Eu estou ciente do atraso, mas em minha defesa duas coisas peculiares aconteceram no ano que passou: o exaustivo mês de dezembro e uma série de lançamentos do gênero que eu até esperava odiar, mas na maioria das vezes conseguia pelo menos extrair um pouco de diversão. Então pra esta lista sair foi um pouco complicado, mas aqui ela está finalmente. Os filmes abaixo foram garimpados entre muita coisa interessante que saiu em 2017, porque se destacam de uma forma reprovável. É a categoria dos que a gente poderia continuar vivendo numa boa, mesmo se eles não tivessem sido feitos. São os dispensáveis, os que vamos esquecer em breve, mas antes, um funeral apropriado segue abaixo na forma de um post feito especialmente para xingar, como sempre, na ordem dos menos terríveis para os indesculpáveis. Menções desonrosas ficam com A Morte Te Dá Parabéns e A Torre Negra.

 

11 – ALÉM DA MORTE (FLATLINERS)

FLATLINERS

Quer dizer que IT não foi o único remake de um clássico/de elenco grande/maravilhoso/brega do terror de 1990 a ser lançado em 2017? Linha Mortal tinha Julia Roberts, Kiefer Sutherland, Kevin Bacon e uma mensagem que era ao mesmo tempo apavorante e bela sobre remorso e perdão. A ideia era maravilhosa: alguns estudantes de medicina decidem brincar de Deus arriscando as próprias vidas, em uma experiência que supostamente provaria a existência da vida após a morte. Depois que uns três morrem e voltam com a ajuda dos colegas, o primeiro da fila revela que anda tendo visões terríveis relacionadas ao passado e que elas estão se tornando cada vez mais reais. O terror era bem presente no primeiro filme, mas ele servia como um instrumento para levar os estudantes à beira da loucura; se eles aguentassem, teriam em retorno aquilo que buscavam desde a infância. Em Além da Morte, a essência da história deixa de existir. Não é sobre a mente pós-experiência de quase morte dos estudantes, que agora se vê livre para finalmente trabalhar sem restrições naquele trauma antigo. É uma sucessão de cenas que não levam a nada e espíritos vingativos que chegam até a provocar a morte, transformando o filme em nada mais do que um slasher sobrenatural… e um bem ruinzinho.

 

10 – SETE DESEJOS (WISH UPON)

WISH UPON

Falta de criatividade é um dos grandes problemas aqui. Edição confusa é outro. O filme começa com a mãe de Clare se matando quando ela era criança, os anos passam e ela é uma adolescente que por razões misteriosas sofre bullying das pessoas mais populares na escola. Apesar da tragédia na infância, se a gente parar pra analisar a vida da garota, verá que está tudo indo bem, mas o pai dela, que virou catador de “relíquias” na vizinhança, encontra uma caixa mágica no lixo que concede desejos e a vida de Clare começa a mudar.

Um plot batido destes no mínimo, garante uma boa história sobre culpa e arrependimento, mas nem isso nós vemos. Assim que a caixa dá o que Clare deseja, alguém ao redor morre e nem sempre é alguém que importa pra ela, então ela continua fazendo pedidos. Não há uma lição de moral que ensine sobre querer mais do que se tem direito, não há o lado ruim da riqueza, do pai deixar de ser embaraçoso, da inimiga da escola contrair uma doença que a deforme, ou talvez até tenha, como o próprio trailer denuncia, alguma sequência que conecta eventos de uma maneira melhor, já que um monte de cenas foram cortadas do filme. Se você piscar, pode achar que perdeu algo, porque quando se espera que seja o dia seguinte, dias se passaram. As mortes são uma versão atualizada de Premonição, onde muitos acidentes domésticos têm um desfecho bizarro. Poderia ter sido bem melhor.

 

9 – VIDA (LIFE)

LIFE

O maior problema de Vida, não é o atrevimento de eliminar o grande astro do filme logo no início. O que fez do filme uma grande decepção pra mim, foi o fato de que a morte não trouxe a sensação de perda. Na verdade, nenhuma morte no filme é sentida, porque Vida é um dos filmes mais sem vida que eu já vi na minha… deixa quieto! É um esforço tão artificial, desde o desenvolvimento dos personagens até a própria história, que mesmo tendo referências de peso no universo “homem versus perigos do espaço” como a série Alien, Sunshine e Moon, não consegue reproduzir os elementos que foram cruciais para o sucesso destes filmes, como uma forte conexão entre personagens e público, ou entre os próprios personagens, e uma ponta de esperança na sobrevivência, que é trabalhada com planos de ação e pequenas vitórias por todo o filme.

