Vamos fingir que o segundo filme nunca existiu!

Eu vou dedicar um parágrafo e somente um para Exorcista 2 – O Herege (1977). “Eu fui possuída por um demônio, mas tudo bem, ele foi embora!” – diz com a maior cara de tacho a agora adolescente Regan MacNeil, a uma criança que ela tinha acabado de conhecer, no consultório psiquiátrico mais ridículo e contraproducente já criado. Richard Burton interpreta um padre enviado pela diocese para investigar as mortes de Merrin e Karras, assim como os eventos ao redor da suposta possessão. Cheio de efeitos horrorosos, chato e sem propósito, o filme passa grande parte do tempo tentando convencer um recém-chegado de que coisas que o público viu anos antes, realmente aconteceram. Uma máquina inventada pela médica de Regan, hipnotiza e conecta duas mentes, criando cenas acidentalmente cômicas e um verdadeiro pecado cinematográfico, que foi uma sequência amadora e completamente desnecessária explicando a morte do padre Merrin, um belíssimo e doloroso mistério até então. Outras blasfêmias incluem a sonâmbula Regan, vivendo na cobertura de um prédio bem alto sem barreiras de proteção, o suicídio sem pé nem cabeça de um personagem do filme original e a introdução do homem-gafanhoto, para tentar afundar de vez a fé coletiva em continuações. Um herege com certeza.

É claro que O Exorcista 3 não é tão bom quanto o original. Mas também, nada no terror chega perto! Aquela obra prima de 73, nunca foi apenas um retrato do que poderia acontecer de pior na vida de alguém, como ainda é a história mais assustadora já colocada em filme. Não existe circunstância que diminua o impacto de O Exorcista, nada atrapalha o medo que ele provoca. O terceiro filme não coloca uma criança para atormentar suas noites por anos, mas devolve o aspecto impiedoso à ideia da possessão, assim como devolve um pouco de integridade à “franquia”. Neste filme o possuído é um personagem conhecido, tão carismático quanto Regan foi, então quando é revelado que fim ele levou realmente, é um soco no estômago que encerra a história iniciada em 73 com autoridade. É o sucessor de direito do filme original, reproduzindo a fotografia, mantendo a história na mesma cidade, incluindo a emblemática trilha sonora e não se aproveitando do nome e da fama do primeiro só para faturar em cima.

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O Exorcista 3 tem como protagonista o detetive William Kinderman, interpretado no primeiro filme por Lee J. Cobb, morto em 76 e neste por George C. Scott. O homem que vivia procurando uma companhia para ir ao cinema, independente da investigação que estivesse conduzindo, encontrou há muitos anos o amigo ideal no padre Dyer, um personagem que também fez parte do filme original com outro ator. As cenas entre o policial e o padre são super bem humoradas, em contradição à seriedade do outro filme, que precisava convencer todo mundo de que o diabo era capaz de entrar na casa das pessoas e permanecer lá. O trabalho de estabelecer o tipo de terror já tinha sido feito, então este filme podia relaxar um pouco e assim ele fez. O tempo exaustivo que O Exorcista 3 leva para concluir qualquer coisa, até mesmo um cigarro sendo apagado, é impressionante. Monólogos enormes, câmera parada por períodos longos e sequências nas quais aparentemente a história não anda. Mas o diretor tem a noção completa, como fica evidente na própria cena do cigarro, de que ele poderia dar uma acelerada no filme. Só que tudo não passava de uma estratégia, para distrair um público que tinha uma ideia de como a narrativa deveria ser, e que foi obrigado a ir baixando a guarda, a cada morte em que o corpo era elegantemente escondido dos nossos olhos.

Em uma conversa entre Kinderman e o bispo na igreja, a risada de Regan atravessa as épocas, os filmes e invade a cena, chamando a nossa atenção. O detetive está na igreja, porque assassinatos com ligações religiosas acontecendo na cidade, estão desafiando a sanidade dos policiais, não por parecerem impossíveis de serem realizados, mas por revelarem uma violência demoníaca. O que somos poupados de ver, é descrito tanto por investigadores quanto por suspeitos, com detalhes e talento para perturbar. Antes que alguém se dê conta, toda a descontração, os lençóis sobre os cadáveres, os sustos falsos e a falta de pressa pra fazer algo assustador acontecer, colocaram o público com um pé no filme e outro na realidade. O resultado é que até uma simples porta abrindo, com a ajuda do vento ou de outra coisa, é o suficiente para nos deixar apreensivos. Agora, não se engane em pensar que este é um filme carente de imagens fortes. Existem cenas nesta filial para encher a matriz de orgulho. Não tem criança fazendo yoga na escada, mas tem idoso engatinhando no teto, entre outras coisas.

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George C. Scott, no papel de um homem que leva o trabalho muito a sério enquanto está cercado de gente menos comprometida, pode ser um pouco intenso, mas o seu Kinderman é pela primeira vez envolvido diretamente no terror. Além dos assassinatos seguirem um tema de insulto ao sagrado, o detetive também encontra ligação entre as vítimas e um certo exorcismo ocorrido na década de 70. Para confundir ainda mais a cabeça já frágil e estressada de Kinderman, o método utilizado na matança é exatamente o mesmo de um serial killer executado 15 anos antes. O “Assassino Geminiano”, de volta do mundo dos mortos, tem dois intérpretes de grande peso no filme, e a transição entre os dois atores no mesmo papel foi feita com tanta harmonia, que eu ficava voltando o filme para rever, toda vez que acontecia. Os dois atores merecem elogios, mas vamos falar de Brad (o boneco Chucky) Dourif, super inspirado e sem se intimidar com a presença sempre marcante de Scott nas telas. Dourif está completamente assombroso como a porção mais espalhafatosa do Geminiano.

Ao contrário daquela vergonha alheia em forma de filme que foi O Herege, o terceiro realmente tem um exorcismo, mas ele não é o grande clímax da história como no primeiro, na verdade, eu acho que este filme não tem um grande momento pré-anunciado pelo qual devemos esperar. Mesmo assim, quando um padre que nem fez parte da história direito, aparece no final pronto para a briga, estamos ao lado dele no ringue com água e toalha, ainda que a inclusão do personagem e da cena não tenham sido escolhas do diretor. Falando nisso, existe uma versão só dele lançada em 2016 com o nome de Legion, que é também o nome do livro de William Peter Blatty (diretor e roteirista do terceiro e roteirista do primeiro), mas eu prefiro a versão dos produtores. É com ela eu digo que o Exorcista foi criado em 1973, foi brevemente possuído pelo coisa-ruim em 1977, para só voltar a ser considerado um filme de verdade em 1990.

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