Eu vou falar realmente sobre as decepções, sobre os filmes dos quais se esperava alguma coisa. Porque todos os anos, os estúdios lançam trashs que se não existissem, não fariam falta nenhuma, então pra que fazer uma lista sobre o que ninguém queria ver para início de conversa? A ordem deste texto deve ser vista de modo inverso, com o filme mais longe do primeiro lugar sendo o menos pior. Eu devo ressaltar o que escrevi na outra lista sobre o ano ter sido generoso com o terror (2016 tinha que servir pra alguma coisa, certo?), portanto, tudo o que é ruim abaixo ainda pode te divertir, se você não estiver em um dia muito exigente.

10 – O Demônio de Neon (Neon Demon)

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Para cada ex-modelo que abandona a profissão com uma bagagem de histórias terríveis para contar, mil garotas fingem que não a escutam. O diretor de Drive tem todo o meu apoio para fazer de O Demônio de Neon uma espécie de Mullholand Drive do mundo da moda e alertar jovens sonhadoras sobre a crueldade, a superficialidade e a curta carreira que as esperam neste negócio. Mas eu queria um filme de terror, não um super estiloso, mas falho, serviço de utilidade pública. Não estou dizendo que anjos da Victoria Secret, em bandos, não possam se tornar vilãs assustadoras, só que outras modelos são o menor dos problemas de uma jovem promissora na profissão.

É muita atenção dada à iluminação, às sequências de silêncio, à juventude de Elle Fanning e eu entendo que o mundo da moda é exatamente assim, mas o apelo visual é um dos pontos fortes do diretor. É o que ele sempre gostou de fazer. Então o que deveria ser uma denúncia, vira uma homenagem e o que deveria ser terror vira um exagero de imagens paradas e contemplativas. Quando algo interessante/assustador/violento acontece, aparece em sonho ou no escuro ou nem aparece.

9 – O Sono da Morte (Before I Wake)

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Se você me perguntasse há exatamente um ano, qual era o terror que eu mal podia esperar pra ver, a resposta seria O Sono da Morte. Desde que eu vi o trailer pela primeira vez, minha mente fervilhou com as possibilidades que o roteiro poderia trazer. Na história, o casal Jessie e Mark perdeu um filho recentemente e decidiu adotar Cody, que apesar de ser um amor de menino, tem um estranho histórico de tentativas frustradas de adoção. Ele é educado, gentil, confia imediatamente nos pais adotivos, mas faz de tudo para não cair no sono. Visitados por belas imagens e, com o passar das noites, vendo e interagindo também com o filho morto, o casal descobre que Cody tem o poder de transformar seus sonhos em realidade enquanto dorme.

Um conceito bem criativo, certo? É uma pena que o diretor não soube explorar o tema e fez com que o filme tenha o mínimo de imaginação a partir de uma ideia cheia de promessa. O modo como Cody passa a ser explorado assim que se transforma em uma ponte entre vivos e mortos, é de se esperar, o problema é que você tem sonhos e pesadelos esperando para aparecer e limita o filme a borboletas e entidades malignas. Eu também aceito a explicação para a entidade numa boa, mas o que ela está fazendo neste filme? Tire ela dali e coloque o que realmente falta, como cenas da vida do casal fora de casa, empregos, amigos, sonhos embaraçosos e confusos. Transformaram um filme grandioso em um curta esticado e eu não entendo o por quê.

8 – O Quarto dos Esquecidos (The Disappointments Room)

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Na casa nova, antes que qualquer coisa estranha aconteça, a trilha sonora grita: “Atenção! Atenção! Este é um filme de terror!”, mas se o problema fosse apenas a falta de sutileza o filme não estaria aqui. Existem bons aspectos, como histórias paralelas na medida certa, sem sobrecarregar o filme e a inovação de ter a mãe da família trabalhando fora, enquanto o pai banca o John Lennon. Personagens tridimensionais vivos e mortos e um ótimo pano de fundo para o quarto em questão. Mas assistir a O Quarto dos Esquecidos é… um pouco como dançar quadrilha.

