Um meteoro cai do espaço e com ele, a nossa percepção de terror.

Mas é terror mesmo? Não é ficção, fantasia ou até drama, como sugere a descrição do Imdb? Alex Garland é um cara de ficção, tendo em seu currículo os roteiros dos magníficos Sunshine, Não Me Abandone Jamais e Ex- Machina, este último marcando sua estreia na direção. Ele também escreveu Extermínio, um filme com o certificado de “pertencente ao gênero horror” mesmo que os zumbis nele não estejam mortos. O diretor gosta de combinar ficção com outros gêneros e fugir do futurismo, mas o foco é uma invasão alienígena, então Aniquilação mais do que se qualifica para ser ficção científica. Natalie Portman não interpreta uma esposa modelo para o marido desaparecido, colocando o casamento em risco com seu comportamento e encaixando o filme também no drama. A tensão é presente por todo o filme, portanto é claro que se trata de um suspense. Só que, eu não sei quanto a você, mas por muitas cenas eu não estava apreensiva, eu estava com medo. Meu irmão vive me perguntando qual seria a característica que classifica um filme de terror. A quantidade de sangue ou corpos? Um fantasma talvez? Pensando agora, sangue, corpos e fantasmas você encontra até em comédias, mas medo, só em terror.

Natalie interpreta Lena, uma bióloga que já considera o marido morto. O militar que a conheceu quando ela também era do exército, já está desaparecido há um ano desde a última missão secreta e por ser secreta, não há muita colaboração do governo nas buscas por Kane. Em mais uma noite em que Lena não consegue parar de recordar e sofrer, o marido reaparece. O choque é gigantesco pra ela, já ele está confuso demais e antes que ela consiga ligar para parentes e amigos com a boa notícia, Kane passa mal, muito mal e os dois são interceptados por soldados a caminho do hospital. No complexo militar, permitem que ela tenha conhecimento sobre um fenômeno que está confundindo cientistas, tomando território e sumindo com exploradores que se aventuram dentro dele. Uma redoma brilhante no litoral da Flórida, que ninguém sabe como surgiu, revelado para Lena em troca de informações, sobre como o marido dela conseguiu ser o primeiro em três anos de expedições a retornar do “Brilho”. Como ele conseguiu sair com vida e aparecer em casa, que fica à quilômetros de distância, sem que alguém notasse? Com Kane em coma, o próximo passo é enviar Lena para mais uma missão de reconhecimento no Brilho, como tantas outras que falharam, mas desta vez com outros voluntários que também possuem um pé na depressão.

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O filme abre com Lena sendo interrogada por cientistas protegidos por uma roupa especial. Ela retornou da missão dentro do Brilho, a única de seu grupo, assim como o marido. Em nenhum momento ela mente, nem mesmo quando diz que não sabe exatamente o que aconteceu com determinados membros da equipe e ela estava lá, participando de cada evento. Kane também não havia mentido para ela em momento algum e isso é a chave para entender com que tipo de terror estamos lidando aqui. Do momento em que a expedição de Lena atravessa aquela parede construída por cores e luzes, nada pode garantir a segurança de ninguém. No entanto, a hostilidade só vem dos animais de grande porte que se viram presos dentro daquela redoma que, segundo os cientistas, começou como uma manifestação colorida em um farol e nunca vai parar de crescer, engolindo o planeta inteiro eventualmente. Por mais que aqueles animais estejam em uma situação especial e modificados por ela (um deles até, adquirindo uma vantagem que arrepiou todos os pelos do meu corpo, cada vez que sua mandíbula se abria), eles já são violentos por instinto quando se sentem ameaçados em qualquer ambiente. O resto do perigo é acidental. Estamos diante de um vilão que não tem a intenção ou o conhecimento de ser um, mas que em um planeta delicado como o nosso, não consegue evitá-lo.

Dos pontos de vista científico e filosófico, Aniquilação é muito interessante. Do lado de fora, a raça humana ciente da presença alienígena, está determinada para descobrir quem eles são e o que querem conosco, mas principalmente como eles funcionam como espécie. Do lado de dentro não poderia ser diferente. Eles nos estudam de um modo que mal conseguimos entender e os métodos podem até ser encarados como cruéis. Visualmente, é como a própria Lena descreve: “às vezes assustador, às vezes encantador”. O tempo é percebido de uma maneira completamente diferente dentro do Brilho. Não é um Jurassic Park, no qual se poderia seguir o plano inicial de colher amostras evitando ameaças palpáveis, para retornar para fora em um só pedaço, apesar de que um membro da equipe não quer sair antes de seguir para o farol, o núcleo do acontecimento. A princípio, nota-se que as flores, responsáveis por grande parte da beleza do local, foram mescladas entre si e transformadas em espécies novas e diferentes, nascendo todas do mesmo galho. Belíssimas, mas com uma mutação preocupante, o que leva todos a pensar que outros seres vivos presos ali dentro, também têm o potencial para sofrer uma combinação forçada e permanente.

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Alvo do ataque de dois monstros diferentes, o membro da equipe mais propenso ao sofrimento, simplesmente desiste. Lena quer lutar e mesmo no corpo da miudinha Portman, uma ex-soldado com uma metralhadora na mão e muita vontade de voltar pra casa, mostra que pode ter sucesso. O filme tem imagens e sons bem assustadores, mas nada se compara ao terror de uma invasão alienígena transcorrendo com o desgoverno de motoristas cegos nos volantes de carros sem freios. É um filme que provoca discussões e teorias e eu aplaudo Alex Garland por ter feito um filme tão complexo, que o grande avanço social que é o perfil dominante no elenco, seja a última coisa na cabeça do público, considerando que Aniquilação é também cheio de cenas de ação. Eu lí e assistí a muitas críticas do filme, em busca de teorias contrárias à minha e notei a falta de menção ao gênero, mas eu mesma só tinha percebido a peculiaridade no grupo de Lena dias depois de ver o filme. É como se com esse empurrão de Garland, estivéssemos todos seguindo o grande conselho de Morgan Freeman em relação à discriminação. Ele diz que se você que acabar com o preconceito, precisa parar de falar dele. Peço desculpas porque acabei de quebrar a regra, mas eu acredito que estou falando menos do filme agora e mais da sensação que ele provoca. Ah, e a trilha sonora é muito marcante.

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