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Dirigido por Matt Reeves

A cidade de Nova York recebe a inesperada visita de um gigante destruidor.

Quando eu preciso de exemplos para explicar o que é o estilo found footage, eu quase sempre uso dois filmes. Um é A Bruxa de Blair, o outro é este aqui. Blair, era a representação da simplicidade no terror, mostrando muito pouco, trabalhando com principiantes e pagando esse povo com moedas. Era o modelo de quem queria extrair um bom trabalho tendo poucos recursos. Cloverfield marcou a estreia de J.J. Abrams no mundo do cinema, um produtor que não embarca em nenhum projeto pela metade, ou sem a certeza do retorno nas bilheterias. O filme já começa avisando que a destruição será colossal e não se trata de um povoado no interior de um lugar desconhecido, estamos falando da maior cidade do mundo. O trailer era provocador, o poster era épico, não era uma propaganda com base no boca a boca, e Cloverfield se tornou outro modelo de found footage no cinema de terror: aquele que mesmo com a grana, usa a câmera na mão como se fosse um acontecimento casual, para reforçar a ideia do sobrenatural invadindo o cotidiano.

É uma filmagem informal mas importante. Rob está se mudando para o Japão e recebe uma festa de despedida surpresa. Ele irá se tornar o vice-presidente da empresa onde trabalha, e os amigos estão gravando mensagens de boa sorte pra ele durante a festa. Eu nem precisaria dizer que a pior coisa do filme é o cara atrás da câmera, porque isso já é normal nestes filmes, mas o palerma “Hud” faz um esforço sobre-humano no filme para parecer desnecessário. No entanto é através da chatice de Hud, que descobrimos que apesar de Rob ser um homem de sorte nos negócios, ele anda bastante azarado no amor e isto é crucial na história, já que a segunda coisa mais importante do filme é garantir que o mocinho e a mocinha fiquem juntos no final.

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No meio da festa, os convidados começam a ouvir as primeiras explosões. A televisão é ligada e as primeiras teorias sobre terrorismo começam a aparecer. Este foi o modo de remover o elefante branco da sala, antes de dar continuidade ao filme. Quando Cloverfield foi lançado, o One World Trade Center ainda nem havia sido construído e os ataques de onze de setembro não eram uma lembrança tão distante. Colocar os cidadãos daquela cidade pra correr no meio de prédios desabando, diante de uma câmera amadora era uma jogada muito arriscada. Abordar a tragédia, antes que a destruição no filme começasse de fato, como se fosse uma suspeita descartada da história se repetindo, foi uma decisão sábia. Qualquer um teria ficado com as imagens reais na cabeça, impedindo a imersão completa na ficção. Também ajuda ter um monstro feito à imagem e semelhança de Godzilla como vilão, para mostrar que a inspiração para o filme vem de um passado bem mais longe.

Se a pior coisa é o cinegrafista, a melhor é o bicho. Ele aparece pelo filme parcialmente e rapidamente e sempre dá medo. É a lição absorvida sobre descrição e suspense de muitos bons filmes de terror, incluindo Blair, aliada ao excelente trabalho de animação que só muita grana pode comprar. Como quem diz: eu sei que não devo mostrar muita coisa, mas o que eu mostrar vai ser assustador! Ele não tem nome, propósito ou origem, mas é apresentado como uma máquina de extermínio muito mais poderosa do que qualquer arma à disposição do exército. Você até pode pensar que, por maior que seja a ameaça, se esconder dela no maior lugar do mundo não deveria ser difícil, mas o monstro segue o filme revelando que é muito mais perigoso do que se pode imaginar tendo apenas o tamanho como base.

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Com milhões de coadjuvantes no fundo, acompanhamos Rob, Hud e alguns sobreviventes sem nenhum tipo de transporte, tentando sair da cidade que desmorona ao redor deles. Não há economia na hora de mostrar Nova York como ela é de verdade, ela está muito presente quando o grupo percorre o metrô, as pontes e as ruas tão familiares, até pra quem nunca visitou a cidade e sabe que parte da população aproveitar o caos para saquear lojas não é um detalhe cômico ou exagerado do roteiro. Em filmes com tanta gente em fuga, é natural que uma catástrofe após a outra elimine o excesso de personagens, para que a identidade do herói fique clara para o público. Rob perde gente próxima o suficiente para assumir a tarefa de líder, mas ele só mergulha na valentia de verdade quando descobre que pode salvar outra pessoa muito próxima, indo exatamente na mesma direção que o monstro está indo, ao invés de fugir dele.

Não dá pra largar a câmera no chão pra correr mais rápido, porque assim a gente fica sem filme, mas dava pra dar uma maneirada nos berros. Eu entendo a necessidade de gritaria quando se quer passar o desespero de algumas situações, mas em muitos, muitos casos o povo fica aos berros só para adicionar tensão de forma irritante em cenas já bem tensas. Mas apesar da obrigatoriedade das imagens escuras e confusas e da câmera chacoalhando, Cloverfield é um filme bem feito, que mereceu virar referência no gênero. O desenrolar da história é feito em um ritmo que entretém e provoca nas horas certas todas as emoções que quer provocar, mantendo o público grudado na tela do início ao fim do filme. Dá até pra torcer pro pentelho do câmera quando ele está em perigo, por incrível que pareça.

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