As pinturas malignas foram removidas da casa e queimadas… é mentira!! O cachorro dos infernos está atacando o filho! É mentira! O cara foi morto pelo fantasma! É mentira, ele se enforcou… é mentira! A mãe ficou presa no quarto por horas! É mentira! Olha a chuuuuvaaaa…

Colocar um ator de rosto conhecido para interpretar o fantasma/vilão também é um erro. Fica difícil associar perigo, com os outros trabalhos do cara em mente, assim como fica difícil saber qual é realmente o perigo que o lugar representa. Pesadelos? Alucinações? Violência Física? Olha a cobraaaa!

7 – A Escuridão (The Darkness)

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Vejamos… bulimia, traição, alcoolismo, um filho com necessidades especiais, pressão no trabalho… tudo isso antes da viagem em família ao Grand Canyon, trazendo um abacaxi sobrenatural pra casa. Apesar dos problemas, a simpatia que o filme força na família não ajuda com um elemento fundamental: nada no filme me deu medo. Eu não estou falando apenas dos espíritos, que deixam sujeira pela casa, abrem torneiras por nenhuma razão e de vez em quando se transformam em bichos. Eu não temia que a distância entre marido e mulher os levasse a um divórcio, ou que o marido perdesse o emprego, ou se os jovens irmãos nunca se dessem bem. O filme conta com ótimos atores em vários papéis, mas o roteiro não é convincente. Eu não acreditei em nada. A pior coisa é assistir a um filme por obrigação e foi isso o que eu fiz com A Escuridão, porque era visível que o esforço para realizar este filme era mínimo. Talvez o diretor dos bons Wolf Creek e Morte Súbita quisesse dinheiro rápido, ou estivesse ocupado demais com o próximo projeto.

6 – O Monstro (The Monster)

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Kathy, a destrambelhada eterna adolescente está levando a filha Lizzy para morar com o pai. Lizzy é a verdadeira adulta da família e não aguenta mais a vida de baladeira da mãe. Não há nenhum respeito de nenhum lado e a convivência entre as duas se tornou insuportável. Em uma estrada pouco movimentada tarde da noite, elas sofrem um acidente e o carro quebra. O celular funciona e elas pedem ajuda, mas enquanto o resgate não chega elas ficam à mercê de um predador gigante. O Monstro é um terror independente que começa tão bem, que eu tinha fé que veria um Cujo atualizado, mas o filme se perde ao longo do caminho e vai ficando cada vez mais chato e desinteressante. Mesmo com o auxílio de flashbacks, que na verdade são bem desnecessários para acentuar a deterioração da relação entre mãe e filha, é uma enrolação tão grande para fazer com que o filme ande, que você até começa a torcer pela criatura. Os momentos que deveriam ser tensos se estendem por muito tempo e não há habilidade para segurar o suspense. As atrizes são muito boas e o diretor é um cara competente, mas faltou bastante história nessa história.

5 – Do Outro Lado da Porta (The Other Side of the Door)

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Presenciando o sofrimento de uma mãe com a perda do filho, agravada pela culpa de não ter conseguido salvar a criança, a empregada faz uma sugestão extremamente idiota. Que tal trazer o moleque de volta, só por alguns minutos, mas não permitir que o mortinho fique por muito tempo mesmo que ele implore? Qualquer mãe abriria as portas do inferno pra trazer o filho de volta! Mas o problema nem é uma ideia macabra que não tem como dar certo, porque o cinema está cheio dessas, o problema é arrumar encrenca e não querer que ela vá embora, até quando a encrenca começa a ficar violenta com a outra criança da casa. O problema é um espírito que muda de personalidade sem que haja muito sentido e o surgimento de outro espírito do mal, que nem era uma possibilidade quando a ideia foi dada para a mãe.

O filme trabalha bem a relação entre os familiares e começa com bons sustos, que acontecem quando menos se espera, mas logo eles começam a ficar frequentes e comuns e tudo declina para um festival de clichês.