Vida fala de um grupo de astronautas de diversos países, que estão com a tarefa de recuperar uma capsula vinda de marte e analisar o seu conteúdo ainda no espaço. Uma minhoquinha é descoberta, recebe um nome, mas antes que comece a matar gerando aquela histeria visivelmente e infelizmente falsa, a gente nem se emociona porque não há segredos sobre o que está para acontecer. Ou seja, não dá nem pra curtir o bichinho e se surpreender quando ele trai a equipe. Quando ele se revela na sua forma final, sem nenhuma criatividade, já estamos fartos e contando os minutos para que o filme termine.

8 – A MÚMIA (THE MUMMY)

THE MUMMY

 

Senhoras e senhores, bem vindos à MISSÃO IMPOSSÍVEL 7 – COM A PARTICIPAÇÃO ESPECIAL DE UM MONSTRO CLÁSSICO QUALQUER.

Houve uma época em que Tom Cruise era sinônimo de sucesso de bilheteria, por ter um entendimento bem claro com o público: ele se comprometia a trabalhar com um roteiro decente e em troca nós pagávamos pra ver. Eu não sei o que passou pela cabeça do cara com essa bagunça sem sentido (mas recheada de cenas de ação), que foi concebida como o primeiro passo para o retorno dos monstros antigos ao cinema, mas que agora pode ter enterrado a franquia antes mesmo de ela começar.

O conto da própria múmia já é meio confuso, mas que seja, eles acordam o bicho e o bicho, em forma de uma bela bailarina, precisa perseguir Tom Cruise pelo filme inteiro, porque a verdadeira estrela do filme não é bem uma desconhecida com um histórico fraco e motivações estranhas. Tom fica semi-lisonjeado, semi-apavorado e começa a sofrer um caso severo de Um Lobisomen Americano em Londres, entre outras sobrenaturalidades.

 

7 – DEATH NOTE

DEATH NOTE

Eu não via o anime, então mudanças na adaptação do material original para a telinha do Netflix não deveriam me afetar, mas Death Note é tão inconsistente, tão superficial e idiota, que eu precisava saber o que o material original tinha de tão bom para atrair tantos fãs. Não é necessário uma certa quantidade de sensibilidade, ou eu diria até mesmo empatia, para assistir a uma série de sucesso e mesmo não se apaixonando por ela, entender quais foram os elementos que deram certo? Parece que o filme foi feito a contra gosto, porque não é possível que os princípios básicos do desenho, aqueles que amarravam a história de uma maneira harmoniosa, que justificavam as decisões dos personagens de acordo com suas personalidades, princípios que eram respeitados e por consequência ganharam o respeito do público, tenham sido modificados por puro desleixo. Eu sinto uma certa obrigação para maratonar um anime de sucesso, para transformá-lo em algo somente rentável mas não memorável. Na verdade, a única razão para o filme não estar posicionado mais para baixo nesta lista é a maravilhosa performance de Willem Dafoe na voz de Ryuk.

 

6 – O CHAMADO 3 (RINGS)

RINGS

Algumas perguntas surgiram na minha cabeça na época do primeiro filme, pelo qual eu fiquei obcecada, como: o que aconteceria se na hora H, o amaldiçoado não estivesse exatamente em casa na frente de uma tv, mas em um lugar público ou cheio de gente? E se a fita fosse transmitida em uma canal de tv, para todo um país? Como a cabeluda adaptaria sua saída da tv para o mundo real, se algo bloqueasse a tela ? O Chamado 3 responde a estas perguntas mas de formas bem incompletas e sem criatividade. Este filme conseguiu um feito que eu considerava impossível: removeu o medo que eu sempre senti da Samara! A transformou em uma garota demoníaca qualquer de um filme de terror genérico, deram a ela um pai e uma mãe de verdade e mais uma continuação que não faz nenhum sentido.

