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Dirigido por James Gunn

Invasores alienígenas atacam os moradores de uma pequena cidade.

Na cidade interiorana de Wheelsy, onde a polícia dorme em serviço sem culpa ou prejuízo, já que nada acontece de muito grave no local, um meteoro cai trazendo uma substância alienígena. A cidade é uma daquelas com a dinâmica de uma casa por quilômetro, então todo mundo mora longe de tudo e ninguém percebe a presença estranha até que um morador se aproxime do local da queda sem querer e seja contaminado. O que segue é a colocação em prática de um plano de dominação sobre a nossa espécie, cheio de elementos que fazem muito sentido, mas que não escapam de serem qualificados como ridículos. A boa notícia, é que a auto sátira do filme é mais forte do que a potencial crítica externa e ela funciona porque é honesta.

Quando você anuncia que o seu filme fala sobre lesmas (rápidas) alienígenas assassinas, que transformam pessoas em zumbis quando entram na boca delas, você tem que esperar uma certa resistência do público em aceitar o argumento com respeito. Era uma ideia trash que com certeza resultaria em um filme trash, mas este primeiro longa do diretor James Gunn, dos magníficos Super e Guardiões das Galáxias, não se contenta em mostrar apenas aquilo que se espera de um filme sem ambição. Apesar de acontecer com frequência, Gunn não queria ser mais um cara fazendo uma bobagem que ninguém quer ver. Pra comprovar que fez o dever de casa, o diretor brinca com todas as referências necessárias para passar no teste dos fãs de terror, nós vemos A Morte do Demônio, A Noite dos Mortos Vivos e em proporções menores, A Coisa, O Exorcista e vários outros em cenas por todo o filme. Gunn sabia que com um plot desses corria o risco de não ter nenhum retorno financeiro, mas queria garantir que quem desse ao seu filme uma chance, teria a confirmação de que ele sabia o que estava fazendo e que iria honrar o voto de confiança.

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O roteiro, escrito pelo próprio Gunn, que também assina a mais recente versão de madrugada dos mortos, é consistente e dirigido de modo a fazer com que os momentos mais grotescos sejam memoráveis sem sobrecarregar o filme. Os atores são ótimos e atuam com seriedade, como se tivessem sido instruídos para ignorar o absurdo do que acontece ao redor. Sem caretas ou exageros. Seres Rastejantes certamente não é o primeiro a romper os limites do trash e se preocupar com a qualidade, mas eu acho que há bastante mérito no filme em apresentar diversas situações típicas de uma forma diferente. É interessante que a história de amor seja pouco convencional, assim como a história de traição e o ataque sexual que se segue. Existe uma magnífica cena de perseguição que envolve ao mesmo tempo muitos e apenas um vilão. Até Alien – O Oitavo Passageiro aparece no modo como Grant, o paciente zero é contaminado, mas de forma inversa. Ao invés de nascer de Grant como aconteceu com John Hurt, a lesma busca refúgio dentro da barriga dele. O filme inteiro zomba de caçadores de veados, até que um deles tenha destaque no filme e a gente simplesmente espera ver um caipira com um rifle abatendo o animal.

Como se trata de um organismo com um plano de ataque, Grant até mantém um pouco de autonomia por um tempo, mas quando sua aparência começa a se modificar de uma forma assustadora, não procurar ajuda médica é uma grande indicação de que o cidadão endinheirado da cidade passou para o time dos invasores. Sua esposa, a linda e doce professora cobiçada por todos, demora pra entender o que está acontecendo com o marido, mas parte dela o estopim que faz de Seres Rastejantes tudo aquilo o que o filme estava prometendo com piadas inteligentes e muita tensão: uma divertida luta por sobrevivência, com o time dos humanos perdendo vergonhosamente. A contaminação se espalha sem poupar ninguém e o invasor é inteligente o suficiente para impedir que o problema seja denunciado para as autoridades externas, como se tudo não passasse de uma esquisitice normal de cidade pequena.

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James Gunn passa no teste, não porque mostra que estudou os clássicos, mas porque tem a própria voz e não tem medo de usá-la em uma vertente do terror pouco respeitada. É assustador quando o vilão fica na companhia de apenas um bebê em um cômodo, mesmo que o momento seja repleto de bom humor, assim como ter visto zumbis se aproximando aos bandos dos heróis em diversos filmes, não diminuiu o impacto neste aqui. A melhor coisa no entanto, acontece como uma breve homenagem à A Hora do Pesadelo, que pode ser reconhecida na própria capa do filme. Você não imagina que uma personagem superficial em diversos sentidos, aparecendo do nada na metade do filme, brilhe com tanta intensidade na cena da chegada das criaturas na casa, a ponto de carregar carisma pelo restante do filme. Quando aparece pela primeira vez, a personagem recebe um destaque meio sem sentido naquele momento, mas fica claro que era uma provocação do diretor, como quem diz que tem a habilidade para nos fazer torcer por aquela desmiolada, como se ela tivesse usufruído do mesmo tempo de cena que os personagens principais.

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