EL BAR
Dirigido por Álex de la Iglesia

Um assassinato na porta de um bar prende os clientes dentro do estabelecimento.

Você abre a sessão de terror do Netflix e fingindo ser uma coincidência, lá está ele em primeiro lugar. Como ignorar? Mas sem reclamações aqui, porque este terror espanhol, cheio de suspense, humor e sangue foi uma ótima escolha recentemente adquirida pelo serviço online de filmes.

Para mostrar que não está de brincadeira, o diretor começa o filme com um ousado plano-sequência que apresenta os personagens principais. De manhã cedo, nas movimentadas ruas de Madri, o elenco aparece e desaparece num balé muito bem ensaiado revelando um pouquinho da personalidade de cada um, antes de entrar no boteco. Eu não vi mais nada do diretor Alex de La Iglesia, mas O Bar me fez pesquisar seu currículo e me incentivou a assistir outros trabalhos dele. Este é um filme tão competente em manter a história interessante e tensa, mesmo que ela se passe praticamente em apenas um ambiente, que o talento do cara é inquestionável. Tirando o ato final, que poderia ter sido um pouco melhor (não estou falando do desfecho, que foi bem legal), surpreende o quão acelerado é o compasso do filme e quão bem costurado e coerente ele é considerando o absurdo da premissa.

Os tipos mais estranhos, ou mais comuns, dependendo de qual é a sua tribo, se dirigem ao bar em questão para o lanche da manhã. Com excessão dos regulares da casa, a maioria das pessoas não se conhece. Depois de passar um bom tempo sem ser atendido, um cliente sai e toma um tiro bem na frente da porta de vidro. O pânico toma conta da rua e ela se esvazia rapidamente, o atirador não é visto, o motivo, vai saber! Dentro do bar a sensação é de perigo e ninguém quer sair. Sem sinal de celular, pior, sem telefone fixo, fica impossível entrar em contato com a polícia. Mas alguém que estava na rua certamente vai cuidar disso. O cliente baleado se agita no chão, sangrando, é ridículo não acudir o coitado. Então alguém sai do bar para prestar socorro e também leva um tiro certeiro na cabeça.

EL BAR 1

Entre os confinados estão a dona, um funcionário, um morador de rua responsável pelas cenas mais engraçadas do filme e meia-dúzia de desafortunados cujos pedidos dão ao local ares de padoca. Na tv, nada sobre as mortes, na rua nada de polícia. Por uma boa porção do filme, o que se desenrola é a evolução da paranoia. Essas coisas sempre começam com o que se pensa saber sobre violência, com base no cinema e na televisão. Tá todo mundo apavorado e especula sobre o que pode estar acontecendo, mas claro, sem nenhuma informação além das vítimas na calçada, mortas sem nenhuma conexão aparente além do último local que frequentaram em vida. De uma hora pra outra, mesmo com portas transparentes no bar, os corpos desaparecem sem que ninguém perceba. Até o sangue some e o povo surta.

É interessante ver a rapidez com que o filme muda de teorias sobre o incidente e também como eles começam a suspeitar uns dos outros. Entre E.T.s e terroristas, eventualmente a história toma o rumo clássico com uma explicação mais apropriada para o terror. Com nada além de bebida alcoólica e medo para conduzir uma investigação, eles começam a se perder em acusações mútuas e infundadas. É o único momento em que temos um pouco de conhecimento sobre a vida de cada um antes daquela situação, mas não importa. O que faz a diferença na história mesmo, são informações que o filme mostrou mas com muito sucesso nos fez esquecer, até que fosse conveniente mostrar novamente, incluindo os créditos de abertura.

EL BAR 2

O Bar funcionaria muito bem como uma peça, se não tivesse cenas externas mas até essas poderiam ser adaptadas. É dinâmico, divertido, tenso e completamente imprevisível. O filme expõe que em circunstâncias tão estressantes, as pessoas se revelam como são de verdade e nenhuma personalidade aqui permanece sólida. Os mais galantes se tornam rudes, os mais descontrolados se tornam heróis e os mais apavorados podem matar com as próprias mãos, e ainda assim nos importamos com o que acontece com cada um deles quando a contagem de corpos recomeça (e não para). Tenho certeza de que vai receber muitos “joinhas” no Netflix.

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