Rachel encontrou Samara no fundo do poço, mas aparentemente ela continua perdida e precisamos encontrá-la novamente, nesta história sobre um casal que se separa por causa da faculdade, mas que se reúne para combater a fita maldita, que agora exibe mais imagens e nem é mais v.h.s., é salva, copiada e transmitida via dados no computador. Por alguma razão, o filme esquece que não está fazendo a continuação de Corrente do Mal (It Follows) e dá aos contaminados pela maldição o poder para estender o prazo inicial de sete dias. Samara não vai deixar barato e arruma um meio ainda mais distante do filme original para retomar o controle da situação.

 

5 – BONECO DE NEVE (THE SNOWMAN)

THE SNOWMAN

Eu não acredito que existam problemas em adaptar um livro para o cinema sem respeitar a ordem de lançamento. Afinal de contas, O Silêncio dos Inocentes era o segundo livro, mas é claro, essa decisão precisa vir acompanhada de bom senso. Hannibal era um ladrão de cenas, mas a personagem principal era a recém-criada Clarice e o foco era chegar em Buffalo Bill, o serial killer que ainda estava solto, apenas com o auxílio da mente brilhante do canibal mais famoso do cinema, que já estava preso. Eu não li nenhum dos livros da série do detetive Harry Hole, no qual este filme se baseia, mas por este mesmo motivo eu digo que não foi uma boa ideia começar sua saga no cinema com o sétimo livro.

Em Boneco de Neve, Michael Fassbender, por mais talentoso que seja, me parece meio novo para interpretar um detetive “cujos casos super famosos e numerosos, são estudados na academia de polícia pelos aspirantes a detetive”. Ele investiga uma série de assassinatos em Oslo (o filme se passa na Noruega, mas é falado em inglês), onde o responsável deixa como pista um boneco de neve com algum objeto da vítima. Harry não é o cara mais carismático do mundo e no papel é importante que ele não seja, mas sem presença nenhuma em tela, fica difícil atender ao pedido do filme, que quer que você forme um laço imediato com um cara que acabou de conhecer, que acredite na capacidade dele antes de ter visto o trabalho, e na fama que ele tem quando o assassino revela que Harry foi escolhido para ser o rival dele, desde antes das matanças. O pior de tudo, é que por mais que não se invista muito na historia, ainda é possível prever o final do filme.

 

4 – THE MONSTER PROJECT

THE MONSTER PROJECT

Found Footage é uma vertente complicada. Você precisa justificar o tempo inteiro por quê ainda tem uma câmera na sua mão, enquanto você corre do assassino. Mas The Monster Project não tá nem aí para coerência e faz seus personagens saírem gravando até as conversas comprometedoras, de personagens que ironicamente precisam passar uma aura de integridade para que seus projetos tenham sucesso nas redes sociais. É como ter evidência em vídeo do planejamento de um assalto a banco… pra quê? Eles possuem um canal no youtube para postar vídeos falsos sobre fenômenos sobrenaturais, mas por alguma razão a câmera nunca desliga. Eles gravam o caminho até algum lugar, conversas sem importância em casa, colocam até uma câmera na testa de um cara, para não perder nenhum minuto de uma treta em uma festa de aniversário. Gravam tanto que na hora do vamos ver, a bateria acaba. Seria o momento perfeito para uma piada interna sobre os documentários falsos que pipocam pelo terror, uma crítica recheada de sarcasmo, mas não. Assim que trocam a bateria, lá está a câmera mostrando uma caminhada até um lugar que pode ou não ser importante.

Para dar uma sacudida no canal e tentar aumentar os acessos, eles colocam um anúncio no jornal pedindo a participação de “monstros de verdade” para uma entrevista em uma casa abandonada. É durante, não, depois destas entrevistas que vemos o filme finalmente ficando um pouco mais interessante, eu diria até divertido, mas aí tudo descamba para um final sem pé nem cabeça.

 

3 – THE HATRED

THE HATRED

O filme se passa logo após a Segunda Guerra, com uma família morando em uma propriedade rural nos Estados Unidos. O patriarca é um ex-soldado da SS, a unidade militar especial de Hitler… não esquece, isso é só a introdução, que leva mais de vinte minutos e depois nem importa tanto para a história, assim como quase todas as outras cenas do filme. Este é um filme onde tudo demora um século para acontecer e depois nem faz muita diferença.

