Como prometido, entrego esta lista de modo apropriado, ou seja, antes do início do próximo ano. Em breve, teremos também a lista dos piores do ano, mas antes de mais nada, algumas menções honrosas:

Uma Noite de Crime 3 e Invocação do Mal 2, duas sequências que conseguiram manter os elementos que deram certo nos filmes anteriores, sem cair na mesmice e melhor, abrindo o caminho para mais continuações.  O sul-coreano O Lamento, que não entrou na lista oficial por ser um pouco regional demais, apesar de ser imperdível e dar medo. A comédia de terror The Greasy Strangler que é o filme mais absurdo da década, com a história de um pai assassino que mantém um “turismo da era disco” com o filho como negócio, mas que teme mudanças irreversíveis com a chegada de uma mulher entre os dois. Trilha sonora hilária, um figurino que oscila entre só cueca e algo ainda mais inapropriado, diálogos ridículos e alguns assassinatos nojentos em um filme que é uma fábrica de memes e que eu estou recomendando aqui, já sabendo que receberei xingamentos e agradecimentos das mesmas pessoas. Por último, eu sei que você já viu o Sacramento, e outras versões cheias de liberdades da história do líder religioso Jim Jones, que levou todo o culto ao suicídio em massa nos anos 70, mas preciso mencionar The Veil por alguns motivos. O filme é de arrepiar e menos previsível do que se imagina, mas a melhor razão para não deixar este passar, é conferir o ator Thomas Jane finalmente brilhando pela na carreira no papel do maluco Jim Jacobs.

Atenção à regressiva:

10 – O Boneco (The Boy)

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Quem nunca viu um filme sobre uma babá contratada para cuidar de uma criança morta, que atire a primeira pedra! Quem nunca viu um filme mal feito sobre um boneco assassino, que atire a segunda! Meu entusiasmo com este filme era zero. A única coisa que eu esperava de O Boneco era me irritar com uma versão masculina de Annabelle, fazendo barulhos estranhos no meio da noite e provocando mortes aleatórias sem sair do conforto da imobilidade. Para a sorte de todos, o diretor William Brent Bell, que já fez uma podreiras no passado, se mostra tão cansado delas quanto nós e redescobre o advento da simplicidade. Já ouviu falar daquela história, de que entre duas explicações possíveis para um evento misterioso, a mais simples provavelmente é a verdadeira? Tudo bem que, não há nada muito simples na história dos pais idosos que contratam uma babá para cuidar de um boneco, largando a mulher sozinha com o objeto por meses em uma velha mansão, mas que maravilha que o filme tome o rumo que iríamos esperar na vida real, ao invés do percurso batido e cansativo que o cinema de terror insiste em seguir. Outro mérito da direção é durante o filme mudar o foco do terror, sem deixar diminuir a ansiedade provocada no público.

9 – Águas Rasas (The Shallows)

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Águas Rasas derruba uma regra que eu considerava sagrada no terror, fazendo com que o vilão do filme apareça o tempo inteiro. Só que ao invés de diminuir o impacto da presença do tubarão com tantas aparições, o filme funciona precisamente por esse exagero. O bicho não dá trégua para a surfista que invadiu o território dele. Independente do tempo que decorre no filme, a cada vez que o animal arrisca um ataque, nós acreditamos que é o fim da garota.

Na história, Nancy é uma surfista em luto pela morte da mãe, que abandona a faculdade de medicina para procurar as ondas que a mãe surfou na juventude. Em uma viagem de auto-descoberta, ela encontra o lugar dos sonhos de qualquer surfista e consegue curtir a praia completamente sozinha por boa parte do tempo, até ficar ilhada em um local que está desaparecendo pouco a pouco com a subida da maré, sem conseguir pedir ajuda, com a perna sangrando e com um tubarão tentando devorá-la. Enquanto o Syfy Channel cai em desgraça todos os anos, usando tubarões em pseudo-filmes de terror, cheios de efeitos horrorosos e quase sempre criando um híbrido entre o animal e alguma outra desgraça (Sharknado), Águas Rasas replica o êxito de Spielberg de uma forma diferente, fazendo com que o público volte a ter medo do mar e hesitar entrar nele em qualquer praia.

