southbound

Uma história de terror compartilhada por vários diretores.

Dois homens ensanguentados e apavorados, segurando a foto de uma criança, dirigem pela estrada fugindo de figuras fantasmagóricas que flutuam do lado de fora da janela. Na lanchonete onde eles param, George Romero faz uma visita na tv e nenhum dos clientes se abala com terremotos que sacodem o local ou com a quantidade de sangue nas roupas dos dois forasteiros. De volta à estrada, o cenário ao redor se repete até que os homens do carro cansem e desistam. É bom dizer que existe mais nesta história do que vemos a princípio, mas ela é apenas a primeira neste apanhado de contos de terror, que se apresenta de um modo um pouco diferente dos demais.

Vários diretores trabalham no filme. Isso geralmente significa que você irá se lembrar e gostar de alguns blocos mais do que de outros, acompanhar mudanças bruscas de estilos e esperar o desfecho de um segmento para que outro se inicie, mas Southbound não segue as regras que outros filmes desta categoria crescente do terror seguem. Não existem telas com títulos ou mesmo uma ideia clara de transição entre as partes. Personagens de uma história podem estender a participação para outra história, com papéis importantes mesmo que o rumo seja completamente diferente. Todos os contos são sobrenaturais e acontecem em locais próximos. É como se algo acontecesse com um dos diretores no meio das filmagens e outro tomasse o seu lugar, seguindo outro grupo de pessoas, em outra direção e assim sucessivamente. É o mesmo filme, com um cineasta continuando a história de onde o outro parou.

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Uma característica positiva desta nova abordagem às antologias é a consistência. São visões diferentes, mas isso pouco transparece. A única coisa que destoa a harmonia um pouco, é a quarta história que parece ser isolada das demais em termos de estilo de filmagem e relevância no filme como um conjunto. Mas no geral, o filme saberia enganar alguém que assiste sem acesso à ficha técnica, passando a impressão de que apenas uma pessoa está por trás de tudo e ela tem uma imaginação bem fértil. Até a fotografia e a trilha também parecem não mudar muito pelo filme todo e a melhor coisa é não ficar esperando um segmento acabar logo para que outro comece. Quando percebemos que tá todo mundo preso no mesmo pedaço amaldiçoado de terra, fica claro que deixar um personagem para seguir outro não vai mudar isto.

Agora, a mesma locação não faz de Southbound um filme chato, ou limitado. Não é somente a sensação de continuidade que prende o público, já que isto também não é motivo em nenhum outro tipo de narrativa. É um filme muito interessante, que sabe segurar todo mundo na cadeira até quando a gente sabe mais ou menos o que está por vir. O medo é genuíno.

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A segunda história literalmente invade a primeira com a abertura de uma porta. Sem aviso, estamos acompanhando três jovens mulheres a caminho de um show de música no qual elas tocam. O carro quebra e elas aceitam a carona de um casal que é a simpatia e a tensão em forma de gente. Como nos outros contos, não há muito tempo para um histórico além do que é convenientemente mencionado, com o propósito de fornecer pistas sobre os personagens e ainda manter o mistério. Por causa disso, ficamos sabendo que a banda feminina costumava ser formada por quatro integrantes, o que poderia ter sido uma certa vantagem em cima do casal e das intenções malignas que esperamos deles desde o começo, só que é impressionante a capacidade dos pombinhos em multiplicar o próprio time, ao mesmo tempo que desestabiliza o time oponente.

O ponto alto do filme é a terceira história, com um motorista, uma garota acidentada e uma equipe de médicos orientando os primeiros socorros pelo telefone. Com o nome de O Acidente, este é uma parte tão tensa e bem escrita do filme, que a falta de contexto para o personagem principal, de motivos para o vilão ou de um final convencional não fazem a mínima diferença. É um segmento que sozinho, compete de igual para igual com alguns dos melhores episódios de Além da Imaginação. É uma pena que a quarta história, sobre um homem em busca da irmã desaparecida, não consiga manter o pavor do anterior, já que escolhe fazer o oposto com muito mais antecedentes do que atenção ao presente. A última, é sobre uma família atormentada em casa por invasores, com um twist previsível, mas que fecha o filme como poucas antologias fecham. Na direção está aquela turminha dos novatos de sempre do terror, atacando o cinema com seus episódios macabros mais uma vez. Obs.: Amei a capa do filme!

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