The Hatred começa de verdade, mesmo não andando muito, nos dias atuais depois que quatro patricinhas de Beverly Hills viajam para a casa de campo de um professor da faculdade, para tomar conta da filha dele (ou algo parecido, sei lá, elas vão para aquela propriedade rural do nazista e o novo dono não está). O espírito da filha do nazista, que quando viva estava louca para ver o mundo, mas depois de morta fica super possessiva com o antigo quarto, passa a atormentar as meninas. Mesmo com vários acontecimentos sobrenaturais acontecendo, as jovens insistem em fingir que não tem nada de errado. Por um lado é bom, porque a culpa é de um amuleto “que se alimenta dos medos” e que foi guardado pelo antigo ex-soldado, então o melhor mesmo para combater o mal, é dar uma de louca, bebendo vinho, conversando sobre coisas que não interessam para o público, desfilando com poucas roupas na frente da câmera e permanecendo na casa com cara de sonsa.

 

2 – DON’T SLEEP

DONT SLEEP

O pequeno Zach sonha com coisas terríveis, noite após noite a ponto de fazer de tudo para não cair no sono. Sua mãe o leva a um psicólogo, ele melhora, cresce, arruma uma namorada e decide ir morar com ela, em uma casa onde o aluguel é uma pechincha. Os sonhos voltam, ficam cada vez mais reais, mas quem sofre as consequências são os vizinhos… eu ainda não tinha visto um efeito colateral desses.

Don’t Sleep é cheio de rostos familiares ao público, pessoas que além de terem sido colocadas no filme para tomar sustos e morrer, servem para distrair do fato de que o filme não sabe para onde está indo. É personagem pra caramba pra não influenciar quase nada. Em um certo momento, até a esposa do psicólogo ganha um pouco de destaque. A história (que não se sabe direito qual é) nunca avança e termina como uma espécie de romance gótico para psicopatas, apesar de ter começado como um terror genérico. É como se o filme tivesse sido passado de diretor em diretor, com cada um pegando um pedaço de mais ou menos 25 minutos do filme, assistindo somente ao pedaço anterior e sem ter lido o roteiro. Aí esses diretores querem fazer um filme bem legal, mas sem entender completamente o pedaço anterior e sem deixar nada muito modificado para o diretor seguinte. O mais bizarro no entanto, são os créditos finais, que misturam imagens perturbadoras do filme que passou, com cenas de bastidores enquanto um rock meio emo toca para acompanhar. Parece uma paródia de si mesmo.

 

1 – THE GRACEFIELD INCIDENT

THE GRACEFIELD INCIDENT

Logo no início, um dos personagens perdeu um olho e colocou uma câmera em uma prótese ocular. Para que eu não sei e eu também não sei porque outros personagens, que não são cineastas, ficam gravando tudo o que se passa em um simples fim de semana para casais em uma cabana de luxo. Mas por sorte, um meteoro com um alienígena cai na floresta próxima e todas aquelas câmeras ganham uma serventia.

Dirigido, escrito e estrelado por Mathieu Ratthe (o caolho biônico no filme), The Gracefield Incidente parece ter uma ideia do que um filme de terror precisa ter. Além do found footage, você vai ver os círculos extra-terrestres no milharal, as bexigas de festa que aparecem do nada, possessões, momentos Bruxa de Blair e um certo suspense causado por uma perseguição facilmente evitada. O que o filme não entende, é como seres humanos agem de verdade, o que é lógico em uma história, ou como os próprios filmes funcionam. O que me consolou ao fim desta verdadeira baderna cansativa, foi que eu acredito ter encontrado o equivalente à The Room no cinema de terror, no sentido de que houve muito investimento financeiro e seriedade para tirar do papel esse insulto extraído da cabeça de um criador extremamente sem noção. Os efeitos são ótimos e as atuações são hilárias. Desde o início, os adultos agindo feito adolescentes nos fazem querer a morte deles. No desenrolar da história, os homens da casa vão investigar o meteoro e descobrem o alien, descobrem que ele é hostil e que sumiu com o cachorro. Com muito custo, eles conseguem voltar para a cabana levando um objeto valioso para o ser do outro planeta, mas “para não assustar as mulheres”, não contam nada do que aconteceu e … vão dormir! Uma verdadeira lambança do início ao fim. O maior constrangimento de 2017 para o terror, feito para provocar risos involuntários.

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