8 – EMPATE – Quando as Luzes se Apagam (Lights Out) / Siren

Este ano produziu dois longas que foram extraídos de ótimos curtas de terror. Ambos eram filmes que precisavam ser feitos e foram feitos com respeito ao material original, utilizando atores dos curtas e fornecendo panos de fundo para as histórias, que a pouca duração não consegue permitir.

Em Quando as Luzes se Apagam, o diretor do curta recebe tempo e dinheiro para se aprofundar nas origens e motivos da criatura que só aparece no escuro, mostrando que, se for preciso, consegue esticar muito bem os truques que tem na manga. Já era fã dos curtas do cara, agora fico no aguardo dos seus próximos filmes.

Siren é a adaptação para longa metragem do primeiro curta do primeiro filme da trilogia V.H.S.(Amateur Night), sobre os rapazes com um óculos-câmera que depois de uma noitada, levam uma entidade sobrenatural em forma de mulher para o quarto com eles. A mesma atriz interpreta o papel principal neste filme sobre quatro rapazes que visitam um clube exclusivo, para celebrar a despedida de solteiro de um deles. No local eles encontram aquela que é uma atração irresistível e tentam fugir com ela, para o desespero de todos. Siren consegue desenvolver uma história que nem história tinha, de uma maneira muito imaginativa. O filme é divertido, cheio de surpresas e apavorante.

7 – Hush

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Este chegou sorrateiro no Netflix e não parou de surpreender. Desde a remoção da máscara do assassino, transformando o psicopata em uma pessoa de carne e osso logo no início do filme, até o uso da surdez da protagonista como uma ferramenta de vantagem em uma situação de perigo. Por mais que o sub-gênero “invasão domiciliar” esteja saturado, Hush aumenta os riscos do jogo entre perseguidor e perseguido, isolando a casa das redondezas e isolando a vítima do mundo, com um vilão do lado de fora, adorando a dificuldade extra da moça e a mudança que isto significa para o trabalho dele.

A escritora surda e solitária Maddie, tem a habilidade de imaginar terríveis finais para a sua própria história, sem poder gritar por socorro. Um desses maníacos que surgem no cinema de terror, aparece na janela dela e não concede nenhum privilégio para a moça. O erro dele é subestimá-la. Hush é movimentado e muito violento, o que é normal em slashers, e silencioso, o que é uma novidade interessante.

6 – Sala Verde (Green Room)

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Uma banda de rock sem dinheiro ou fama, aceita tocar em um bar afastado da cidade, para um público de skinheads. O que já não era um trabalho muito bom, fica ainda pior quando eles descobrem um assassinato, e o quão profissionais são os simpatizantes do neo-nazismo.

Tudo o que é pra ser temido não decepciona. Traficantes, supremacistas brancos e até cachorros grandes. Com o professor Xavier como líder (Patrick Stewart como eu nunca tinha visto), uma equipe sanguinária de cabeças-raspada tenta impedir que a banda fuja do local ou chame a polícia. As táticas do grupo são de enojar os estômagos mais fracos, mas elas não são gratuitas, os nazistas querem se preservar. Se quiserem sobreviver, os roqueiros terão que aprender rápido a trabalhar com a mesma fúria e desdém pela vida alheia.

Sala Verde é uma briga por sobrevivência do início ao fim, sem aquela costumeira sede por vingança e com a dianteira da situação mudando de lado o tempo inteiro. É uma catástrofe inacreditável e ao mesmo tempo plausível, por que são personagens bem interpretados em um ambiente onde violência é esperada.

