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Dirigido por Burr Steers

As irmãs Bennet precisam fugir dos mortos-vivos antes de fugir da solteirice.

Eu adoro Jane Austen. Eu amo zumbis. Não teria como dar errado, certo? Bom, logo de cara, uma maravilhosa oportunidade perdida: a de começar o filme como tantas outras adaptações começaram, com pompa e beleza, para só depois manchar os impecáveis cenários, vestidos e flores de sangue. Antes que os futuros casais principais se conheçam, décadas antes, uma praga tomou conta da Inglaterra, poupando apenas alguns refúgios em Londres e em áreas rurais. Os mortos se levantam e atacam vivos há tanto tempo, que mandar os filhos para estudar artes marciais em outros países, se tornou um costume Britânico. Os filhos dos ricos vão para o Japão, os dos pobres, para a China. Ninguém lançaria um filme com este título presumindo que o público não saiba o que vai ver, mas eu acho que seria melhor se a população fosse surpreendida com ocorrências crescentes da epidemia, ao invés de estar acostumada com o uso de kung fu, karatê e armas de fogo para preservar seus jogos de cartas e estilo de vida nobre.

Se você já leu a história, ou assistiu a pelo menos uma das várias adaptações do livro de Austen para o cinema, não verá muita novidade em relação à sequência dos eventos. Mesmo com o sobrenatural invadindo a Inglaterra vitoriana e trazendo diversos vilões, a gente já sabe quem é o sujeito mais perigoso do local. É claro que quando o filme mistura golpes de luta muito bem treinados, com diálogos em língua antiquada de uma conversa entre as irmãs, ou de uma proposta frustrada de casamento, é uma mudança bem imaginativa. Também são bem vindas certas liberdades com a narrativa original que a tornam mais simples, para que haja tempo para o elemento extra do filme e para deixar a história mais clara. O lado romântico do filme sofre um pouco com isso, já que as pessoas precisam ignorar o bom senso e se apaixonar mais depressa, ou com menos oportunidades de convivência. O bom é que o terror, mesmo contando com menos cenas ainda, funciona perfeitamente e com uma bizarrice que eu não via desde a segunda e mais ousada versão de Madrugada dos Mortos.

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Todos os personagens que esperamos estão presentes. O Sr.Darcy, além de rico e preconceituoso, virou um militar especializado em caçar e matar os zumbis. Estes, respeitando a tradição dos filmes sobre este tema, seguem regras próprias em relação ao desenvolvimento da contaminação. Eles só viram zumbis em full time, quando se entregam ao desejo mais primitivo (ou clássico, se preferirem) da sua espécie. Alguns deles também conseguem falar educada e articuladamente como manda Austen, e planejar ataques organizadamente como ordena Romero. Elizabeth Bennet continua sendo a mais orgulhosa entre as irmãs, mas nenhuma das outras jovens Bennet fica atrás de Lizzie ao enfrentar os mortos vivos. A assistência masculina só é requisitada para o matrimônio. Bingley se encanta com Jane à primeira vista, o primo Collins continua sendo um porre… apenas Lady Catherine muda, resolvendo ser um estorvo a menos na vida alheia diante do apocalipse.

É necessário que o público esteja familiarizado com Orgulho e Preconceito, antes de ver Orgulho e Preconceito e Zumbis, porque o roteiro conta com isso. A graça do filme está em saber que a mistura de gêneros não deveria combinar nunca, mas isso só funciona se temos conhecimento prévio dos personagens e locais, para adicionar mentalmente os detalhes que o filme deixa de fora. Tendo este entendimento informal com quem assiste sobre o romance, resta deixar o terror muito bem amarradinho, mas isto não acontece. Por alguma razão, o filme inclui o tempo inteiro, questões que nunca são respondidas e cenas mal resolvidas. O pior é que a história sobreviveria sem estas inclusões, o que me leva a acreditar que o filme foi mal editado, ou desrespeitoso com o público desde a concepção.

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O filme não precisa ser o que eu quero para que eu o aprecie e realmente, eu confesso que me diverti, mas o potencial desperdiçado é uma tristeza. O universo da história usada como base não é alterado, porque o risco não passa do título do filme. O vírus zumbi é mantido tão longe dos personagens originais, que no final o cruzamento dos gêneros parece nem ter acontecido. O que deu certo pra mim, foi manter constantemente a sensação de perigo a qualquer hora do dia e da noite. Durante um passeio solitário pelo campo ou na aglomeração de um grande baile. Eu acompanhei o lançamento do filme e notei discretamente que ele decepcionou crítica e público. Talvez o segredo pra curtí-lo seja assistir como eu fiz, com a expectativa lá no chão.

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