4 – Morgan

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Bem vindos ao filme mais recheado de estrelas nesta lista, interpretando os piores profissionais do mundo. Morgan prometia ser bem parecido com Ex Machina e é em vários aspectos, menos no mais importante, que é responder com clareza se a inteligência artificial representa riscos para a humanidade. Aqui a resposta é tão nebulosa, quanto as razões pelas quais um grupo de cientistas insiste em fazer apologia para um robô violento, ao mesmo tempo em que tortura o negócio com elementos de uma vida normal e questionamentos que ela não foi programada para responder.

No filme, Morgan é um cruzamento entre humanos e tecnologia sintética, que está sendo criada em laboratório, onde cientistas a enchem de amor e experimentos. Testada ao limite do que foi ensinada a aguentar, a “garota” ataca uma “colega” e provoca uma ação emergencial dos donos do complexo científico, que não fazem nada a não ser continuar testando a criatura, até que nada reste além de um plano de fuga.

3 – Holidays

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O filme conta com vários segmentos, e nenhum deles é muito bom ou memorável, sobre o terror invadindo os principais feriados comemorados pelo mundo. O lado bom das antologias é que se você não gosta de uma história, ela acaba e logo começa outra, mas Holidays tem curtas tão arrastados e chatos que não há vantagem no formato.

Além de natal e ano novo, tem páscoa, dia dos namorados, das mães, halloween, mas o único segmento bem escrito e dirigido é o do dia dos pais. A atuação, o suspense e a fotografia nele são impecáveis, mas apenas um curta não é o suficiente para compensar pelos outros.

2 – Floresta Maldita (The Forest)

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Sara está no Japão procurando pela irmã gêmea que desapareceu na floresta Aokigahara, que não é um lugar que necessita de truques manjados de filmes de terror, para parecer amaldiçoado. Em um país onde suicídio é uma prática quase comum, a floresta é na vida real o local escolhido por muita gente desiludida com a vida. Fazer um filme de terror sobre um assunto delicado de outro país já seria complicado, sem que Floresta Maldita faça um trabalho bem porco com o roteiro.

Não existe nada que redima Floresta Maldita. Que diferença faz ir para o local com a ideia de suicídio, se a Aokigahara precisa forçar a morte provocando alucinações? Alucinações bem idiotas e cheias de clichê, eu devo acrescentar. Com a progressão do filme, todo o fascínio macabro do lugar real, todas as teorias que poderiam ser criadas para explicar a triste escolha de tanta gente, dá lugar aos sustos gratuitos, espíritos vingativos e outras baboseiras sobrenaturais. Pra que usar um lugar místico de verdade, se ele irá se transformar em um lugar comum de filmes de terror?

1 – Yoga Hosers

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Alguém pode me explicar o que aconteceu com Kevin Smith aqui? Esse costumava ser um diretor respeitado, com seus independentes sensíveis, suas comédias despretensiosas, algumas bem fraquinhas, mas nada com este nível de palhaçada. Por mais da metade do filme, você é enganado achando que só está assistindo a uma bobeira dispensável, até que se revela que os vilões são “salsichas nazistas” e o negócio vira o pior filme da carreira de todos envolvidos no projeto.

Smith escalou para os papeis principais a própria filha e a filha de Johnny Depp, que todo maquiado também participa do filme. Elas interpretam Colleen e Colleen, duas balconistas canadenses (como uma auto-homenagem de Smith), que também são vocalistas de uma banda e vivem quase que o dia inteiro com o nariz enfiado no celular, até que por motivos que sinceramente nem importam, os nazistas retornam da segunda guerra para começar a matar o povo na loja onde as meninas trabalham. O filme é uma piada interna que não dá certo, e parece uma postagem no facebook de pais babões. Olha como as nossas filhas são fofas, salvando o mundo! Tira sarro do sotaque canadense, de praticantes de Yoga e da sua cara também, por assistir a esta porcaria. Só que não provoca nenhuma risada, nem assusta ninguém.

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