5 – Sob as Sombras (Under the Shadow)

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Este filme falado em persa se passa nos anos 80 em Teerã, capital do Iran e que trabalho magnífico da produção, que conta com vários países incluindo a Grã-Bretanha, em reproduzir o visual e o clima do país que na época enfrentava uma guerra, enquanto tentava se ajustar à recente revolução islâmica. No filme, mãe e filha ficam sozinhas em seu apartamento, em um prédio que, assim como a cidade ao redor, vai sendo esvaziado pouco a pouco por conta dos bombardeios. Com a civilização voltando no tempo e resgatando costumes retrógrados, uma conhecida entidade malígna começa a aterrorizar as moradoras, que vão se distanciando e perdendo o respeito uma pela outra.

Sob as Sombras é um daqueles filmes em que o público grita “Saia da casa! Saia da casa” de tão tenso e apavorante que é, mas a sensação de que mãe e filha precisam deixar tudo para trás, não é tão forte quanto saber o destino pós-fuga, porque ele é muito importante. A lenda por trás das aparições que invadem o apartamento, dentro dos sonhos e na vida real, diz que para onde houver medo e ansiedade, os ventos carregam a maldade, e o país inteiro estava e ficaria muito tempo nesta atmosfera de insegurança.

É uma belíssima história, cheia de simbolismos sobre perdas, de entes queridos e sonhos, com um vilão que aparece em várias formas, tirando liberdades e forçando escolhas que ninguém quer fazer.

4 – Rua 10, Cloverfield (10, Cloverfield Lane)

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Neste ano de adaptações e continuações, nada mais oportuno do que um filme sobre monstros (mas não o mesmo monstro), com quase o mesmo título (mas que chama a atenção para a diferença nos endereços), daquele outro terror lançado em 2008, sem ser uma sequência ou uma história paralela. Sem a grandiosidade espalhafatosa de Cloverfield – O Monstro, ou a clareza sobre quem é o inimigo a ser combatido, Rua 10, Cloverfield dispensa a câmera na mão, mas não o pressentimento de que o perigo está sempre próximo, estando longe de ser um filme picareta pegando carona no sucesso de outro.

Depois de um acidente na estrada, Michelle acorda no abrigo subterrâneo de Howard. Ele a informa que a razão pela qual ela se encontra lá e não em um hospital, foi um ataque de origem desconhecida que está matando muita gente pelas ruas, tendo acontecido no exato momento em que Howard a salvou dos destroços do carro. Michelle é uma maravilhosa protagonista que ao lado de Emmett, outro sobrevivente salvo por Howard, faz com que o público transcenda as paredes daquele abrigo onde se passa a maior parte do filme. Juntos eles descobrem com o passar dos dias que o dono do abrigo, apesar do heroísmo, não é um adepto do “unidos venceremos” como era a galera do filme de 2008.

O filme tem Mary Elizabeth Winstead, que você deve se lembrar como a musa de Scott Pilgrim e o ator John Gallagher Jr, de quem eu sou fã desde Newsroom e que está em outro filme desta lista, mas a estrela do filme é John Goodman, que eu já tinha visto em vários papéis não-cômicos antes, mas nunca sentindo tanto pavor do ator de carinha inofensiva.

3 – O Homem das Trevas (Don’t Breath)

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E o melhor “eles não sabiam com quem estavam se metendo” do ano, chega na forma de outro filme de terror que não usa uma deficiência física como sinônimo absoluto de fraqueza. O Homem das Trevas é sobre três ladrões que invadem a casa de um veterano de guerra cego, que perdeu a filha em um acidente e recebeu muito dinheiro com o acordo do processo. Com o alvo afastado da vizinhança e na condição em que se encontra, este é o famoso trabalho fácil e extremamente lucrativo que vai tirar os ladrões da miséria e da profissão para sempre, mas há um detalhe: a vítima e o quanto o idoso adora uma briga.

