O terror, me mantendo longe da vida selvagem, um filme por vez.

Uma pessoa consciente em um filme de terror, ou seja, em um estado raro de lucidez que lhe permita entender que não passa de um personagem, jamais aceitaria os conselhos de um estranho de cidade pequena, sobre o melhor local para se montar um acampamento no meio da floresta. O diretor nos dá uma enganada porque, Ian, o visitante que pede direções, até ignora o que o homem local sugere como rota alternativa e vai com a namorada para a sua primeira opção de descanso para o ano novo, um pedaço belíssimo de areia na beira de um lago perto dali. O problema, é que por incrível que pareça, o “Alemão”, um ex-presidiário com traços físicos aborígenes que não consegue parar de aprontar, estava realmente tentando manter Ian longe do lago e por consequência, longe das evidências de um crime cometido dias antes. Se Ian fosse um sujeito realmente ciente dos destinos de personagens em filmes de terror no meio do mato, percebendo que aquele estranho o seguia na estrada para ver se ele tinha aceitado a recomendação, teria dado meia volta para estourar a champanhe em casa.

Quando Ian e Samantha chegam no local, o terror já aconteceu. O passado, onde uma família escolheu a beira do lago para passar o Natal e o presente, onde o casal aparece alguns dias depois, são exibidos alternadamente, sem que haja um aviso que indique a troca de períodos. Linhas do tempo paralelas onde tudo corre bem, até que o casal chega na floresta e encontra a barraca da família, que naquela altura já conhecemos bem, ainda armada, melhor equipada, mas vazia. Os personagens são obrigados a sair a própria história para virar a pós-história de outros personagens, como as pessoas que nunca aparecem, mas ficam subentendidas em um filme de terror, tendo a chance de acrescentar algo à narrativa. Eles seriam supostamente os profissionais que encontram, que cuidam ou recolhem as vítimas, depois que os créditos finais começam, mas a cavalaria aqui é desinformada e o filme não tem outra alternativa a não ser continuar com o terror.

Killing+Ground1

Esta produção australiana segue uma tendência no seu país, que é a de apresentar serial killers cruéis sem que o filme apele para o torture porn. Que bom! Assim como em Predadores do Amor e Viagem ao Inferno, não há a necessidade de mostrar cenas longas que enfatizam a dor, já que a antecipação da violência, intensificada a cada gesto desumanizado dos vilões mesmo longe de qualquer vítima, já é tensa o suficiente para gerar o mal-estar necessário para este tipo de filme. A melhor cena, é Samantha distraída com seus afazeres, não percebendo a presença próxima de um sobrevivente na floresta, o mais vulnerável que sobrou do passado. Foi um teste e tanto para os meus nervos. As cenas mais difíceis de assistir, envolvem o mesmo personagem e fizeram o meu coração pesar de verdade.

O Acampamento é um filme que provoca muitos “e se…” no público. É inevitável em uma história de terror séria e cheia de tristeza. “E se eles tivessem ido por outro caminho? E se tivessem feito escolhas diferentes”. Todos eles! Em um filme cheio de momentos nada lisonjeiros, em que até o cachorro do bandido faz asneira, seria difícil os personagens não se transformarem em “gente burra típica” de certos filmes de terror, mas felizmente, todas as decisões erradas são avaliadas pelos indivíduos que as tomaram e há tempo para isso, sem que o filme se arraste. Do pai que contou uma história assustadora para a filha que já era propensa aos pesadelos, ao médico que deixa um paciente para trás para salvar a própria vida. Não é só o público que pensa “ e se…”.

Killing+Ground2

Eu acredito que a maioria dos realizadores de filmes de terror sejam ambientalistas, porque eles são experts na arte de mostrar lugares paradisíacos, ao mesmo tempo em que nos deixam sem a mínima vontade de visitá-los. O Acampamento é um filme forte e realista, com cenas que permanecerão com o público por muito tempo. Quem poderia imaginar a crueldade de uma latinha de cerveja equilibrada na cabeça? A dupla de vilões faz um ótimo trabalho com o roteiro, mesmo que suas personalidades pudessem ter sido melhor definidas, com relação à incerteza na escolha da vida criminosa. Mas quem sou eu realmente para analisar a fundo a mente de gente doente? Determinados ou não com o mal feito, eles lá e eu de férias na cidade grande!

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