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Dirigido por Tommy Lee Wallace

Goonies – Spielberg + Bozo from hell = It!

Em Derry, uma cidade do estado do Maine nos Estados Unidos (onde mais, em uma história de Stephen King?), uma terrível maldição se repete a cada trinta anos. Em números alarmantes para uma cidade do interior, crianças desaparecem para sempre ou reaparecem mortas com sinais de muita violência. É uma tradição horrorosa mantida com sucesso por que em uma cidade pequena, a sensação falsa de segurança permite que a molecada corra solta e se torne um alvo fácil de predadores. Outra coisa, o palhaço Pennywise, que sequestra e mata é uma entidade sobrenatural, não se intimidando com paredes e outros limites físicos. Mas o que realmente permite que as matanças se tornem parte da história de Derry, sem chamar a atenção nacional ou causar perturbações permanentes nas cabeças de todos, é a capacidade que os cidadãos têm para esquecer as visitas do palhaço assassino, assim que a estadia temporária termina.

Eu o assisti pela primeira vez quando foi lançado em vídeo, no formato de um longa metragem. Só depois de muitos anos que eu descobri que It era uma minissérie. Eu devo ter perdido informações pra caramba, mas nada que comprometesse o entendimento da história. Certas cenas, como as das fotografias em movimento, se fixaram na minha memória de tal maneira, que impediram que o mesmo efeito em Harry Potter fosse mágico, como era a intenção dos realizadores dos filmes do bruxinho de Hogwarts. Bocas de lobo ainda me deixam nervosa! Vendo a versão completa anos mais tarde, eu sinto uma mistura de satisfação e decepção. Adulta, mesmo adorando a história e contra a minha vontade o filme parece um pouco datado. Não é o livro mais sério ou cuidadoso de King, mas O Iluminado também não era e foi muito bem adaptado por mãos que tiveram a coragem de eliminar a fantasia e dar ênfase ao terror. It funciona bem para a televisão, tem efeitos especiais simplórios e atuações medianas. Foi um terror que marcou uma época e talvez somente nesta época ele foi um terror. Eu não vou negar que aproveitei muito o que vi, agradecida por cada cena que parecia uma novidade, mas o medo que eu tenho é remanescente da infância e não foi renovado.

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Os antigos membros do “clube dos perdedores” são hoje quarentões de sucesso espalhados por todo o território norte-americano. O nome do clube foi escolhido por conta do bullying e pelo sentimento de exclusão dos integrantes em relação às crianças mais sortudas, mas se considerarmos o fato de que a maioria deles teve uma perda dolorosa na família, o nome pode ter outros significados. Com olhos sofridos e solidários, somente eles na cidade enxergaram a conexão entre as tragédias que estavam acontecendo, ficando na mira do assassino. Michael, o único do grupo que permaneceu em Derry, presencia a história se repetindo com as crianças sumindo novamente e a polícia atrapalhada como antigamente. Não há dúvidas de que o palhaço voltou, mas Mike nem pensa em enfrentá-lo sozinho. Há trinta anos os pequenos perdedores expulsaram o demônio da cidade e prometeram que o fariam novamente se ele retornasse. O problema é que fora da cidade por tanto tempo, os agora adultos se esqueceram de tudo e cabe a Michael tirá-los da realidade para jogá-los novamente no pesadelo.

Pennywise deve ter sido o responsável por desencadear traumas em muita gente há algumas décadas. Digite Coulrofobia no google e constate a numerosa presença dele. Ele está sempre fazendo graça e contando piadas, mas não há nada de engraçado em um ser que desperta de tempos em tempos para controlar a explosão demográfica. Sarrista, sádico e faminto, ele se alimenta do medo e pode se transformar em qualquer um, entrar em qualquer casa e qualquer mente. No papel está o maravilhoso Tim Curry, o ator com uma cara super comum mas capaz de transformá-la nos vilões mais memoráveis do cinema. Ele é o Andy Serkis dos velhos tempos e foi a escolha perfeita para interpretar Pennywise.

itOutra coisa muito bem feita é a ênfase ao vínculo de amizade entre os heróis da história. A minissérie tem três horas e a gente nem sente, de tão agradável que é ver a interação entre os personagens, como crianças ou adultos. Ao redor tem parentes, professores, policiais, mas quando Pennywise aparece, só eles enxergam, e isso os aproxima. São sete amigos, com bastante tempo de cena cada um para detalhar confrontos individuais com o palhaço, as relações com os próprios familiares e uns com os outros, mas eu ainda sinto um cheiro de oportunidades perdidas. Eu aceitaria sem problemas mais um capítulo mostrando cenas dessas amizades de dar inveja, que incentivam o público a fazer e preservar amigos. Mais tempo seria útil também para fornecer respostas a muitas perguntas não respondidas na série, como as origens de Pennywise e uma explicação para o prazo de ausência dele na cidade.

Muitos dos contos de Stephen King estão ligados a acontecimentos ou medos desenvolvidos na infância do autor. Pensamentos que o incomodam por anos até que ele os exponha no papel, como um ato de exorcismo, tendo como pano de fundo quase sempre a terra natal. Com tantos personagens principais, o mais, digamos, evidente deles é um escritor de livros de terror, não há como negar a identificação com King. Em It, o vilão é demoníaco mas a aparência é familiar para crianças e adultos e este bicho-papão é mais do que sortudo, ele possui apoiadores indiretos. Os moradores não falam no assunto, não se ajudam e até se esquecem dos eventos, abrindo o caminho para uma entidade que só pode ser derrotada através da união e do repúdio ao medo. It é um manifesto do autor contra a omissão e a inércia diante de situações de perigo. Mesmo com defeitos, é prazeroso de assistir. Nenhuma porção dele pra mim é gordura, eu aceito tudo, até o que não me dá mais medo e eu o assistirei novamente daqui há algumas décadas, ele será a minha escolha saudável de “tradição/maldição”.

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