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Dirigido por Robert Rodriguez

O primeiro de uma dobradinha em honra ao estilo grindhouse de fazer cinema.

Heróis sem sobrenome e mais invencíveis do que o que costume. Garotas com nome e look de stripper, interpretadas por um elenco escalado pelos atributos físicos. Produções baratas para cinemas baratos, geralmente drive ins, onde era possível assistir a mais de um filme por apenas um ingresso. Bem vindo ao gênero Grindhouse, uma vertente do cinema independente dos anos 70, com pouca consideração por coerência no roteiro ou pelos aspectos visuais de um filme, sendo completamente dispensável e extremamente divertido pelas duas razões. Um prato cheio para os diretores Robert Rodriguez e Quentin Tarantino ressucitarem mais um velharia, como adoram fazer, para prestar um tributo e dar a categoria B, ou C a chance que nunca teve. A contribuição de Tarantino foi À Prova de Morte, um suspense sobre um dublê cinematográfico perseguindo gente inocente em uma estrada, mas o sucesso de Grindhouse aconteceu mesmo com Planeta Terror, de Rodriguez.

A abertura contém as vinhetas das produtoras dos dois diretores, antes que Planeta Terror se entregue aos rabiscos na película, à sujeira feita na pós produção, ao àudio oscilante e à avacalhação na forma de um trailer falso sobre um assassino mexicano, que de tão bem sucedido acabou sendo produzido de verdade e ainda teve uma sequência. Nós vemos roupas modernas, celulares, mas o filme tem a cara de um terror produzido em pencas entre os anos 50 e 60, durante o reinado de Vincent Price. Pode ser uma tentativa de explicação para o fenômeno Grindhouse, onde profissionais da época, que talvez não tivessem conseguido se manter em estúdios grandes através das décadas, acabaram trabalhando para financiadores amadores e levando com eles o estilo antigo de iluminação, enquadramento e fotografia, sem muita sutileza nos planos e com cores exageradas.

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É certo, no entanto, que por mais que Planeta Terror tenha uma obrigação com a grosseria, o compromisso maior da produção é fazê-la funcionar. Não havia problema se nos velhos tempos, o povo tinha intenções no drive in que iam além de assistir ao filme, mas Planeta Terror foi caro e precisa se pagar, com a paródia entretendo o público e elevando o nível da produção à altura do seu realizador. As atuação são muito boas, contrariando a pobreza forçada dos diálogos e as situações absurdas. Existe o suspense bem-humorado como um lembrete constante do tema central e existe o suspense verdadeiro, que não nos permite a distração, ou o desinteresse caso a piada fique velha muito rápido. Existe o efeito tosco e o efeito caro, como no caso da heroína do filme, que tem uma metralhadora no lugar de uma perna. A ideia do acessório é tão ridícula quanto tem que ser, mas impossível de ser bem feita com pouco dinheiro.

A história do filme é sobre uma pequena cidade do Texas, onde a stripper lamenta, o cozinheiro testa receitas, a esposa trai e a vida segue como sempre, até que a chegada de um bando de gente (que não precisa realmente de credenciais), brigando por alguma coisa ou motivo (realmente não faz diferença), e liberando uma substância letal na atmosfera, que também não é muito consistente em relação aos danos e ao alcance. É quando aparecem os primeiros sinais de que a maquiagem no filme tem o objetivo primário de embrulhar o estômago e o sangue é suficiente para ser doado para outros filmes de terror. A epidemia se espalha rápido, poupando personagens espalhados pela cidade, que aparentemente não tem nenhuma conexão, e que terão que se unir para escapar dos mutantes/zumbis-pensantes gerados pela contaminação.

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Planeta Terror é uma constelação de rostos familiares com destaque para Tom Savini na pele do assistente do xerife, e o próprio Tarantino como um militar violento com problemas sexuais. Só que o filme está longe de ser uma brincadeira entre amigos, mesmo com o sátira que é um rolo inteiro do filme faltando, entre outros “problemas” inventados para não serem consertados. Está na cara que Rodriguez quer fazer um filme divertido e ele é, mas este é um trabalho de profissionais muito bons. É um roteiro feito com muito amor, recheado de detalhes sem o mínimo sentido, para nos apresentar a uma cultura riquíssima obscura dentro da história cinema. Você pode se apegar a miudezas que te fazem perguntar como Cherry Darling consegue disparar tiros da metralhadora-prótese sem puxar o gatilho, mas eu recomendo que você não estrague a própria experiência questionando o inquestionável.

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