Sem dar ao cego poderes sobrenaturais, apenas um cachorro e uma personalidade que estabelece respeito e indica destreza, o filme vende muito bem a ideia do aprisionamento do trio criminoso no meio de uma cidade grande. Escapar de um homem velho e com necessidades especiais se torna realmente uma tarefa impossível, a partir do momento em que a casa é invadida. Não restam dúvidas sobre o perigo que o veterano representa ou sobre a nossa torcida pelos parasitas da sociedade, então o que resta é ver bandido se dando mal, depois vítima se dando mal, depois bandido, depois vítima, bandido, vítima…

2 – Invasão Zumbi (Busanhaeng/Train to Busan)

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Eu conheço as minhas preferências pessoais, mas gostar do sub-gênero zumbi acima dos outros dentro do gênero terror, não seria o suficiente para colocar este filme entre os melhores colocados da lista. No geral, foi um ano muito bom para nós fãs e a competição era forte, mas Invasão Zumbi me entreteve mais, me apavorou mais e me deixou com um pouco menos de fôlego do que muitos filmes de zumbis bons e outros filmes celebrados neste inventário. Meu Deus, que filme divertido! Não haveria nada demais na história de alguns passageiros de trem, viajando de Seul para Busan em meio a um apocalipse, se não fossem os maravilhosos detalhes que fazem deste filme a futura referência para os cadáveres que se levantarão no cinema.

Primeiramente, a ação é rápida demais para que os vários personagens desenvolvam personalidade, mas o diretor não usa isso como desculpa. Existe evolução individual, tempo para aprender a enganar o inimigo e uma criação razoável de vínculos, em meio ao caos de um veículo em movimento repleto de mortos-vivos. Não há um segundo de calma, o povo tá sempre correndo e quando todos param, é para não chamar a atenção de dezenas de zumbis que atacam mesmo sem fome. A gritaria que se espera em filmes como este não irrita, porque é concentrada em pequenas porções que aumentam a tensão momentaneamente mas depois desaparece, para que planos de fuga sejam feitos com coerência. A melhor coisa no entanto, são os próprios zumbis. É um gênero que de tão usado estava perdendo força, mas os mortos deste filme parecem ter sido retirados de Extermínio e alimentados com crack. Eles são muito rápidos, mas não irreais como os de Guerra Mundial Z. São insaciáveis, incansáveis mas com um pequeno, mas criativo defeito. Por que todos os filmes de zumbis não são como este? Pô terror, nunca te pedi nada!

1 – A Bruxa (The Witch)

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Podem me xingar à vontade, A Bruxa é uma obra prima! Eu não verei o filme novamente por um bom tempo, por apenas um motivo: medo! O único filme que me encantava ao mesmo tempo que me provocava aversão era O Iluminado e eu procurei por anos por um semelhante à altura. Existe uma atmosfera de maldade plena em cada cena, não na história, que é comum e confusa como contos verdadeiros descritos por gente simples, o filme em si parece estar amaldiçoado. Até quando não há nada além de crianças inocentes na tela, existe a impressão de que algo ruim está para acontecer, ou está acontecendo por perto. Ninguém está a salvo no filme e não existe um lugar seguro, não importa para onde a câmera aponte. A natureza ao redor não traz sustento ou beleza e qualquer um pode cometer um ato de violência fatal, inclusive os animais.

Com um retrato fiel e ainda menos atraente do que a época em si, o filme conta a história de uma família de cristãos extremistas, que para seguir o livro sagrado “da maneira correta”, abandona a segurança de uma comunidade de gente parecida, para viver em um pedaço de terra infértil, cercado por uma floresta densa e afastado de todos. Isolados e aflitos com a colheita escassa, eles sofrem um golpe terrível quando o bebê da família desaparece sob os cuidados da filha mais velha. Vendo que toda a devoção que têm por Deus não os poupa de sofrimento e dificuldades, e com a possibilidade de uma explicação sobrenatural para todos os males, os membros da família iniciam algo que se tornaria frequente entre os seus compatriotas nas décadas seguintes: uma verdadeira caça às bruxas.

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