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Dirigido por John Carpenter

Aliens dominam a Terra, mas poucas pessoas conseguem notar.

Em tempos de grandes disputas políticas, incertezas econômicas e problemas de comunicação que colocam cidadãos de um mesmo território em pé de guerra, esta joia de John Carpenter lançada há quase três décadas se mostra mais atual do que nunca. A gente pode brincar com a ideia de que Eles Vivem era na verdade um documentário, já que mesmo falando sobre alienígenas e óculos escuros com o poder de desmascará-los, colocando um f maiúsculo em Ficção científica, a arte no filme imita a vida tão bem que fica impossível separar o entretenimento da mensagem de alerta. Carpenter não é nem um pouco sutil quando faz a conexão entre uma devastadora crise financeira e a combinação de dois fatores: a necessidade que alguns têm de oprimir com a inércia voluntária dos oprimidos. O conto no qual o filme se baseia pode ser carregado de fantasia, mas o tema nunca sai de moda e faz o mesmo sentido desde a época em que foi escrito até os dias de hoje, ainda mais com o filme prevendo drones que vigiam as pessoas e atacam quem desobedece as normas.

O herói do filme se chama Nada e é interpretado por Roddy Piper, uma ex-estrela da luta livre que fez nos anos 80 o que Dwayne “The Rock” Johnson faz agora, que é transferir o carisma de um verdadeiro ator do ringue para as telonas. O ex-lutador possui a humildade e a competência para interpretar bem um homem com as mesmas qualidades, e mostra que a mudança de ambiente aconteceu por muito mais do que o desejo de inflar o próprio ego e a carteira. Tipicamente classe operária, Nada é um mochileiro otimista, viajando por várias cidades em busca de um emprego. Ele é bonitão mas bonachão, fortão, mas não muito ágil, é inteligente para notar o perigo se aproximando, mas impulsivo e ingênuo demais para escapar dele com todo o sucesso. Não é exatamente um líder em uma possível luta pela liberdade, mas é um incansável soldado, o que o aproxima mais de nós terráqueos do que a destreza e a frieza de outros heróis do cinema. Agora, a maior qualidade do protagonista é ao mesmo tempo tem muita segurança e nenhuma noção para dizer com toda a seriedade frases do tipo: “Eu vim até aqui para mastigar chiclete e acabar com a raça de todo mundo… e o meu chiclete acabou!”

Chegando em Los Angeles, ele consegue um trabalho informal e faz amizade com Frank (o sempre maravilhoso Keith David), que alivia um pouco a situação precária de Nada, levando o novo amigo para viver com um grupo de moradores de rua. Mesmo com problemas, em conjunto, os sem-teto se ajudam com comida e alojamento. Próximo aos acampamentos, está uma igreja com alguns bons samaritanos que cuidam das refeições de Nada e de um monte de gente com dificuldades. Seriam apenas atos para serem admirados e seguidos, mas quem está atento percebe a movimentação curiosa dos agentes de caridade. Reuniões secretas enquanto uma gravação simula a condução de uma missa e óculos escuros, que os membros da congregação colocam repentinamente até durante a noite, para ver melhor certas pessoas. Como é impossível que todos possuam o mesmo problema de visão e precisem da mesma solução, Nada desconfia de que eles sejam parte de uma seita, mas na verdade eles são um grupo de resistência, em uma guerra que está em andamento há muito tempo sem que a maior parte da humanidade saiba. Apenas os menos favorecidos sentem as consequências desta guerra e por isso ela avança sem freio. Ao acordar do coma do obscurantismo, Nada se vê no lado dos perdedores, mas nem por isso ele foge à luta e trabalha para despertar o resto do seu time.

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Eles Vivem foi feito com um orçamento modesto, como a maioria dos filmes de Carpenter, mas o diretor nunca foi avesso a uma boa bilheteria. Ele quer ser visto, mas nunca se sentiu na obrigação de ser agradável, por isso trabalha de forma barata. Eles colocou no meio do filme uma cena de luta longa entre Nada e Frank, que desafia a paciência do público que prefere algo bem mais rápido enquanto mastiga a pipoca. Para quem ama cinema, é uma cena brilhante, a briga das brigas que serve de inspiração para muitos filmes até hoje. Sapateia lindamente na cara de Batman vs Superman por exemplo, porque parece interminável, é realmente sofrida e tem um significado profundo. É o resultado de Nada tentando fazer com que Frank perceba a realidade ao redor dele, e Frank mostrando ao público uma outra resistência, talvez mais difícil de enfrentar do que os próprios alienígenas.

O filme tem todos os sinais da sua época, mas abraça os clássicos antigos de terror sobre monstros. Ele é bem anos 80 nos efeitos especiais, no mullet do protagonista, nos exageros técnicos e visuais, e nas cômicas cenas de ação, onde escapar das autoridades é fácil, já que policiais convenientemente nunca olham na direção de quem estão procurando. Quando os óculos são colocados é que o filme se transforma em um “Creature Feature” dos velhos tempos. Tudo fica preto e branco, o que transforma a aparência esquelética dos aliens em algo meio robótico, mais apropriado ao estilo antigo. O cenário é limpo e mais simplista, até o nome do filme é velho, e se fosse seguido por um ponto de exclamação não poderia negar de que época foi tirado.

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É muito bom que o diretor não tenha feito de Eles Vivem, uma luta trivial do bem contra o mal, porque por mais complexos que os alienígenas possam ser, ninguém ganha da humanidade neste quesito. Não é a coisa mais fácil do mundo acordar uma pessoa, pergunte pra sua mãe! Ela vai te dizer que na maioria das vezes era uma verdadeira briga. Não se trata apenas de uma oposição à verdade dolorosa, mas de gente que enxerga benefícios pessoais na mentira e que fará de tudo para que a mentira prevaleça. No filme, o povo se divide entre os que não aceitam a escravidão, os que não sabem sobre ela, os que sabem e desejam não saber e os que ajudam a mantê-la. Na soma, os vilões ganham, pois o povo, desunido, sempre será vencido.

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