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Dirigido por William Brent Bell

Uma babá é contratada para cuidar da criança mais especial do mundo.

Eu nem me animei muito quando o trailer deste filme saiu, porque Annabelle é um desastre bem recente e com um tema muito semelhante. Eu também tinha a impressão de que a história era apenas uma catapulta sem muita dedicação, para impulsionar a carreira de uma estrela da tv. Filmes com bonecos possuídos como base não costumam terminar bem, e por “bem” eu quero dizer ter uma execução decente. Eu assisto a qualquer filme de terror, mas de vez em quando, não é sempre, eu quero que o terror seja bom, que me dê medo, que me surpreenda. Eu fico feliz em dizer que O Boneco, que pelo argumento tinha tudo para dar errado, acaba se tornando uma agradável surpresa. O filme é cheio de sustos e é facil encher um filme com eles e chamá-lo de terror, o difícil mesmo é fazer com que a sensação de abalo continue depois que o estômago volta para o lugar. O Boneco consegue ir contra a regra comum, porque o espanto não é gratuito, ele é precedido por angústia e seguido por medo.

Greta é uma jovem que sai dos Estados Unidos para trabalhar para uma família rica na Inglaterra. Eu presumo que Greta seja boa com crianças, já que realmente nós nunca saberemos, mas o cargo de babá do filho dos Heelshire foi perfeito para ela por outro motivo. O trabalho é temporário, mas vai durar por meses e a moça precisa de um bom tempo longe e escondida do ex-namorado violento. Os donos da casa irão viajar pela primeira vez em décadas e confiam os cuidados do seu bem mais precioso à Greta, com entregas frequentes de suprimentos e uma longa lista de afazeres. Os celulares não funcionam na propriedade, mas a babá pode manter contato com a família pelo telefone da residência. O lugar é bonito e afastado, fazendo com que o emprego seja perfeito a não ser por um detalhe gritante: não existe criança, apenas um boneco com as feições do verdadeiro filho dos Heelshire, morto em um incêndio há muitos anos. Seria o dinheiro mais fácil do mundo, poder jogar o boneco no armário e viver às custas dos patrões na mansão até que o contrato acabasse, mas o pequeno Brahms, que tem o nome e o gosto musical de um compositor do século dezenove, irá cuidar para que todas as obrigações da sua lista sejam cumpridas.

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Sabe o que também é incomum? Se um boneco está vivo e não é Woody ou Buzz, as chances são grandes de que ele vai atacar quem estiver por perto, mas não Brahms. O boneco é muito limpinho e bonitinho, porque não foi feito para assustar, mas isso não impede que a presença dele seja um empecilho. Mesmo sem o bônus da reclusão e do dinheiro, Greta não teria a coragem de recusar o trabalho, já que é evidente que os Heelshire nunca superaram a perda, e que o boneco é amado como um filho. Assim que o casal 20 se manda, a babá começa a perceber, pelos barulhos, pelos objetos que somem e reaparecem e pelas ocorrências nada acidentais, que Brahms se mantém vivo através do boneco. Ao contrário do que se espera no entanto, ela não sai correndo pela porta da frente e aceita o menino do único jeito que ele consegue viver. É uma escolha plausível, já que Brahms não tem a mínima intenção de lhe fazer mal.

Para o nosso desespero, a cena demora para cortar quando mostra Brahms sozinho, mas felizmente ele não se mexe. O diretor reconhece que não há a necessidade de banalizar a possessão, já que o efeito desejado é alcançado com discrição. O que acontece são várias sequências em que o boneco interage com o povo na casa, mas só quando os vivos do filme e o público assistindo não conseguem vê-lo. É difícil não imaginar com um certo ceticismo, como Brahms consegue correr com suas perninhas de porcelana, falar ao telefone… ou falar sem ter língua e alcançar lugares altos com sua estatura, como se fosse uma bem moldada e engomada entidade toda poderosa. Só que Brahms não é indestrutível, como prova a minha cena favorita no filme, onde um personagem que faz com ele o que todo mundo deveria fazer com bonecos do mal.

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Quando Greta é apresentada para Brahms no começo do filme, ela presume que a proposta de emprego não passava de uma pegadinha. A primeira impressão da jovem era puro preconceito, como o meu mau pressentimento em relação ao filme antes de vê-lo e nenhum dos dois se confirmou, mas Greta deveria ter feitos as perguntas certas, pelo menos a si mesma. Se o boneco era tão querido, porque os pais vão embora para tão longe e por tanto tempo, deixando-o sob os cuidados de uma estranha? O que Greta foi realmente contratada para fazer? O filme tem um mistério interessante sobre o passado para todos nós que gostamos destes, e também é cheio de pistas sobre o presente, para todos nós que adoramos relembrar cenas chaves dos filmes quando eles terminam. Agradaria até quem não gosta de terror.

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