, sem nenhuma malícia, para um personagem estabanado. Para mim, por enquanto, é o melhor do ano e novamente, como aconteceu em 2017, o terror revela um diretor de talento vindo de uma origem inesperada para o gênero. Alguns jump scares são meio desnecessários, até escandalosos, mas isso só prova que nem todo barulho é um acidente, alguns são uma necessidade da alma. Nem o diretor escapa disso.

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